Entrevista
Pedro Lamy em entrevista ao lemansportugal.com: “Eu gosto é de vencer!”
por Vitor Ribeiro, 30 de Setembro de 2010 3 Comentários
Pedro Lamy é um nome que dispensa apresentações aos fãs portugueses (e não só) das corridas de automóveis, tão vasto e rico é o seu palmarés internacional - sem dúvida alguma, e de longe, o melhor jamais alcançado por um piloto nacional. Piloto oficial da Peugeot no programa de sport-protótipos da marca francesa, o piloto nascido há 38 anos na Aldeia Galega alcançou um estatuto que lhe permite numa mesma época correr a nível oficial com duas ou três marcas diferentes, caso que não é muito vulgar mas que lhe tem permitido não só manter o ritmo como acrescentar mais algumas brilhantes vitórias ao seu pecúlio, como foi o caso das 24 Horas de Nürburgring, prova da qual se tornou este ano um dos dois recordistas de vitórias (5).
A sua presença assídua em muitas das mais importantes corridas do calendário internacional, no entanto, torna rara, desde há muitos anos, a oportunidade de o ver correr frente ao seu público, em Portugal - público esse que, aliás, não escondeu a desilusão face à ausência da Peugeot, e por conseguinte, do próprio piloto, nas duas edições já disputadas dos 1000 Km do Algarve - razão pela qual o convite da Aston Martin para substituir Christofer Nygaard no DBRS9 #8 da Young Driver na ronda portuguesa do Mundial FIA GT1, disputada no fim-de-semana de 18 e 19 de Setembro passado, constituía mais um bom motivo para uma deslocação a Portimão.
Aproveitando a sua presença em Portimão, o lemansportugal.com foi ao seu encontro, na tarde de sábado, dia 18 de Setembro, para uma curta conversa, que as solicitações eram muitas e o tempo curto já na contagem decrescente para a Qualifying Race do FIA GT1, onde o piloto português, com um carro que nos confessou pouco adaptado às características do circuito algarvio, não conseguiu ir além do 13º posto depois de um problema com o capô do carro o ter relegado, logo na 1ª volta para a cauda, do pelotão (ver aqui).
Le Mans Portugal (LMP): Protótipos com a Peugeot, GT2 com a BMW, GT1 com a Aston Martin - o Pedro este ano não pára…
Pedro Lamy (PL): Não, não paro… (risos). Sim, tenho andando este ano em vários carros, uns mais competitivos, outros menos, o que não deixa de ser interessante. Disponho de tempo, têm surgido alguns convites a que não tenho dito que não, e tenho feito tudo para poder estar presente.
LMP: Mas é curioso ser piloto oficial da Peugeot, mas correr também oficialmente como piloto da BMW. Não é muito vulgar.
PL: Sim, não é muito vulgar, mas de qualquer das formas eu tenho contrato com a Peugeot e a Peugeot está em primeiro lugar, e depois pedi autorização para correr com a BMW, com a Schnitzer, no projecto que a BMW tem.
LMP: Foi difícil convencer a Peugeot?
PL: Não, não foi muito, até porque a Peugeot gosta de manter os pilotos com ritmo, pelo que quantas mais corridas os pilotos fizerem melhor. E depois a BMW também não é um concorrente directo da Peugeot, e depois nas corridas de resistência o que interessa são as marcas e os pilotos são menos importantes.
LMP: A sua presença aqui em Portimão, este fim-de-semana, é um regresso a um campeonato onde já correu em 2005, e também a um carro com o qual correu na altura. Nota muitas diferenças, quer em relação ao carro, quer em relação ao campeonato em si?
PL: Noto bastantes diferenças em tudo. Este carro guiei sobretudo no American Le Mans Series e no Le Mans Series [NdR: em 2005 apenas conduziu com o Aston Martin numa prova do FIA GT, tendo conduzido nas restantes provas um Ferrari 550 Maranello]. Os carros são um bocadinhos diferentes, mas o principalmente o campeonato está diferente — são provas muito mais curtas, com uma qualificação, com corridas de sprint e não de resistência, mas ao mesmo tempo com dois pilotos…
LMP: Nota uma melhoria em termos de qualidade geral do campeonato, mesmo dos pilotos ?
