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24 Horas de Le Mans

Porsche: dez momentos mágicos ou apontamentos para um filme de corridas perfeito

por Vitor Ribeiro, 17 de Maio de 2014 2 Comentários

© Porsche AG

Dentro de sensivelmente um mês, no fim-de-semana de 14 e 15 de Junho, termina a contagem decrescente para o tão aguardado regresso da Porsche, ao mais alto nível, às 24 Horas de Le Mans. Detentora do actual recorde de vitórias à geral naquela que é, provavelmente, a mais dura corrida de automóveis do mundo, a marca alemã não descansa à sombra do seu êxito. Abordando este regresso com um protótipo híbrido cujos sistemas de recuperação de energia constituem um novo território ainda a explorar, a Porsche sabe que a tecnologia não é tudo. E por isso, fiel ao seu passado - e a uma inteligente estratégia de marketing - decide aqui recordar, pela boca de alguns dos seus protagonistas, algumas das memórias que demonstram bem o quão difícil é vencer esta maratona.

Não é todavia um conjunto de memórias qualquer, escolhido ao acaso. Pelo contrário, é um conjunto muito bem montado de memórias muito bem escolhidas, quase cinematográfico na forma como evoca as várias facetas e dimensões que constituem esta corrida (espécie de síntese, ela mesma, de todas as corridas de automóveis), e que bem poderia constituir a base, os tópicos/momentos/cenas essenciais do guião perfeito para um “remake” perfeito do velho filme que ninguém que goste de Le Mans pode deixar de ter visto ao menos uma vez na sua vida - um “remake” necessariamente sem Steve McQueen, obviamente, mas, quiçá (e porque não?), com Patrick Dempsey.

De facto, está lá tudo: a máxima concentração e o esforço e empenho titânicos (Stuck), por vezes quase demenciais, de nunca desistir e ir até à última gota de suor, de sangue, de lágrimas (Ickx); o encerrar da melhor maneira possível uma carreira que, naquela época, era vivida no fio da navalha (Herrmann); a sorte e o azar, inseparáveis aliadas e sempre presentes (Attwood, Falk); as lições que a arrogância e o autoconvencionamento nos ensinam (Singer); o drama (na evocação do acidente fatal de Joakim Bonnier, por van Lennep, ou das condições de corrida, por Lins); o ambiente e as características das personagens (Jantke); algum humor (Barth). Isso e muito mais. Está lá, enfim, tudo o que faria – em boas mãos… - um bom filme.

E mesmo não se sendo fã da Porsche – e eu não posso dizer que o seja – parece-me impossível ficar indiferente à sua história e à forma inteligente como a marca alemã, desde que iniciou a sua caminhada de regresso à ribalta das corridas de resistência e a Le Mans, tem sabido explorar a sua imagem, a sua história e, de uma forma geral, aquilo que faz as corridas de automóveis serem, de facto, o que são (e que, ao contrário do que alguns julgam, é muito, mas muito mais que pistões, bielas, cilindros, alternadores, sistemas de recuperação de energia, ou sequer, cheiro a gasolina e a borracha queimada ou barulho de motor…). Inteligente até na decoração do próprio carro – tal como a performance que esta apregoa. Uma decoração que fugindo ao óbvio, empreende o caminho mais difícil que é exigir aos fãs a decifração de um ‘enigma’ (dando assim mais visibilidade à marca, sem que esta mexa mais um dedo por isso…). Uma decoração que afirma assim – e também por essa via – a sua diferença face às suas rivais e às respectivas decorações mais clássicas (para não dizer insípidas, pelo menos no caso da Toyota).

Por isso, nunca como antes, estas vão ser para mim umas 24 Horas ‘divididas’. Divididas entre o desejo de ver um Audi permitir a um piloto português pela primeira vez ascender ao mais alto lugar do pódio, de ver a Toyota recompensada pelo seu esforço e de ver uma vitória da Porsche confirmar o seu regresso como o momento charneira para o futuro imediato da modalidade, e o sonho (impossível? que interessa, são eles que comandam a vida…) de voltar a ver um privado a alcançar o inimaginável. Talvez seja assim dos poucos que, vença quem vencer – e que vença o melhor -, ficarei sempre satisfeito. Quanto mais não seja, porque mais do que a corrida em si, é o conjunto de 'momentos mágicos' que a constitui aquilo que verdadeiramente me atrai na maior corrida do mundo. Tal como, mais do que o som dos motores, os grandes planos de acção ou os acidentes, é o silêncio que antecede a partida, para mim, o momento chave do filme de McQueen. VR

