Um piloto a toda a prova. A história de um grande piloto de uma época em que as corridas eram ainda uma grande paixão e uma louca aventura.

1968, 1000 Km de Nürburgring. Vic Elford 'voando' no Porsche 908 (partilhado com Jo Siffert) a caminho de mais uma vitória.
Quando hoje pensamos nos contratos milionários de alguns pilotos e da exclusividade a uma determinada categoria, em especial no que respeita à F1, a que estão contratualmente sujeitos, facilmente nos esquecemos que outros tempos houve em que não era só a paixão por esse mundo mágico das corridas de automóveis mas, e sobretudo, porque ganhando ‘à peça’ se viam obrigados a assegurar suficientes prémios de presença e corrida que lhes garantissem o ‘ganha-pão’, o que tornava vulgar encontrar a maior parte deles, mesmo os mais consagrados, a correr em diferentes categorias em fins-de-semana consecutivos.
Em provas de pista como de estrada, desde a F1 aos ralis, passando pela F2, Turismos e Sports, o mais difícil, obviamente, não era propriamente correr, porque isso qualquer piloto que se preze saberá fazer em qualquer categoria. O difícil, e só ao alcance de muito poucos, era conseguir ser-se suficientemente versátil para atingir a excelência em todas as categorias em que se corresse.
Victor Henry Elford, nascido a 10 de Junho de 1935 em Peckham, nos arredores de Londres, se não foi um dos pilotos mais rápidos dos anos 60 e 70, como é considerado por muitos e a alcunha “Quick Vic” deixa perceber, foi certamente um dos mais versáteis e dos poucos a ganhar corridas ou atingir resultados de topo em diferentes categorias, a que apenas terá faltado uma vitória na F1.
O seu destino ficaria traçado quando aos 13 anos o pai o levou a assistir ao primeiro GP de Inglaterra do pós-guerra, no ano de 1949. Conta ele que nesse dia terá dito que “era aquilo que queria fazer!”, mas só em 1961 se iniciaria efectivamente nas corridas ao volante de um Mini, em provas de pista, estreando-se nos ralis no ano seguinte, com um DKW, categoria em que correria regularmente até 1968 e na qual conquistaria, em 1964, como piloto oficial Ford e ao volante de um Ford Cortina, um 11º lugar na sua estreia no “Tour de France”, e em 1967, já como piloto oficial Porsche, o titulo de Campeão de Europeu de Ralis, Grupo 3 1, com o Porsche 911 que ele próprio iniciou nos ralis 2.
Ainda nesse ano de 1967, Vic Elford, como ficou conhecido, conquistaria o título de campeão britânico de velocidade na categoria 2 litros e leva o Porsche 910 ao terceiro lugar na Targa Florio e nos 1000 Km de Nürburgring, mas é no ano seguinte que faria sua melhor época de sempre, com vitórias no mítico Rali de Monte Carlo 3 e na “Le Marathon de la Route” 4, com o Porsche 911, na lendária Targa Florio e nas 24 Horas de Daytona 5, com o Porsche 907, nos 1000 km de Nürburgring, com o Porsche 908, e segundo lugar nas 12 Horas de Sebring, ainda com o 907, e um quarto lugar 6 na sua estreia na F1, no GP de França, e que era aliás apenas a sua terceira corrida em monolugares 7.
A sua estreia na F1, embora tardia (contava já 33 anos), parecia igualmente promissora, mas terminaria praticamente com o acidente provocado pelos destroços do carro acidentado de Mário Andretti no Nürburgring, em 69, e do qual sairia milagrosamente apenas com pouco mais que um braço partido, só regressando para um única e última aparição em 1971, e de novo no velho circuito alemão, com a BRM (11º lugar). Não se pode no entanto dizer que um quarto, dois quintos e um sexto lugares em 13 GP’s, dos quais terminou 8, seja um mau registo, ficando por saber até onde poderia ter ido se tivesse iniciado mais cedo uma carreira nos monolugares.
Ainda em 69, levou o Porsche 908 ao segundo lugar nos 1000 Km de Brands Hatch, na Targa Florio e nas 6 Horas de Watkins Glen, estreando-se nas 500 Milhas de Daytona (a famosa prova da NASCAR, de que foi um dos primeiros europeus a disputar) com um 11º lugar, tripulando um Dodge.
Já em 1970 e de volta às pistas depois do acidente no GP da Alemanha, Elford conquista nova vitória nos 1000 km de Nürburgring, com um Porsche 908/3, e um segundo lugar nos 1000 Km de Brands Hatch e um terceiro nos 1000 Km de Spa-Francorchamps, no Mundial de Marcas; e ainda vitórias em Hockenheim ao volante de um McLaren M12, na prova a contar para a Intersérie (campeonato para veículos do antigo Grupo 7) e 500 Km de Nürburgring, a contar para o Europeu de Sport 2 litros, num Chevron B16.
