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O LeMansPortugal com a ASM Team em Le Mans: Um dia nas corridas ou um exemplo de tenacidade
por Hugo Ribeiro, 22 de Junho de 2010 9 Comentários

Pla entra para o último turno e levar o #40 até ao final. IMAGEM: HR/lemansportugal
"Malta! O Miguel bateu! O carro está a entrar na box… vai-vai-vai!!!!!"
Eram… bem, na verdade nem sei bem que horas eram. O dia já estava desperto, isso é certo, e eu estava a tentar dormir uma hora e meia no escritório do camião da ASM quando, desta forma abrupta, um fotógrafo amigo da equipa me acordou a mim e a mais três mecânicos, que tentavam encontrar no chão a melhor forma de descansar um pouco, para a difícil tarefa que iria ter de ser cumprir com a maior das tenacidades de forma a que o carro conseguisse chegar, como chegou, até ao final da prova.
Bom, mas a crónica do dia da grande corrida não começa aqui, mas sim quase 24 horas antes… Voltemos, pois, um pouco atrás.
Sábado, 5:30 da manhã. Hora de largar o conforto da cama e tomar um duche rápido para dar inicio ao dia pelo qual todos aguardavam. Pequeno almoço às 6h, e saída da 'La Noirie', a casa que em Le Mans servia de Quartel General da Quifel ASM Team durante as 24 Horas de Le Mans. O programa inicia-se com o warm-up, entre as 9:00 e as 9:45, rotineiramente antecedido e precedido de mais uma inspecção ao Ginetta-Zytek 09S.
Para a pista sairiam apenas Miguel Pais do Amaral e Warren Hugues, mas Olivier Pla, como é sua característica embora ninguém o exija, marcou presença junto da equipa. Aliás, é justo referi-lo que são inúmeras as vezes que o piloto francês se desloca à box e acompanha (em Portimão, o ano passado, vimo-lo mesmo a participar) nas actividades dos engenheiros e mecânicos da ASM durante as inspecções e preparação do carro - atitude que, obviamente, cai bem junto de todos e ajuda a reforçar a confiança mútua e o espírito de equipa.
O objectivo do warm-up, após uma semana livre de quaisquer complicações, era apenas dar mais alguns minutos de rodagem a Amaral e Hughes, e realizar um último check-up ao comportamento do carro antes de este voltar a ser inspeccionado e preparado para a corrida propriamente dita. Com o set-up do agrado dos pilotos e sem necessidade de ajustes, nada de anormal é detectado durante o warm-up, pelo que está tudo pronto para a disputa da 78ª edição das 24 Horas de Le Mans.
Pelo meio, um prova da Porsche Carrera Cup ajudava a matar o tempo e a aguardada corrida dos antigos carros do Grupo C onde dá-me a oportunidade de ver ao vivo e à escala real (com a respectiva 'banda sonora'...) algumas das minhas adoradas miniaturas - e ei-los que passam, rugindo que nem velhos leões, o Porsche 962, o Nissan RC90, os Jaguar XJR9 e XJR11, o magnifico Sauber-Mercedes C11, o Spice SE 89… Depois ter conseguido finalmente ir a Le Mans ver a maior e a melhor corrida do Mundo, a possibilidade de ver em pista os Grupo C que me alimentaram o imaginário adolescente é um verdadeiro brinde, a cereja no topo do bolo! Melhor mesmo, só uma outra corrida de suporte que recriasse a histórica luta entre os Porsche 917 e os Ferrari 512 LM.
E nisto o tempo passa e rapidamente é chegada a hora de começar a preparação final para a corrida. O carro é todo limpo e retirado da box por entre um imenso mar de gente que ocupa todo a pitlane, sendo levado para a grelha empurrado por alguns dos mecânicos da ASM. Na grelha, fazem-se os preparativos para um versão teatralizada da famosa largada 'Le Mans', que alguns pilotos levam mesmo na mais pura brincadeira, finda a qual os carros saem para a primeira volta que serve de check-up. Depois, uma segunda com passagem pela box, onde se pode fazer alguma alteração de última hora, e finalmente a largada…

António Simões, Warren Hughes, Maurício Pinheiro e Miguel Amaral aguardam a recriação da famosa largada ' IMAGEM: HR/lemansportugal
Para a prova estava prevista a realização de turnos, ou stints, triplos: Olivier Pla seria o primeiro em pista, e ao fim de cerca de duas horas e meia (cada turno dura cerca de 45 a 50 minutos) entraria Warren Hugues, com Miguel Amaral a ser o último a entrar. Outra das estratégias passava por colocar Miguel Amaral a fazer o mínimo de turnos nocturnos, já que é durante a noite que o gentleman-driver português sente maiores dificuldades.