Jacky Ickx
Nascido a 01.01.1945 em Bruxelas (BE), venceu quatro vezes à geral com a Porsche, seis no total

Jacky Ickx.  © Porsche AG

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Ao fim de três horas pensávamos ter perdido a corrida. O meu 936 [#3] estava fora [de prova], e juntei-me ao Jürgen Barth e ao Hurley Haywood [no #4]. Mas eles também estavam com problemas. Estávamos na 42ª posição. Ainda fico com a minha cabeça às voltas com o que aconteceu depois. Eu estava num estado eufórico. Conduzi toda a noite na máxima velocidade, sempre no limite. Com chuva ou nevoeiro. Sempre mais rápido e mais rápido ainda. 42.º, 35.º, 28.º, 20.º, nono, sexto, quinto.  Todos sentíamos que poderíamos alcançar o inimaginável.  O Jürgen e o Hurley conduziram mais rápido do que nunca, e os mecânicos fizeram um trabalho incrível. Não me sentia cansado de todo. E então assumimos a liderança. No domingo de manhã eu estava exausto. No final, o Jürgen levou o 936 até a meta com apenas cinco cilindros [a funcionar]. Eu não teria conseguido fazê-lo. Há muitas grandes histórias de muitas corridas. Mas a de 1977 supera-as. É algo que só acontece uma vez na vida. São corridas como essa que fazem da Porsche uma lenda.

Hans Herrmann
Nascido a 23.02.1928 em Estugarda (DE), venceu à geral com a Porsche em 1970

Hans Herrmann © Porsche AG

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Tinha perdido para o Jacky Ickx em 1969 de pois de termos passado a última hora e meia a ultrapassarmo-nos repetidas um ao outro a cada volta. Em 1970, Ferdinand Piëch assegurou-me que tínhamos boas hipóteses de vencer com um motor mais potente. Poder vencer [a corrida] apenas um ano depois de a ter perdido por um fio de cabelo era, claro, especial. Foi também a primeira vitória à geral da Porsche - e foi também a minha última corrida. Eu tinha já anunciado a minha retirada da competição após essa corrida. Tinha-o prometido à minha mulher. Ela tinha passado os últimos dois anos a pressionar-me para o fazer, por causa dos muitos amigos que tínhamos já perdido. Eu sabia-o bem: não havia razão nenhuma para eu ter mais sorte, e algum dia a minha sorte poderia desaparecer. Foi muito emocionante todos esses factores se terem reunido em 1970. Não me recordo se me caíram algumas lágrimas. Mas certamente deve ter acontecido - sou bastante emotivo.

Richard Attwood
Nascido a 04.04.1940 em Wolverhampton (UK), venceu à geral com a Porsche em 1970

Richard Attwood © Porsche AG

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Vencemos em circunstâncias estranhas. Em Fevereiro, Helmuth Bott, que era então o membro da administração responsável pelo Desenvolvimento, perguntou-me que carro eu queria para as 24 Horas de Le Mans. Disse-lhe três coisas:  Primeiro, queria o motor de  4.5 litros e 12 cilindros em vez do de 5 litros, que eu pensava ser menos fiável. Segundo, queria a versão ‘Kurzheck’ ('cauda curta') do 917 porque a versão 'cauda longa'  era mais instável. Terceiro, queria o Hans Herrmann como meu parceiro, porque ele sabia que ritmo adoptar com o material para uma corrida tão longa. Deram-me tudo. E depois qualificamo-nos na 15ª posição. Nesse momento pensei que tinha feito a maior asneira da minha vida. Não tínhamos qualquer hipótese contra os motores de 5 litros. Não eramos competitivos e apenas podíamos esperar que todos os carros à nossa frente tivessem problemas. E foi exactamente isso que aconteceu.

