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21 de Abril de 2010

Quanto custam as corridas de automóveis? — 4ª Parte

Dossier: Quanto custam as corridas de automóveis? — Parte 5 / 7

Depois de completarmos a série de artigos Quanto Custam as Corridas de Automóveis no American Le Mans Series, pediram-nos que incluíssemos o custo dos Grand Am Daytona Prototypes.

As informações, mais uma vez, foram-nos fornecidas por engenheiros, directores e proprietários de equipas, entre outros. E tal como nos artigos anteriores, os dados foram tratados de forma a manter as nossas fontes - bem como a sua informação comercial - na mais estrita confidencialidade, conforme o compromisso que havíamos assumido. A manutenção da estrutura dos artigos sobre o ALMS permite-nos estabelecer uma comparação directa e focarmo-nos no que é semelhante - e diferente - entre ambas as Series.

Inclusões e exclusões

O objectivo da nossa ‘equipa’ é ser competitiva, não necessariamente do tipo Ganassi ou Penske, mas capaz de se bater com eles. Ou seja, nem das mais pequenas, nem das maiores -uma estrutura razoavelmente bem dotada de pessoal e equipamento, capaz de lutar pelos pódios, ou até melhor. Serão a Sun Trust ou a Gainsco bons exemplos? Ou talvez a Alex Job Racing?

Em nenhum dos artigos incluímos os custos de relações públicas, promoção ou publicidade. Em geral, esses custos não diferem nos dois campeonatos. Estes artigos concentram-se essencialmente nos custos directos operacionais.

Há uma necessidade substancial de investimento na oficina e respectivo equipamento, ferramentas e equipamento de pit e paddock. Precisamos de um quadro de pessoal, qualificado, para trabalhar a tempo inteiro. Faz mais sentido contratar uma equipa, tanto no Grand Am como no ALMS, do que construir uma de raiz, mas neste caso vamos construir a nossa ‘do nada’ de forma a melhor percebermos como tudo funciona, como o havíamos feitos nas partes 1, 2 e 3.

Base de operações

A nossa oficina permanente ficará situada nas Carolinas ou na Florida, de fácil acesso a muitas das pistas onde iremos correr. Precisamos de cerca de 8.000 m2 para armazém, escritório e área de trabalho. A renda anual andará à volta dos $48,000 ($6.00/m2). A montagem da oficina custará cerca de $15,000 - uma vez que se trata de um programa a três anos, este valor será distribuído pelos três anos. Paras despesas correntes - climatização, luz, telefone, água, esgotos, etc. - há que contar com mais $1,000/mês, $12,000/ano. O custo anual do aluguer da oficina e das despesas correntes será de $65,000, exactamente o mesmo que custava à nossa equipa do ALMS.

Relativamente ao equipamento de oficina, pit e paddock que precisamos para as corridas, vamos adquirir material já usado mas que esteja em bom estado. Tudo junto, deverá rondar os seguintes valores:

Oficina: ferramentas, macacos, tróleis, cabines, equipamento diverso, etc $ 65,000
Paddock: tenda, estrados, mesas e cadeiras, toldos, ventiladores, etc $ 40,000
Pit: pneus, jantes, pistolas, mangueiras e depósitos, equipamento de monitorização e telemetria, equipamento de comunicação, equipamento/vestuário do pessoal $ 145,000
Total $ 250,000

Na montagem de uma infraestrutura de qualidade para uma equipa, seja ela do Grand Am ou do ALMS, os custos não serão substancialmente diferentes. A amortização dos custos de aquisição de capital (subtraído de um valor residual de $100,000) será feita ao longo dos três anos, a um custo anual de $50,000.

IMAGEM: GRAND-AM

Camião

No actual quadro económico, com muitas equipas em dificuldades, teremos oportunidade de adquirir um camião usado, quase novo, topo de gama. O tractor deverá custar cerca de $100,000, muito menos que um novo, e gastaremos mais $150,000 num atrelado com capacidade para dois carros e totalmente equipado - incluindo gerador, ar-condicionado, escritório com equipamento áudio-vídeo, toldo, torno e outras máquinas, ferramentas e equipamento diverso. De acordo com o nosso plano, o custo será amortizado ao longo dos três anos, com um valor residual de $50,000 para o tractor e $100,000 para o atrelado. Ou seja, $50,000/ano ($250,000 menos $100,000 a dividir por 3). Mais uma vez, o que vale para a nossa equipa do ALMS vale para a equipa de Grand Am - nem mais, nem menos.