A corrida começou dentro do esperado. Os Acura/HPD da Highcroft e da Strakka rapidamente começaram a ganhar vantagem, e a Quifel ASM Team limitou-se a seguir o seu rasto sem tentar tirar do carro, em momento algum, o que este até então ainda não tinha demonstrado ter para dar, apostando antes numa corrida de contenção e expectativa.
Durante as primeiras horas tudo corre de feição: o carro não apresentava problemas e os mecânicos limitava-se a mudar pneus, a cada dois stints, e a reabastecer o carro. Em pista, o objectivo de terminar no pódio estava a ser bem desenhado, com o Ginetta Zytek #40 a manter uma animada luta com o Lola B08/80 HPD #25 da equipa inglesa RML e com o Pescarolo Judd #35 da francesa OAK Racing, quando um furo lento lança o primeiro sinal de alerta. Embora facilmente resolvido, o problema mesmo assim, devido ao tempo perdido, coloca a ASM em 4º a 1 volta do 3º lugar - nada que, no entanto, não seja ainda recuperável. O pior, esse, estava ainda para vir.
São cerca das 5 da manhã quando subitamente os rostos na box da ASM se fecham à medida que Olivier Pla comunica o que aparenta ser um problema na transmissão. O carro chega e é imediatamente içado dentro da box, ainda com o jovem piloto francês ao volante. Os mecânicos acercam-se do carro, levantam a cobertura do motor e dão de caras com o semi-eixo direito traseiro partido. Le Mans tinha acabado de se fazer sentir na box nº10…

Problemas de transmissão, durante a madrugada, custam 7 voltas ao #40 e colocam o pódio à distância de uma miragem. IMAGEM: HR/lemansportugal
Não sendo uma reparação muito complicada, é no entanto custosa: o semi-eixo está praticamente envolvido pelos braços da suspensão, e para chegar a um é preciso quase desmontar os outros. Diligentemente e sem hesitação, os mecânicos do turno de serviço rapidamente se apoderam das ferramentas necessárias e iniciam a rápida substituição do semi-eixo partido, um trabalho que no entanto ainda leva pouco mais de 30 minutos para ser executado. Pla, que entretanto havia saído do carro quando a equipa diagnosticou o problema, regressa ao cockpit e sai de novo para a pista onde circula agora em 5º lugar e a cerca de 7 voltas do 3º. Ou seja, o pódio torna-se subitamente uma miragem…
Mas os problemas não acabam aqui, pois os deuses de Le Mans não estavam pelos ajustes com a equipa portuguesa e voltariam a atacar forte, colocando à prova toda a tenacidade, capacidade de sacrifício e espírito de equipa, bem como a vontade de terminar a prova, de todos os membros da ASM. De facto, pouco depois de resolvido o problema de transmissão, e estando eu já acordado há quase 24 horas, decidi ir para o escritório que existe no atrelado da ASM de forma a descansar uma hora e meia, o suficiente para aguentar a corrida até ao fim. Deveria estar a dormir há quase 1 hora quando, por volta das 7 da manhã, um fotógrafo amigo da ASM irrompe pelo atrelado aos gritos: "Malta! O Miguel bateu! O carro está a entrar na box… vai-vai-vai!!!!!"

Sob o olhar atento de Allan Mugglestone, a equipa não poupa esforços na reparação do carro. IMAGEM: HR/lemansportugal
E eu e mais 3 mecânicos saltamos rapidamente e saímos em direcção à box onde já o carro estava a ser içado perante os rostos ainda mais fechados de todos. Miguel Amaral havia primeiramente falhado a travagem em Arnage batendo sem grandes consequências, pelo menos visíveis, num muro de pneus. Rapidamente regressado à pista, eis que na travagem seguinte, quando tenta virar o carro, as rodas não respondem. O carro sai muito rápido de encontro a um muro e bate forte, primeiro com a frente do lado esquerdo e depois com o todo o flanco do mesmo lado.
Resultado: a frente do lado esquerdo desfeita, incluindo toda a carenagem, o fundo do carro, a suspensão, pneu e jante, e até o disco de carbono estava rachado e empenado. A roda esquerda traseira também não estava com muito bom aspecto, assim como todo o flanco. Um verdadeiro inferno que numa outra box, e com uma outra equipa, provavelmente levaria à desistência, mas que para a ASM, mesmo com todos estes problemas, significou não baixar os braços, arregaçar as mangas e fazer tudo o que estivesse humana e materialmente ao seu alcance para, pelo menos, terminar a prova nesta sua última participação na classe LMP2.