PL: Sim, criaram grande equilíbrio ao colocar os carros sempre iguais em termos de performance e acho que fizerem um bom trabalho tornando o campeonato bastante interessante.
LMP: Essa equivalência é o que falta ao Le Mans Series?
PL: Hum, é difícil… as corridas fazem-se om carros mais rápidos e outros menos, e ou se pára a tecnologia... mas se se pára a tecnologia e os custos, é muito complicado - as equipas investem muito dinheiro, umas investem milhões e outras que investem tostões e depois são beneficiados por isso, e não é justo. Mas de qualquer forma, para poder fazer um campeonato mais animado para o público tem de ser de uma forma assim mais parecida com esta (FIA GT1), mas no LMS é muito complicado, porque há diversas categorias — LMP1, LMP2, GT2… É complicado, não sei que tipo de equilíbrio é que podem impor. Mas isto também é muito fictício, poisa as equipas podem jogar muito com o balanço dos carros - têm de ir mais atrás dos resultados.. É muito complicado ser-se "policia" de um campeonato.
LMP: Este fim-de-semana é também uma rara oportunidades para os seus fãs portugueses o verem correr em Portugal. Tem algum sabor especial correr aqui, 'em casa'?
PL: Sim, é sempre agradável correr em casa, e estar mais perto de casa. Mas depende sempre do contexto em que se está, e eu gosto é de vencer, cá ou fora. Mas é sempre bom estar em Portugal e saber que temos um autódromo muito bom.
LMP: O que pensa desta pista?
PL: É muito interessante e difícil, e depende do carro e das afinações que se tem - pode-se tirar mais ou menos partido. Este carro (Aston Martin), penso que não seja dos mais eficazes nesta pista - é um carro que trabalha muito a nível aerodinâmico, e com os ressaltos que a pista apresenta, o carro perde um bocado, não é tão eficaz.
LMP: Voltando aos GT's, o Pedro venceu as 24 Horas de Nürburgring pela 5ª vez, e é agora um dos pilotos com mais vitórias na prova. Como correu essa prova?
PL: Bem, nós não éramos os mais rápidos em pista - a Audi e a Porsche estavam realmente um pouco mais rápidos - mas estávamos ali perto, estávamos a dar luta, no início, depois tivemos um pequeno problema a meio da corrida, atrasamo-nos um bocadinho, mas depois no final foram eles a ter problemas e nós vencemos. Foi magnífico, foi muito bom! Foi magnifico voltar a correr em Nürburgring e vencer outra vez pela BMW...
LMP: … e aquele é um circuito muito especial.
PL: É um circuito muito especial! É um circuito que é muito logo, estreito, onde é preciso ganhar um bom ritmo pois durante um turno têm-se de perder tempo de vez em quando e depois recupera-lo progressivamente, não de uma vez — perde-se e ganha-se ritmo muito rapidamente. É um circuito que tem um carisma muito próprio e com público que vive as corridas de forma muito diferente.
LMP: Dá um gozo especial vencer em naquele circuito?
PL: Dá, dá um gozo especial. Todas as pistas acabam por dar gozo, mas Nürburgring é um pista que tem algum perigo, como outras, mas essa mais talvez por ser mais antiga e muito maior. E por ser mais perigosa, a adrenalina é muito maior.
LMP: Imagina-se a correr com o Peugeot 908 naquele circuito?
PL: (risos) Não, não - já está fora de questão. Não têm condições para isso, mais em termos de segurança. Tem zonas muito rápidas e com muitos ressaltos e onde dificilmente um protótipo conseguiria passar.
LMP: Dificilmente passaria no Karussel?
PL: Sim, no Karussel se calhar teria de se passar por fora…
LMP: O BMW ganhou as 24 Horas de Nürburgring, mas tem estado um pouco aquém da Porsche e da Ferrari na classe GT2 do LMS. Conhecendo o carro, o que acha que lhe está a faltar para se aproximar dessas marcas?
PL: Penso que falta evolução. A BMW entrou na GT2 muito tarde, quando comparado com essas equipas — muito tarde, quer dizer, recentemente — e por isso tem de recuperar o tempo perdido, e não é de um dia para o outro que se consegue ter um carro competitivo na GT2.