Montagem da equipa

Para a nossa equipa do ALMS tínhamos contratado seis empregados a tempo inteiro. Mas quando enviamos o rascunho deste artigo para revisão, pensando que para o Grand Am, sendo um campeonato supostamente menos sofisticado em termos de tecnologia, cinco pessoas seriam suficientes para garantir a ‘dose’ mínima de talento necessária. Como irão ver daqui para a frente, tivemos de repensar essa ideia.

De facto, pensávamos distribuir as tarefas de recolha e análise de dados entre o engenheiro e o mecânico assistente. Mas foi aqui que a nossa ‘revisão especializada’ detectou os primeiros problemas do tipo ‘estás maluco?’ (bem, de facto ninguém disse isso, mas estão a perceber a ideia?…). Por exemplo: “Para ser franco, o nível competitivo do Grand-Am exige de qualquer equipa que queira lutar pelos pódios tenha um analista de dados propriamente dito contratado a tempo inteiro ou, no mínimo, contratado por cada fim-de-semana de corrida. O tempo do engenheiro-e-mecânico já passou há muito”. Consequentemente, acabamos por nada poder poupar por essa via. Vamos subcontrata-lo e acrescentar aos custos do pessoal temporário.

Precisamos de um team manager, um engenheiro, um chefe de equipa/chefe de mecânicos, um mecânico assistente/técnico de compósitos, um condutor de camião/ajudante de box - ou seja, cinco empregados a tempo inteiro com um custo anual, incluindo encargos (seguro de saúde, férias, segurança social, planos de reforma, etc), de $475,000.

Já temos então a oficina, o equipamento e um quadro fixo de pessoal técnico qualificado, com custos fixos anuais que ascendem a $640,000.

Somatório dos custos fixos:

Aluguer de oficina, infra-estruturas, seguros, etc. $ 65,000
Ferramentas e equipamento de oficina, paddock e pit (1/3 do custo liquido total por ano) $ 50,000
Tractor e semi-reboque, (1/3 do custo liquido total por ano) $ 50,000
Empregados a tempo inteiro, incluindo todos os encargos $ 475,000
Custo total anual, arredondado $ 640,000

Um Riley ou… um Riley?

Porque afirmámos que queremos ser competitivos, só nos resta uma opção entre os Daytona Prototypes: o Riley Technologies Mk XX.

Tendo em conta as recentes actualizações e desenvolvimentos, vamos optar por um chassis novo, embora pudéssemos aproveitar um já usado, que os há por um bom preço - cerca de $150,000 já com o ECU standard do Grand Am e um par de motores (para os quais ainda precisaríamos de renegociar um contrato de apoio técnico). O mesmo conjunto novo custa cerca de $650,000.

Excluindo os motores, o carro novo custa cerca de $550,000 com todos os ‘opcionais’ incluídos (telemetria, dispositivos aerodinâmicos, pára-brisas climatizado e outros dispositivos de regulação), bem como o ECU standard homologado pelo Grand Am.

E a revenda posterior? Bem, o mercado já está algo saturado, e no fim do nosso programa já estaremos bem próximos do final dos 10 anos de ‘estabilidade regulamentar’ apregoados pelo Grand Am… Por isso, é melhor não esperar que nosso Riley nos permita recuperar mais de $125,000.

O custo será então a diferença entre o valor de aquisição e de revenda, ou seja, $425,000 -cerca de $140,000/ano para um programa de 3 anos. A esse valor acrescente-se ainda um mínimo de $50,000/ano para pacotes aerodinâmicos “de desenvolvimento contínuo” e outras actualizações (que embora mencionadas nas especificações da Riley estão muito condicionadas pelos regulamentos do campeonato).