Incansável, disputa igualmente nos Estados Unidos várias provas de Can-Am (constituindo o quarto lugar em Watkins Glen, com um Porsche 917K, e o sexto em Road Atlanta, com o célebre Chaparral 2J, os melhores resultados) e Trans-Am (vitória em Watkins Glen, ao volante de um Chevrolet Camaro).
No ano seguinte repete as vitórias nos 1000 e nos 500 km de Nürburgring 8, a primeira ainda com o Porsche 908/3, para o Mundial de Marcas, e a segunda com um Lola T212, a contar para o Europeu de Sport 2 litros; vence pela primeira vez as 12 Horas de Sebring, ao volante de um 917K da marca de Estugarda; conquista um terceiro lugar numa prova de Can-Am em Road América, com um McLaren M8E, e um segundo numa corrida de Trans-Am em Riverside, com um AMC-Javelin; e, ainda na Europa, e a contar para o Europeu de Sport 2 litros, chega em segundo em Paul Ricard e em Hockenheim, com o Lola T212.
Depois de seis anos de ligação oficial à Porsche, Elford transfere-se para a Alfa-Romeo em 1972, disputando o Mundial de Marcas com o 33TT3 da marca italiana com o qual conquista um terceiro lugar nas 6 Horas de Daytona e dois quartos lugares nos 1000 Km de Buenos Aires e nos 1000 Km de Brands Hatch; no Europeu de Sport 2 litros é segundo em Enna-Pergusa, com o Lola T290, e ainda tem tempo para dar uma perninha no Europeu de Formula 2, sendo quarto em Crystal Palace, ao volante de um Chevron B20, numa das duas corridas que disputou nesta categoria.
É ainda nesse ano de 1972 que os adeptos portugueses terão oportunidade de o ver ao vivo em Vila Real, no mês de Julho, ao volante de um dos três Lola T290 da Ecurie Bonnier (estando um dos outros dois entregue a Nicha Cabral). Tendo tido o azar de ficar no grupo que fez a qualificação no chuvoso sábado, não tendo assim conseguido ir além do 16º melhor tempo, Quick Vick não esteve de modas e logo na partida ‘despachou’ onze adversários não demorando muito a chegar à liderança, graças à desistência de José Juncadella, mas acabando também por desistir ingloriamente devido a problemas de refrigeração. No mês seguinte, será a vez de Angola receber a visita do piloto inglês, onde na companhia de Gérard Larrousse disputa as 6 Horas de Nova Lisboa 9 ao volante do Lola T290 da Ecurie Bonnier.
Quase dois segundos mais rápidos na qualificação, Elford e Larrousse não iriam porém além do segundo lugar devido à quebra do motor à entrada para o último quarto de hora da prova.
Nesta altura Elford está já no ocaso da sua carreira, reduzindo a partir de 1973 as suas participações em provas desportivas, da quais se destaca apenas um sexto lugar nas 24 Horas de Le Mans desse ano, ao volante de um Ferrari 365 GTB/4 e uma vitória em Hockenheim, ao volante de um Porsche 917/30, numa prova da Intersérie.
Data igualmente desse ano de 1973 a sua última presença em Portugal, mas em que, de regresso a Vila Real e agora ao volante de um March S73 BMW, voltaria a não terminar a corrida.
Depois do abandono da competição logo após as 24 Horas de Spa-Francorchamps em 1975, corrida que disputou ao volante de um Triumph Dolomite mas não terminou devido a problemas mecânicos, Elford só em 1983 voltaria às pistas, depois de uma curta experiência como director desportivo da ATS na Formula 1, para disputar as 24 Horas de Le Mans integrado na Equipe Rondeau 10, partilhando um M379 do pequeno construtor francês com os franceses Joël Gouhier e Anny-Charlotte Verney, mas não chegando no entanto a cumprir sequer sete horas de prova devido a problemas de motor.
Numa entrevista ao site classicrallies.com , em Março de 2006, lembrou, como melhor recordação, a Targa Florio de 1968 em que recuperou de um atraso de 18 minutos devido à perda de uma roda, logo na 1ª volta, para a vitória final, e, pela razão oposta, a “Coupe des Alpes, de 1966, em que liderou toda a prova, quer na categoria GT quer na de Turismos, até o Lotus Cortina estoirar na última classificativa, uma das mais fáceis da prova. E quando questionado sobre a sua acção no acidente que vitimou Jo Bonnier nas 24 Horas de Le Mans de 1972, que lhe valeu a condecoração, pelo Governo francês de Cavaleiro da Ordem Nacional de Mérito, Elford limita-se a dizer que, embora sinta orgulho no reconhecimento, não acha ter feito nada de especial afirmando que “se a vida de um piloto estava em risco, achava perfeitamente normal tentar salvá-lo”.