LMP: O Pedro nas 24 Horas de Nürburgring teve como um dos adversários o Porsche 911 Híbrido. O que lhe pareceu esse carro?
PL: Andava muito rápido, estava a conseguir fazer mais voltas do que nós, e estava andar muito bem, mas tiveram um problema no final. Era um dos favoritos.
LMP: Surpreendeu-o o andamento desse carro?
PL: Surpreendeu, não sei que tipo de híbrido é que era, mas estava muito rápido.
LMP: Estará o futuro do automobilismo?
PL: Eh... não sei! Dizem que sim, dizem que não, depois dizem que sim mas as coisas não aparecem, pelo que não sei se vai para a frente ou não, mas talvez seja essa a tendência que se tente criar. Depende muito dos regulamentos, porque os híbridos têm vantagens mas também desvantagens, pelo que se o regulamento for vantajoso para os híbridos pode ser essa direcção a seguir pelas corridas.
LMP: Em Le Mans o ACO pretende abrir a porta aos híbridos de forma mais consistente.
PL: Sim, acho que só dessa forma poderá haver mais equipas a usar híbridos.
LMP: Fala-se inclusive que o próximo Peugeot deverá ser um híbrido a gasolina...
PL: Pois, poderá…
LMP: … não sabe ainda se assim será?
PL: Não (risos).
LMP: Para quando estão previstos os primeiros ensaios com o novo Peugeot?
PL: Está para breve. As coisas estão bem encaminhadas e espero poder testar o mais rápido possível, mas de qualquer das formas a equipa está a fazer o seu trabalho e a testar outras coisas no 908, mas espero que seja em breve.
LMP: Já sabe se será um protótipo aberto ou fechado?
PL: … Não sei! (risos) Sinceramente, não sei.
LMP: Tem previsto mais algumas provas com a BMW no futuro?
PL: Não há ainda nada marcado, por isso depende do programa deles para o próximo ano. Mas eu gostava de continuar, e por isso espero que aconteça - desde que as provas não coincidam (com o programa da Peugeot) e que eu seja autorizado pela Peugeot.
LMP: Portanto, para o ano vai continuar com a Peugeot?
PL: Sim, eu espero que sim. O Olivier Quesnel já afirmou que pretendia manter os pilotos - à excepção do (Christian) Klien, que era o piloto de testes - pelo que espero que as coisas sejam confirmadas. De qualquer maneira eles tinham opção sobre os pilotos, pelo menos sobre a maior parte deles.
LMP: Esta é já a sua 4ª temporada com a Peugeot - que balanço é que faz destes quatro anos?
PL: Ah… foram os melhores, os momentos mais altos da minha carreira desportiva. Numa equipa profissional, 100% de fábrica - não é que eu tenha corrido em muitas equipas oficiais, mas esta é uma estrutura muito grande, onde vivi desde o inicio, um projecto que foi construído e que atingiu o seus objectivos de vencer Le Mans, e que continua a tentar vencer. Portanto, em termos profissionais, foram os melhores anos da minha carreira
LMP: Qual foi o momento mais alto destes 4 anos?
PL: O momento mais alto… Acho que ter vencido o campeonato do Le Mans Series, no primeiro ano, foi o momento mais alto, mas o que sabe melhor é sempre a última vitória, e a última foi em Spa.
LMP: E o momento mais negativo?
PL: Mais negativo?... Le Mans este ano: foi um momento muito difícil. Tivemos problemas de chassis, depois os outros tiveram problemas de motor - foi um momento difícil não só para mim como para os meus colegas e para todos na equipa.
LMP: Vencer em Le Mans continua a ser uma espinha encravada na sua carreira?
PL: Para mim e para muitos (risos)!...
LMP: Como é que foi aquela corrida? Como é que se justifica aquele descalabro, podemos assim dizer, com os 4 carros, incluindo o da Oreca,a desistirem todos? Foi duro…
PL: Pois foi... Não há nada a dizer...
LMP: Os comentários no nosso site dividiam-se entre os que acharam que a Peugeot fez bem em fazer a corrida no limite e os que acharam que a Peugeot deveria ter sido mais calculista, ter gerido melhor o ritmo. O que lhe parece?
