As 24 Horas de Le Mans representam ainda hoje, para uma grande parte dos adeptos do automobilismo, a maior corrida do mundo, com tudo o quanto essas designações e qualificativos têm de subjectivo. Nenhuma outra corrida soube atravessar o século XX incólume mesmo à mais dramática das tragédias, encontrando sempre forma de se auto-regenerar e mantendo sempre o interesse de multidões por esse mundo fora, atraídas pela presença da nata dos pilotos de corridas de automóveis e pelo desejo de assistir a um dos maiores desafios à resistência de homens e máquinas.
A pouco menos de um mês de mais uma edição da mítica corrida, precisamente a 75ª , que este ano 1 tem para nós, portugueses, o interesse acrescido de termos um piloto nacional a lutar pela vitória à geral e um outro, qual cereja em cima do bolo, integrado numa equipa, também ela portuguesa, com aspirações à vitória na classe, lancemos um breve olhar pelos seus 84 anos de história.
Muito ficará por dizer, muitas histórias por contar. Este ‘dossier’, no entanto, não tem a pretensão de ser ‘definitivo’ mas antes uma visão muito própria da informação disponível a qualquer cibernauta.
Para começar, deixamos-vos com este belo texto, que traduzi do original em inglês publicado na revista on-line Winding Road, em que o jornalista americano David E. Davis, Jr. 2 relata uma viagem entre Paris e Le Mans, no ano de 1967, na companhia de Dan Gurney, piloto americano que venceria nesse ano a clássica francesa na companhia de A.J.Foyt.
Vítor Ribeiro & Hugo Ribeiro
De Paris a Le Mans com Dan Gurney
David E. Davis, Jr.
Naquele dia tivemos sorte, é o que eu acho. Preparávamo-nos, eu e Peter Biro, para deixar Amesterdão após o GP da Holanda de 1967 de F1, disputado em Zandvoort, quando já nos arredores da cidade parámos para trocar algum dinheiro. De volta à estrada, deparámo-nos com o pequeno Mini Downtown de Dan Gurney estacionado em frente a uma outra casa de câmbios.
Saímos logo da auto-estrada, saltamos do carro e trocamos cumprimentos com Gurney e o seu manager - "Como é que é, vamos juntos para Le Mans? ‘Bora lá!" - Saltamos de novo para os carros e toca a pisar no acelerador. Entretanto, ligamos o rádio -"Espera aí, o que é estão a dizer? Guerra?" - Abrandamos e procuramos escutar o melhor possível a Armed Forces Radio (AFR): tinha começado a Guerra dos Seis Dias entre Israel e os países árabes. Logo aceleramos de novo, para passar Gurney, abrimos a janela e pusemos o volume no máximo. Como Gurney não tinha rádio, ambos paramos para ouvir. Gurney, com ar sério, ouve em silêncio durante alguns instantes e exclama: “Eh pá, pobres dos árabes”.
De volta à estrada, seguimos em direcção em Paris com um certo sentido de urgência. A cada passagem de fronteira ou engarrafamento de trânsito gritávamos excitadamente os últimos boletins noticiosos da AFR para os ocupantes do Mini, mas assim que entramos em França começamos a perder o sinal da rádio e a Guerra foi assim ficando cada vez mais distante, menos imediata, mais abstracta. Mesmo que a rádio francesa prestasse alguma atenção à Guerra não sabíamos francês o suficiente para entender o que quer que fosse, pelo que desviamos as atenções para o nosso mundo do desporto automóvel internacional – o mundo que nos tinha levado ao Mónaco, para o seu Grande Prémio, à Sicília, para a Targa Florio, ao Nürburgring, para os seus 1000 km e, finalmente, a Zandvoort, para o Grande Prémio da Holanda de F1. Agora, a nossa cabeça já só pensava nas 24 horas de Le Mans, onde Dan Gurney iria partilhar o volante de um Ford GT Mark IV com A.J. Foyt. Numa paragem para abastecer, especulamos ainda sobre a evolução da guerra e decidimos jantar em Paris.