Peter Falk
Nascido a 27.11.1932 em Atenas (GR), era Director de Corrida da Porsche em sete das vitórias à geral:

Peter Falk © Porsche AG

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“Em 1987 quisemos levar a Le Mans três carros, como sempre, e construímos um quarto 962 como carro de reserva. Nessa época era habitual todos os pilotos testarem todos os carros em Weissach antes de viajarmos para França. O Hans-Joachim Stuck danificou um dos carros logo aí irremediavelmente - ficamos por isso só com três. Foram esse que levamos para Le Mans. Numa das três sessões de treinos livres, o Price Cobb teve um acidente bastante sério com um dos carros -  ficamos só  dois. E foi com esses dois que iniciamos a corrida. Mas com menos de uma hora [de corrida], o Jochen Mass veio à box - o motor foi-se. Penso que foi um pistão que estourou. E ficamos assim só um... Ou seja com 23 horas ainda de corrida pela frente,  quase a corrida inteira, e apenas um carro em prova, o 962 [#17] de Stuck, Derek Bell e Al Holbert. A situação era extremamente difícil e tensa para mim, como director de corrida, e para toda a equipa: O que aconteceria com apenas um carro em prova? Correu bem. Ganhámos.

Norbert Singer
Nascido a 16.11.1939 em Eger (Sudetas, actual CZ), chefe de projecto em nove das vitórias à geral

© Porsche AG

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“Arrebatar o pódio é um grande momento. Eu estava muito cauteloso relativamente à corrida. O 956 era um carro totalmente novo. Não podes ir para cada corrida a pensar, Hurrah, vamos ganhar! Tens de ver como as coisas correm – fazer as 24 horas não é pêra doce. Essa vitória foi perfeita e de facto algo surpreendente. Nós levámos o nosso trabalho muito a sério. Uns anos antes tínhamos feito uma asneira. Em 1979, Ernst Fuhrmann estava ainda na Porsche e disse-nos, a nós engenheiros, ‘Que dizem se formos a Le Mans este ano? Não há praticamente concorrência.’ Basicamente era chegar, ver e vencer. E o que é que aconteceu? Nem um dos nossos carros chegou ao fim – perdemos mesmo sem concorrência. Tropeçamos nos nossos próprios pés. Tendo passado por essa experiência, adorei vencer em 1982. O 956 foi direitinho para o museu. É o carro que lá está pendurado do tecto.”

Gijs van Lennep
Nascido a 16.03.1942 em Bloemendaal (NL), venceu à geral em 1971 e 1976 com a Porsche

© Porsche AG

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“A minha primeira vitória à geral é, obviamente, inesquecível. O Helmut Marko e eu partilhávamos um Porsche 917 Kurzheck ['cauda curta']. Só mais tarde descobrimos que [o carro] possuía uma estrutura tubular de magnésio ultraleve. Eles não queriam que ficássemos nervosos. Le Mans é especial e excitante. Vencer aí está para além de qualquer comparação. Mas mais do que a vitória, há outra imagem que retenho de 1971 na minha memória. Ainda hoje essa imagem me vem à memória com frequência. Era de noite e eu descia a recta de Mulsanne a mais de 350 km/h. E então avistei as chamas. Havia combustível derramado por toda a pista. Um carro das classes inferiores, em chamas, tinha já – felizmente para mim – encostado à berma, e com sorte eu não estava nessa altura em luta com ninguém ou a tentar dobrar outro carro. Vi as bandeiras amarelas e passei pelo acidente a baixa velocidade.”

Manfred Jantke
Nascido a 02.10.1938 em Oppeln (DE), Director da Porsche Sports e PR entre 1972 e 1991

© Porsche AG

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“A região de Sarthe é caracterizada pela sua pacatez de vida. Mas eis que uma vez por ano recebe a visita dos carros mais velozes do mundo. É a velocidade que então canta de galo, trazendo consigo entusiasmo, barulho, perigo. Os pilotos também passam por uma experiência similar de bastantes contrastes. Enquanto director de corrida, cabia-me frequentemente acordar os pilotos para os seus turnos. Esses eram momentos especiais, e havia grandes diferenças. O piloto fisicamente mais forte era, definitivamente, Jochen Mass. Nunca estava cansado e dificilmente sentia necessidade de dormir. Jacky Ickx ficava de imediato alerta logo que o acordavam. Mas outros havia que mal conseguiam dar conta do recado e tinham de ser bem agitados do seu sono profundo de exaustão. Apenas acordavam mesmo quando tinham de se sentar ao volante. E nessa época, os carros eram incrivelmente barulhentos. Devia ser como saltar do regaço de Abraão para uma qualquer máquina infernal.”