O Riley MKXX. IMAGEM: Grand-Am

Eis os custos do nosso Daytona Prototype

Aquisição inicial de um Riley MkXX $ 550,000
Mais: actualizações do 2º e 3º ano (cerca de $50,000 cada) $ 100,000
Menos: Valor residual ao fim de três temporadas $ 125,000
Custo líquido $ 525,000
Custo líquido anual do protótipo, incluindo actualizações e descontando o valor de venda ao fim de três anos de uso $ 175,000

Motivação

Notem que o nosso DP é apenas carcaça, pois, tal como no ALMS, os motores são objecto de contracto autónomo. E no que respeita a motores, um Daytona Prototype fica ligeiramente mais barato que um LMP - $175,000/ano, de acordo com o nosso orçamento, valor no entanto variável consoante com o construtor, como é óbvio.

Sendo um campeonato de pilotos, logo…

Queremos que a nossa equipa seja competitiva, por isso não estamos a pensar ‘contratar’ gentlemen drivers bem abonados nem profissionais semi-reformados; e o proprietário da nossa equipa não tem pretensões a ser piloto de corridas. Vamos por isso contratar pilotos que possam competir com as equipas de topo, tal como fizemos no nosso exemplo do ALMS: um ‘jovem lobo em ascensão’ e um ‘veterano’, contratados como independentes. O custo total (incluindo encargos e despesas de viagens) deverá rondar os $275,000.

Daytona Prototype (custo anual para um programa de 3 anos, não incluindo reconstruções de motores) $ 175,000
Pilotos profissionais - dois, contratados como independentes $ 275,000
Custo Total Anual para carro e pilotos $ 450,000

Ponto de situação

Aluguer da oficina, energia, água, seguros, etc $ 65,000
Equipamento de oficina, paddock e pit (1/3 do valor líquido por cada ano) $ 50,000
Veículos de transporte (1/3 do valor líquido por cada ano) $ 50,000
Empregados a tempo inteiro (custo incluindo encargos) $ 475,000
Daytona Prototype $ 175,000
Pilotos $ 275,000
Custo Total sem o orçamento para corridas (a transportar) $ 1,090,000

A temporada vai começar

Janeiro de 2009 - estamos agora a caminho do ‘The World Center of Racing’ com a nossa equipa Last Turn Motorsports. Seremos um dos cerca de vinte DP inscritos na clássica ‘volta-dupla-ao-relógio’ e dos doze que irão disputar a totalidade do campeonato.

Temporários

A equipa permanente de cinco técnicos será complementada durante cada fim-de-semana de corridas com mais dois mecânicos, um técnico de pneus e um mecânico estagiário/indiferenciado. Dessa forma, conseguimos preencher as vagas de técnico de reabastecimento, ‘porta-extintor’ e ‘troca-pneus’. Vamos ainda contratar um técnico de dados. O nosso orçamento para estes adicionais, considerando as 12 corridas do campeonato, será assim de $102,000.

Sapatos italianos

A Pirelli é o fornecedor oficial do campeonato, cobrando por cada conjunto $2,040. Como vamos precisar de 120 conjuntos por temporada, sem contar com os pneus de chuva (um bocado mais baratos, de qualquer forma), isso dá $240,000, quase tanto quanto nos custavam os Michelin no ALMS. Os Pirelli são mais baratos, mas vamos precisar de mais pneus. Para combustível, acrescentemos mais $20,000.

Sentir a potência

O programa de motorização deve rondar os $175,000, considerando quatro motores novos: um para Daytona, um para Watkins Glen e dois para as restantes corridas.

Peças e pedaços

Ao contrário do que muita gente pensa, os elementos da carroçaria de um DP também são de fibra de carbono, e não são nada baratos. Um team manager disse-nos que gastava tanto em reparações no Grand Am como no ALMS. Vamos então considerar um mínimo de $250,000 para peças, pinturas e consertos, para uma temporada de 12 corridas.

Mundanidades essenciais…

…do tipo: inscrições, licenças, seguros. Inscrições devem rondar os $57,500. Acrescente-se mais cerca de 8,500 para licenças e credenciais e $65,000 para seguros, e chegamos a um valor total de $130,000.