Para além das corridas, Elford foi um dos pilotos contratados por Steve McQueen para as filmagens dos célebres grandes planos a alta velocidade do filme “Le Mans”, tendo ainda emprestado a voz à narração do documentário de Michael Keyser, de 1972, “The Speed Merchants” 11.
Residindo actualmente no Sul da Califórnia, com a sua mulher Anita, de onde vai saindo para visitar os amigos e participar em demonstrações de carros históricos, Elford afirmou nessa entrevista ao classicrallies.com que apesar de ter sido durante seis anos piloto oficial da Porsche, e porque os carros alemães “são demasiado caros”, prefere utilizar no dia a dia um velho Ford Escort ”com sete anos, que é tudo o que preciso para ir até ao aeroporto sabendo que ele ainda vai lá estar quando voltar”…
Anexos
Fabulosas imagens de Elford na Targa Fiorio, em 1972, ao volante do Alfa 33TT3, narradas pelo próprio:

Elford nas comemorações do 100º aniversário da Targa Fiorio, em 2006:

Fontes:
www.vicelford.com; www.f1total.com.br; en.wikipedia.org; www.grandprix.com; www.f1statistics.com; sportscargt.com.sapo.pt; www.world-of-cortina.co.uk/vic-elford.php; ashcom.homestead.com/Elford2J.html
- Com vitórias nos ralis de Genebra, Estugarda-Lyon-Charbonnières e Tulipas e pódios no Monte Carlo e na Córsega. ↩
- Ver entrevista a publicar na 2ª parte ↩
- Foi o último piloto britânico a ganhar o Rali de Monte Carlo. ↩
- Originalmente a designação era atribuída ao Rali Liége-Roma-Liége, prova que se disputou entre 1936 e 1960 ligando, por estradas abertas, estas duas cidades. Entre 1961 e 64, Roma seria substituída pela capital búlgara, Sofia, e, entre '65 e '71, acabaria transformada em prova de resistência para carros de turismo disputada em circuito fechado, no velho Nürburgring, durante nada mais nada menos que 84 horas! ↩
- Primeira vitória da Porsche numa corrida de 24 Horas. ↩
- À chuva e com o carro considerado o mais lento do plantel, o Cooper T86B (com que a marca inglesa disputava o seu último ano, a nível oficial, na disciplina) com o qual se havia qualificado no último lugar. ↩
- Na primeira, com um Protos 16 de F2, foi sétimo em Nürburgring, e na segunda, em Monza, com um Brabham BT23C, desistiu. ↩
- Vic Elford partilha com Rudolph Caracciola o recorde de seis vitórias absolutas no mítico Nürburgring-Nordschleife. ↩
- Actual Huambo. A esse propósito vale a pena lembrar as histórias do nosso colega e amigo e ex-director da prova Armando de Lacerda, contadas no Fórum Autosport: 6 Horas Internacionais de Nova Lisboa; 6 Horas Internacionais de Nova Lisboa de 1972; 6 Horas Internacionais de Nova Lisboa - Conclusão; Miss Portugal e as 6 Horas de Nova Lisboa ↩
- Ver a esse propósito o último artigo da série “Jean Rondeau, o filho de Le Mans” ↩
- Também editado em livro: KEYSER, Michael - “The Speed Merchants-A Journey through the World of Motor Racing, 1969-1972”. Cambridge, MA, USA: Robert Bentley Inc. Automotive Publishers, 1973 (1ª Edição). ISBN-10: 0-8376-0232-7; ISBN-13: 978-0-8376-0232-5. (a visualização de algumas páginas está disponível aqui ↩
2 Comentários



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Gostaria apenas de referir, que no ano de 1972, o “Grande” Vic Elford foi condecorado pelo presidente Francês à altura, pois em plena corrida e tendo visto o Ferrari 365, Nº35 do Florian Vetsch em chamas, parou de imediato e foi socorrer o piloto numa zona em que não estavam praticamente nenhuns comissários de pista.
Isto sim, marca a diferença, muito mais do que meras vitórias.
Aqui fica o video do sucedido em Le Mans 1972…neste acidente faleceu o Jo Bonnier que embateu com o Lola T280 Nº8 no Ferrari 365, Nº35 do Florian Vetsch:
http://www.youtube.com/watch?v=zlNe5pECpNo&feature=related
De facto. O Presidente Francês de então, Georges Pompidou, condecorou-o como “Chevalier de l’Ordre National du Mérite“. A Ordem de Mérito Nacional é a quarta mais alta distinção concedida pelo Estado Francês, e o Grau de Cavaleiro é o mais alto dentro desta distinção. Actos como os que Elford protagonizou nesse dia, eram até relativamente comuns nesse tempo, mas duvido que fossem possíveis hoje em dia.