PL: Bem, cada um tem a sua ideia. Acho que são coisas que acontecem, e houve diversos factores que levaram a que assim acontecessem, que os motores se partissem — não foi por falta de testes, ou por falta nossa, teve a ver com as condições que a pista apresentava naquele fim-de-semana, que eram bem diferentes das que se estava à espera, e que fizeram com que se levasse os motores mais ao limite, e que estes se partissem... Não se previa nada disso.
LMP: No final deste mês vai para Petit Le Mans, 2ª prova do ILMC. O que lhe parece este campeonato, que marca o regresso de um "Mundial" de endurance?
PL: Acho muito interessante. Acho que é muito bom para a Peugeot, para a Audi e para as outras marcas presentes. espero que as coisas sejam bem feitas de forma a que haja bastantes carros. E a maneira como estão a fazer as coisas parece-me bastante interessante, pois são provas que já existem, pelo menos a maior parte delas.
... e, antes de partir para Petit Le Mans, deu um salto a Poton (Eslováquia) para ajudar a Charouz a vencer uma prova do campeonato checo ao volante de um Mercedes ex-DTM. IMAGEM: CZO/Jirka Toman
LMP: Petit Le Mans é também uma prova muito especial...
PL: É, é também uma prova especial. Os americanos conservam muito as provas nas mesmas datas, de ano para ano, e isso faz com que as pessoas se habituem e apareçam de ano para ano. Há muita gente a acampar, a assistir à prova. Não são as 24 Horas de Le Mans, ou de Nürburgring, mas é prova que move muita gente durante aquele fim-de-semana, que nem vão só para as corridas, pois ali há sempre muito mais divertimento, aquela festa toda que há à volta da corrida. E a assistência também é bastante próxima dos pilotos.
LMP: Qual é o melhor carro que conduziu até hoje?
PL: É difícil de dizer, pois cada carro tem a sua época... Os fórmulas, claro, são os carros que dão mais gozo de conduzir, mas penso que o mais evoluído em termos tecnológicos tenha sido o Peugeot (908) - talvez tenha sido o que tenha gostado mais.
LMP: E houve algum que lhe tenha dado vontade de largar tudo e ir-se embora?
PL: Não. Eu tenho sempre esperança que as coisas melhorem, mesmo que um carro esteja lento - umas vezes é do carro, outras talvez por minha culpa... Gosto de guiar no limite de cada carro e tentar tirar o máximo partido dele. Não tive nenhum assim, que me desse essa vontade.
LMP: O Pedro ainda está no auge das suas capacidades, mas mais tarde ou mais cedo terminará a carreira. Até quando é que se vê nestas andanças?
PL: Até conseguir! isto das corridas é complicado: precisamos de nos sentir minimamente competitivos para correr, estarmos presente e, ao mesmo tempo, termos oportunidades. No dia em que deixar de ter oportunidades, vou parar. Pode ser já para o ano ou daqui a dez anos - espero que seja daqui a dez anos (risos)! ... ou doze, até aos 50 (risos)!...
LMP: Vê-se a assumir outro papel na competição automóvel para além de piloto, posteriormente?
PL: Hum… Pai já sou (risos), mas nas corridas não, não vejo…
LMP: Eventualmente a acompanhar a carreira de um dos filhos?
PL: Difícil. Não sei... penso que não.
LMP: Nenhum deles mostra interesse nesta profissão?
PL: Não muito - também não os 'empurro' para isso. Mas ainda são novos...
Ao Pedro Lamy o nosso Muito Obrigado pela simpatia e disponibilidade, fazendo votos de que este fim-de-semana (2 de Outubro) acrescente ao seu rico palmarés uma vitória na difícil, e já clássica, Petit Le Mans.
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Excelente entrevista a um Senhor piloto.
A humildade do Pedro é estonteante e é dificil não se gostar dele. Gostei muito das suas declarações sobre Nurburgring (o Pai deles todos), pensei logo também no Karrussel mas principalmente em Flugplatz …. o Peugeot a levantar voo. Infelizmente não veremos lá mais os grandes monstros…..mas já os vimos.
Estou agora a ver Petit Le Mans….vamos lá a ver como acaba.
Força Pedro.
Acabou bem. Ganda Pedro, pena pelo João.
abç
Pedro Lamy no seu melhor. Espero que continue competitivo mais 10 ou 15 anos (ou mais)