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Quanto custam as corridas de automóveis? — 1ª Parte

por Vitor Ribeiro, 2 de Abril de 2010 6 Comentários

Cost of Racing 1
Dossier: Quanto custam as corridas de automóveis? — Parte 2 / 7

A contracção da economia global terá forte impacto no desporto automóvel, podendo mesmo ameaçar a sua existência. Desde o lançamento do nosso site The Last Turn Clubhouse, em 2007, temos vindo a falar sobre o desporto automóvel enquanto negócio competitivo, a alertar para os riscos que corre face à crise no crédito bancário e a analisar as ameaças que enfrenta neste contexto.

Mas mais importante que discutir quem irá preencher as grelhas das corridas de automóveis, em 2009, é perceber porquê. Ou porque não. Em tempos tão conturbados como os que vivemos, não bastam ideias feitas - é preciso, antes de mais, compreender os custos das corridas de automóveis.

Método

De facto, para compreender os desafios que as provas profissionais de sportscars enfrentam é essencial conhecer os custos que lhes estão associados. Para tal, fomos colocar a questão a alguns amigos nossos, desde engenheiros e team managers a proprietários, entre outros. Conseguimos obter um pouco de tudo, desde documentos detalhados a um único número no fim de apenas uma linha. Ouvimos participantes em corridas de protótipos e GTs nos campeonatos American Le Mans Series (ALMS), Le Mans Series (LMS) e Grand Am. A informação recolhida foi tratada de forma de forma a manter na mais estrita confidencialidade quer as nossas fontes quer a sua informação comercial.

Inclusões e exclusões

Nas duas primeiras partes descrevemos os custos de participação de um protótipo ou GT competitivos no ALMS, a partir de um exemplo fictício. O exemplo que iremos dar não será representativo das operações mais baratas, mas também não o será daquelas mais dispendiosas, que contam com o apoio oficial de uma marca. Será antes o exemplo de uma equipa razoavelmente provida de pessoal qualificado e equipamento, capaz de lutar pelos pódios ou até mais do que isso. Essa nossa equipa não será a melhor equipada das privadas, mas também não será das que anda na corda bamba. Não incluímos o custo de Relações Públicas, nem as acções de paddock/pista ou custos com activação de patrocínios e marketing. Essas são acções que devem ser feitas, claro, mas que beneficiam em primeiro lugar os próprios patrocinadores e não a equipa.

Antes de vermos desfraldada a primeira bandeira verde, há um significativo montante de investimento que temos ainda de fazer, e que inclui a aquisição de uma oficina e do equipamento necessário, assim como a contratação de pessoal especializado a tempo inteiro. É por isso é bem mais sensato ‘alugar’ uma equipa que montar uma. No entanto, nós vamos criar a nossa equipa a partir do zero, de forma a melhor compreendermos todas as suas componentes.

Na 1ª parte trataremos de encontrar uma oficina, adquirir o equipamento e o camião de transporte, assim como contratar pessoal a tempo inteiro. Na 2ª parte iremos tratar da compra do carro, da contratação dos pilotos e do planeamento orçamental para uma temporada de 11 corridas.

Consideramos a aquisição de dois carros. Como a infra-estrutura da equipa tanto suporta um como dois carros, há economias de escala, mas uma vez que o nosso propósito é fazer a análise de custos, um carro torna as contas mais claras. Para já, resistimos à tentação de comparar campeonatos – talvez o façamos no futuro.

Base de operações

Começamos por arrendar uma oficina no sudoeste dos EUA, de onde facilmente acedemos a pistas onde iremos correr e testar. Cerca de 740 m2 é suficiente para armazém, escritório e área de trabalho. A renda anual deverá andar pelos $65/m2, ou seja, cerca de $48.000/mês. A montagem custará cerca de $15.000. As infra-estruturas – climatização, electricidade, telefones, águas, esgotos – andará à volta de $1.000/mês, ou seja, $12.000/ano. O investimento na montagem da oficina será amortizado em três anos - esse será também o prazo do arrendamento.

Portanto, para a oficina e infraestruturas associadas, teremos um custo anual de $65.000.

Equipamento

Vamos agora ao equipamento necessário para as corridas. Sempre que possível, iremos adquirir equipamento e ferramentas – para oficina, paddock e pit – usadas mas em bom estado. Uma das nossas fontes sugeriu custos de equipamento mais elevados do que os que apuramos – o que demonstra as diferenças que podem existir nesse âmbito.