Estacionados os carros na sombra de uma grande igreja, entramos num conhecido restaurante. As conversas à mesa foram totalmente dominadas pelas bisbilhotices do desporto automóvel, deixando a guerra para segundo plano, esquecida nas nossas consciências.
A equipa da Ford era, na altura, a que concentrava as atenções, e sendo certo que havia os Ferraris e os Chaparral e, à nossa volta, jornalistas com amigos de todas as equipas concorrentes, era na grande companhia americana que se concentrava a imaginação de todos.
E, claro, Dan Gurney, que estava sentado à nossa mesa e era a “mão quente” daquela equipa Ford, tão bom ou melhor que todos os outros pilotos - era ele o herói da América. Eu próprio, aliás, cheguei a promovê-lo como candidato à presidência dos Estados Unidos nas eleições de ’64, e embora Lyndon Johson tenha ganho com grande margem ainda há quem guarde os autocolantes vermelhos, brancos e azuis “Dan Gurney for President”. Aliás, se levantar agora a cabeça do meu computador, enquanto escrevo estas palavras, e voltar a cabeça para a esquerda… ei-lo, o meu próprio autocolante “Dan Gurney for President”, mesmo ao lado das fotos de Dan a vencer o GP de França, em Reims, a vencer em Spa e ainda a vencer em Le Mans, com A.J. Foyt, em 1967.
Naquela noite não sabíamos ainda que aquele homem que jantava tranquilamente a nosso lado haveria de vencer aquela corrida, nem nos atrevemos a sugerir tal coisa, com receio que tal sugestão lhe desse azar e estragasse as hipóteses. Levantámo-nos, trocámos de co-pilotos e esgueirámo-nos pelas velhas ruas de Paris de forma a nos podermos aconchegar nas nossas caminhas, em Le Mans, ainda antes da meia-noite.
É já noite cerrada e o trânsito não é muito. Dan Gurney conduz agora o meu BMW enquanto eu, relaxado no lugar do passageiro, lhe vou atirando pergunta atrás de pergunta. Fazendo um ligeiro desvio, Dan dá uma volta rápida ao redor da Catedral de Chartres para que eu possa mais tarde, de volta a casa, dizer ao pessoal que vi algo mais para além de corridas de automóveis…
Dan -pergunto-lhe - muitos dos teus colegas pilotos de Grandes Prémios afirmam detestar Le Mans e correr lá. No entanto tu pareces adorar genuinamente conduzir em Le Mans e dá a ideia de que para ti as 24 Horas são um grande evento. "Eu não concordo com eles" – responde-me. "Le Mans e a Indy 500 devem ser as corridas mais importantes do mundo. Há uma grande tradição ligada a Le Mans e uma enorme audiência em todo o mundo. É certamente a maior corrida de resistência do mundo e as corridas de resistência colocam diferentes exigências a um piloto. Nas 24 Horas, tu não consegues ter todos os teus nervos igualmente em tensão de forma a extraíres tudo o que tens para dar numa única volta de qualificação. É outro tipo de disciplina. Conduzes o mais rápido que podes, é certo, mas de forma a conseguires chegar ao fim das 24 horas – é outra coisa, é completamente diferente. Embora, noutros tempos, dada a extrema fragilidade dos carros de GP’s, se fizesse algo semelhante, pois tinhas de conservar a embraiagem, os travões, o motor; e tinhas, mesmo assim, de correr o mais rápido que tu e o carro conseguissem durante uma corrida inteira”.