Jürgen Barth
Nascido a 10.12.1947 em Thum (DE), venceu à geral com a Porsche em 1977

Jürgen Barth. © Porsche AG

© Porsche AG

“Uma das minhas tarefas era lidar com as equipas cliente, sendo eu responsável por questões como as acomodações, alimentação, bilhetes e coisas dessas. Ao mesmo tempo, eu era ainda piloto de reserva, sempre na esperança de ter uma oportunidade para conduzir, como em 1982: o Hurley Haywood, que partilhava o 956 [#3] com o Al Holbert, teve de desistir com problemas de estômago. O estômago era o seu calcanhar de Aquiles. Fui notificado por voltas das 11 da noite, e enfiei-me de imediato no meu fato de competição. Os meus colegas começaram então a gozar, que eu devia ter posto alguma coisa na comida do Hurley para poder correr no lugar dele. Claro que era um disparate. No carro, o meu entusiasmo arrefeceu na medida em que verifiquei que, quer o Hurley quer o Al, eram mais estreitos de ancas que eu. As minhas ancas só se encaixavam no assento de lado; eu tinha de andar constantemente a virar-me de um lado para o outro. Acabámos em terceiro. No início [da corrida], não fazia ideia de que iria correr. No domingo, estava no pódio.”

Rudi Lins
Nascido a 28.06.1944 em Bludenz (AT), foi piloto da Porsche entre 1964 e 1971

Rudi Lins. © Porsche AG

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“Fiz três vezes Le Mans, mas 1970 é o ano que mais ficou guardado na minha memória. Com o Helmut Marko, ganhamos na classe de protótipos e no índex e fomos terceiros da geral com o Porsche 908. Nessa noite chovia a cântaros. Chuva, chuva e mais chuva durante horas. Ninguém que não tenha passado por essa experiência poderá imaginar o que isso significa para um piloto. Se queres ultrapassar um carro, primeiro tens de ‘mergulhar’ no spray. Não consegues ver nada de nada, não fazes ideia do que se esconde para além do spray: um carro? Dois? Durante algum tempo, o Hans Herrmann e eu andamos juntos durante a noite. Foi bom, porque sabíamos assim quem tínhamos por perto de nós. Para o Helmut Marko e para mim, havia ainda o facto de o nosso carro ser aberto. No final de cada turno estávamos ensopados – se não do suor, pelo menos da chuva. Eu tinha 25 anos, um catraio.”

Hans-Joachim Stuck
Nascido a 01.01.1951 em Garmisch-Partenkirchen (DE), venceu à geral com a Porsche em 1986 e 1987

Hans-Joachim Stuck. © Porsche AG

© Porsche AG

“O meu momento em Le Mans dura três minutos e 14.8 segundos. ‘Pole position’ com o Porsche 962 C, uma volta perfeita. E porque a recta de Mulsanne foi depois mutilada com a adição das duas chicanes, esse será certamente um recorde para a posteridade. O 962 é o melhor carro de corridas que alguma vez conduzi. Força bruta e inacreditável efeito de solo. As forças centrífugas eram imensas, e não tínhamos direcção assistida. Era preciso a força de um urso e uma grande dose de coragem. Eu só tinha uma oportunidade [uma volta], por causa dos pneus. Arranque, curva Dunlop, esquerda, direita pelos Esses. Em Tertre Rouge levei a tracção aos limites. Esta curva é muito importante para a velocidade ao longo da recta de Mulsanne, e foi sempre 'a dar-lhe'. Cinquenta segundos depois, travagem dos 360 km/h para a curva de Mulsanne e pé no acelerador de novo o mais rapidamente possível. Indianapolis, Arnage, curvas Porsche, Maison Blanche, chicane Ford, e está feito. Nesses três minutos a minha concentração estava tão afiada como uma lâmina. Era apenas eu e esse meu Porsche em Le Mans.”

Fonte: comunicado de imprensa da Porsche