Como chegar lá

As viagens fazem-se pelo ar, em classe económica, para o pessoal, e por estrada para o equipamento. Um das corridas é “em casa”, pelo que aí muitos de nós serão… “locais”. As viagens de avião custarão $50,000. Como os dias de viagem são pagos ao dia, orçamentamos $16,000 por dia.

O alojamento deverá custar cerca de $153,000. Dar de comer à malta durante esses fins-de-semana deverá custar-nos $82,000. Aluguer de viaturas, lavandaria, telefone e outros custos diversos associados deverão rondar os $33,000.

Ainda que tenhamos procurado todas as formas de manter o nosso programa Grand Am o mais barato possível, os hotéis insistem em cobrar tanto aos nossos ‘pategos bebedores de cerveja’ como aos ‘finórios do queijo e do vinho’ do ALMS. E também comemos tanto como eles…

E há ainda que contar com os custos operativos do camião, essencialmente combustível - cerca de $35,000.

Sumário do orçamento para corridas

Pessoal contratado em part-time $ 102,000
Pneus e combustível $ 260,000
Motor $ 175,000
Peças, pintura e bate-chapas $ 250,000
Taxas de inscrição, licenças, seguros $ 130,000
Viagens de avião (por dia), hotel, catering, aluguer de viaturas, etc $ 334,000
Custos operativos do camião $ 35,000
Orçamento para corridas $ 1,286,000

Tabela de custos comparados ALMS/Grand Am

Programa Le Mans Prototype Programa Daytona Prototype
Pessoal a tempo inteiro $ 715,000 $ 640,000
Carro e pilotos $ 510,000 $ 450,000
Orçamento anual para corridas $ 1,625,000 $ 1,286,000
Média de Custo Anual ao longo de 3 anos $ 2,850,000 $ 2,376,000

Embora não estejam aqui incluídos, também precisamos de um contabilista, um (ou uma) relações públicas e, claro, umas quantas fotos nossas no pódio. Ponham aí mais cerca de $80,000. E talvez precisemos de alguém que cuide dos nossos patrocinadores… ou vá à procura de novos… mas, deixemos isso para depois.

Muitos dos comentários que recebemos, do nosso rascunho, sugeriam que os custos deveriam ser, de alguma forma, superiores aos que apresentamos. Uma equipa DP indicou custos “semelhantes aos de uma equipa GT do ALMS”, os quais, como havíamos visto nas partes 1 a 3 desta série de artigos, devem rondar os 2.6 milhões de dólares. Um outro team manager afirmou que o seu orçamento para a classe DP em 2007 “rondou os 3 milhões”.

Está visto que adoptamos uma abordagem conservadora, mantendo os custos um pouco abaixo das “recomendações”. Esperemos não levar muita ‘pancada’ (ou dar muita…), caso contrário o nosso orçamento para reparações desaparece num ápice. Não temos a certeza de que os 2.4 milhões sejam suficientes para ganhar corridas, como as equipas que gastam entre 2.6 e 3.0 milhões, mas pensamos que com o nosso Riley equipado com o motor certo seremos capazes de dar luta aos líderes do Grand Am - pelo menos tanta quanto esperamos dar no ALMS com o nosso Lola coupé.

Fonte: The Last Turn Clubhouse
Autor: Tom Kjos (2009/01/03)
Tradução: Vítor Ribeiro (2010)

[Continua]

3 comentários até ao momento...
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  1. Litleoak diz:

    No conjunto (excelente) dos artigos já dá para perceber quanto anda a gastar o MPAmaral, é claro que a estrutura é da ASM mas não deve andar muito longe, até porque as empresas que estão nas carenagens do Gineta são quase todas do universo empresarial dele.
    Só falta mesmo apostar num terceiro piloto português, mas um que queira fazer carreira na endurance e já tenha perdido a ideia parva de chegar á F1 a todo o custo.

  2. carlos pereirinha diz:

    os meus parabens por este trabalho.acho que tambem seria interessante saber as receitas ou as possiveis receitas como por exemplo:patrocinios,prèmios das corridas e do campeonato,etc.

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