“O acto básico de conduzir um carro é completamente diferente em Le Mans. Falando na generalidade, tu testas todas e cada uma das partes do teu corpo durante 12 dessas 24 horas, numa equipa de dois pilotos – e não é apenas a força física ou a resistência, mas igualmente todos os sistemas sensoriais. Num ápice, passas da mais completa escuridão para a luz artificial ainda mais brilhante que a luz do dia, e os teus olhos têm dificuldade em adaptar-se. Pela aurora, cruzas o topo de uma colina onde alguém assa uns frangos e sentes o carro rasgar uma húmida cortina de odor a frango assado. O cheiro enche-te o cockpit e acompanhar-te-á durante mais um par de quilómetros. É como estar debaixo de água. Desesperas por um pouco de ar fresco mas mesmo assim a tua concentração não se pode desviar da necessidade de fazeres tão bem esta volta como fizeste a precedente. Eu adoro Le Mans!”
Na manhã seguinte, e pela primeira vez, todos os pilotos da Ford continuavam ainda em prova. Lembra Gurney que o seu GT40 se tinha portado como um relógio desde o início da corrida. Com um bom acerto no carro, tudo o que ele e A.J. Foyt tinham de fazer era garantir que o Mark IV conseguiria deslizar sobre a caixa de 4 polegadas que os comissários franceses utilizavam para verificar a conformidade da altura dos carros ao solo. Assim que a suspensão ficava afinada para passar na verificação, tinha então de ser ajustada de forma a garantir uma boa estabilidade e permitir uma boa condução na altura de corrida.
Quatro dias depois, a edição de 1967 das 24 Horas de Le Mans entraria para a história, tendo Gurney e Foyt feito uma corrida sem falhas num ritmo recorde. Enquanto Foyt regressava a casa, Gurney seguia para Spa-Francorchamps onde escreveria nova página da história ao tornar-se o primeiro piloto a vencer uma corrida de Formula 1 conduzindo um carro por si desenhado e fabricado – o Gurney Eagle.
Eu, estupidamente, regressei também a casa após Le Mans e perdi assim a segunda parte desta dupla vitória de Dan Gurney.
Anexos
As "24 Heures du Mans" de 1967:
Dan Gurney e A.J. Foyt relembram a sua vitória em 1967:
- Este artigo foi publicado originalmente no Fórum Autosport em 2007/05/25 e revisto em 2008/11/20 ↩
- David E. Davis, Jr, actualmente editor-chefe da revista on-line Winding Road, nasceu em 1931 e até se tornar redactor da revista Car and Driver, em 1962, foi operário, piloto (até um acidente grave aos 25 anos o deixar parcialmente desfigurado e obrigar a uma série de operações plásticas) e vendedor de automóveis, tendo ainda trabalhado em publicidade. Na Car and Driver acabaria por subir todos os degraus possíveis até à sua saída em 1985 para fundar a Automobile (a americana, que nada tem a ver com a homónima francesa). Considerado pela Time o "papa dos jornalistas de automobilismo”, recebeu em 2004 o doutoramento honorário pela Universidade do Michigan ↩
Dossier: 75ª Edição das 24 Horas de Le Mans
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Dossiers
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Com estes apontamentos e memórias se desenvolve a mística das corridas de automóveis. Le Mans é um exemplo de como se contrói essa mística. Histórias contadas trinta ou quarenta anos mais tarde, imagens que nos ficam e se relembram de outras corridas e outros tempos.
Da edição de 1966 as imagens poucas de que me lembro na TV foram dos Ford correndo à chuva na grande recta das Hanaudiéres. De 1967 lembro-me apenas do Ford Mark IV vermelho e da edição do Automobile que naquele ano trazia na capa, se não me engano um Lamborghini. A Ford era a grande vedeta da altura e a sua vitória teve bastante repercussão nas vendas. Era a minha marca preferida na época e mesmo nos anos seguintes o GT 40 foi sempre o meu carro preferido nas corridas de protótipos.
Grande história.
Bem exemplificativa do que eram as corridas e as suas gentes nesta altura.
Os Ford Gt40 eram os “carros” da altura que faziam sonhar mais que todos e era realmente lindissimo.
Dan Gurney era um senhor piloto e diz-se que o unico piloto que Jim Clark realmente respeitava era a ele.
Muito obrigado
Abraço
Aqui estava uma boa forma de irmos a Le Mans….
Por acaso não tens um mini?