Aquelas três categorias distribuem-se, grosso modo, da forma abaixo indicada, embora seja um bocado arbitrário, já que há ferramentas e equipamentos que tanto podem ser usadas na oficina como são depois levadas para as corridas.

Oficina: ferramentas, macacos, tróleis, cabines, equipamento diverso, etc $ 65,000
Paddock: tenda, estrados, mesas e cadeiras, toldos, ventiladores, etc$ 40,000
Pit: pneus, jantes, pistolas, mangueiras e depósitos, equipamento de monitorização e telemetria, equipamento de comunicação, equipamento e vestuário do pessoal $145,000
Total $ 250,000

IMAGEM: ALMS

Camião

Precisamos também de um camião para transporte do equipamento para as corridas e testes. O custo de um camião, novo, devidamente equipado - com todo o equipamento necessário para o paddock, pit e corridas - deverá rondar os $750.000, de acordo com uma das nossas fontes.

Não nos esqueçamos no entanto do ambiente económico em que estamos a lançar a nossa equipa – as coisas não está nada fáceis. Grandes equipas da NASCAR têm revisto e desistido das suas inscrições. Há também equipas no Grand-Am e no ALMS a irem-se embora e não voltarem. No início da temporada 2008, perdemos o Champ Car, um campeonato profissional que desapareceu por completo. Um tractor usado, mas como novo, não deverá custar mais de $100.000, muito menos que um novo. O semi-reboque, com capacidade para dois carros e totalmente equipado para apoio às corridas, não deverá ultrapassar os $150.000, muito menos que um novo. O equipamento inclui ar condicionado, gerador, escritório com equipamento áudio e vídeo, toldo e máquinas e ferramentas diversas. De acordo com o nosso plano, o custo do camião será distribuído pelos três anos, estimando-se que no fim desse período o custo residual seja de cerca de $50.000 para o tractor e $100.000 para o semi-reboque. O valor de revenda, no entanto, poderá vir a ser superior se o eventual comprador tiver intenção de o manter ligado às corridas em 2012. O custo de capital para o camião de transporte e respectivo equipamento é de $50.000 por ano ao longo de 3 anos ($250.000 menos $100.000 a dividir por 3). O custo inicial é de $250.000.

Montar a equipa

Seis empregados a tempo inteiro constituirão a equipa base de que necessitamos para sermos competitivos. Nem todas as equipas o fizeram, e os resultados comprovam-no.

A nossa equipa a tempo inteiro consiste num team manager, um engenheiro, um técnico de recolha e análises de dados, um chefe de equipa/mecânicos, um mecânico assistente/técnico de materiais compósitos e um camionista/ajudante de paddock e pit. As qualificações podem variar dependendo dos candidatos disponíveis. Os restantes serão contratados ‘à peça’, ou seja em regime de part-time apenas para cada evento. O custo total anual com pessoal, incluindo despesas de saúde, segurança social, férias e outras regalias, ascende a $550,000.

Temos então uma oficina, o equipamento e uma equipa base experiente e altamente qualificada, cujo custo anual global ascende a cerca de $710,000.

A soma de custos anuais é então a seguinte:

Aluguer de oficina, infra-estruturas, seguros, etc. $ 65,000
Ferramentas e equipamento de oficina, paddock e pit
(1/3 do custo liquido total por ano)
$ 50,000
Tractor e semi-reboque
(1/3 do custo liquido total por ano)
$ 50,000
Empregados a tempo inteiro, incluindo todos os encargos e regalias$ 550,000
Custo total anual, arredondado$ 715,000

IMAGEM: ALMS

A despesa inicial deverá ascender assim a cerca de $1,125,000, embora na realidade os números possam ser diferentes. Atenção, no entanto, às comparações com operações sobre as quais não há detalhes suficientes.

Notem também que a nossa equipa - até agora - ainda não se decidiu entre os protótipos e os GTs. No nosso exemplo, os custos referidos nesta 1ª Parte são idênticos, e só na 2ª Parte identificaremos as divergências entre as duas situações.

Estamos agora em condições de adquirir o nosso carro, contratar pilotos e orçamentar o nosso programa de testes e corridas. É isso que faremos na 2ª Parte.

Fonte: The Last Turn Clubhouse
Autor: Tom Kjos (2008/11/16)
Tradução: Vítor Ribeiro (2009)

[Continua]