Foram duas longas horas de reparação que pareciam nunca mais terminar. Quase todo o lado esquerdo do Ginetta-Zytek #40 tem de ser substituído, com a equipa a ver-se forçada a utilizar algumas peças do kit aerodinâmico de Paul Ricard, sobretudo o guarda-lamas esquerdo, pois não existiam mais sobresselentes do kit de Le Mans. Na box vivia-se uma espécie de caos organizado: são vários os mecânicos debruçados sobre o carro, e numa box tão estreita os encontrões e os atropelos são inevitáveis, mas todos sabem o que fazer e cumprem-no sem hesitação e sem qualquer duvida, com as todas as mãos disponíveis e ignorando horários de descanso ainda por cumprir. Toda a equipa, literalmente, se reuniu em torno do carro e ninguém saiu enquanto o carro não regressou à pista!
Finalmente de regresso à pista, Pla, agora ao volante, roda agora no 9º lugar e a mais de 50 voltas do lider da classe, o HPD #42 da Strakka, procurando rapidamente minimizar os danos tanto quanto possível. Mas o mais curioso é que o Ginetta-Zytek, depois de bater com grande violência e ser consertado com um kit aerodinâmico meio-'Paul Ricard' meio-'Le Mans', se revela um carro mais rápido, permitindo a realização de tempos por volta na ordem dos nos 3:39 - quando até então não conseguira baixar dos 3:40 - sem que, na verdade, nem pilotos nem mecânicos soubessem explicar o que se passou com o carro! Fosse como fosse, dessa forma foi ainda possível subir até ao 7º lugar, ultrapassando o WR Zytek #37 e beneficiando dos problemas da Highcroft, que provaram que o HPD é um LMP2 muito acima da média mas não imbatível.
Ainda antes de terminar a prova, a equipa começa a desmontar o exterior da box, que assim que fosse dada por terminada a corrida seria, como habitualmente, tomada de assalto pela multidão que se acerca do pódio. Com tudo retirado, é altura de subir ao muro para saudar o carro e o piloto, para depois todos, piloto, mecânicos e engenheiros, partilharem um abraço sentido e a sensação de dever cumprido. Ficou, é certo, o pódio por alcançar, o tão desejado remate em beleza para a última presença na LMP2 em Le Mans, mas estes homens tinham todas as razões para se sentirem orgulhosos pois venceram duas adversidades, com uma delas a pôr todo o profissionalismo e determinação da equipa à prova.
Finda a corrida e feita a festa do pódio aos vencedores, o momento é de descompressão - depois de mais de 30 horas contínuas(!) de trabalho… - e de regresso a casa para um merecido descanso, até porque logo no dia seguinte, segunda-feira, é dia de mais uma vez levantar cedo para desmontar a box, embalar tudo no camião e partir rumo a Lisboa, onde a equipa, entre direitos de folgas e viagens do material e pessoal de França para Portugal, não terá mais do que 3 semanas para preparar os 1000Km de Portimão. Durante essas 3 curtas semanas a equipa terá de volta a desmontar, na integra, todo o carro para ser inspeccionado, e montar tudo de novo posteriormente; salvar todas as peças de carbono da carroçaria danificadas em Le Mans que sejam possíveis de salvar; e esperar que a inspecção à monocoque não revele nenhuma fissura que exija o seu envio para Inglaterra para reparação…
Pela nossa parte, termina também aqui a relato da participação da Quifel ASM na 78ª edição das 24 Horas de Le Mans, última na classe P2, já que no próximo ano, com as evoluções de que António Simões já levantou um pouco o véu na entrevista que nos concedeu (ver aqui), a equipa portuguesa integrará o plantel da classe P1.
A nós, lemansportugal.com, e a mim em particular, resta-nos agradecer a António Simões e Maurício Pinheiro, bem como a toda a restante equipa - ao Allan, ao Jeff, ao Castro, ao Pedro, ao Santiago, ao Fernando, ao Luís, ao Filipe, ao Nick, ao Francisco, ao Ricardo, ao Darren, à Angela, ao David, ao José, ao Renato e ao Carlos, bem como aos técnicos da Zytek e da Dunlop e aos pilotos Miguel Amaral, Olivier Pla e Warren Hughes - pelo acolhimento, simpatia e disponibilidade. Um Muito, Muito Obrigado a Todos e Muitos Parabéns pelo magnífico trabalho!!!
...e ao Francisco, as minhas desculpas por o obrigar a dormir de tampões nos ouvidos!...
Até ao Algarve!
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Parabéns pelo vosso trabalho. Nada melhor do que ir ao local e descrever a partir daí os acontecimentos registados. Ainda para mais são únicos e originais, o que abona bem em relação a esta reportagem.
Muito bem!
Obrigado pelo artigo. Foi tudo o que esperavas? Na brincadeira consegui resumir o turbilhão de emoções que passamos??? A euforia, somos maiores do que os homens… Passado umas horas não somos nada… mecanicos exaustos… Quando estamos no muro apos as 24… É a magia de LeMans.tudo é novamente logico, tudo faz de novo sentido! Foi com a ASM á 3 anos que como tu realizei o meu sonho de LeMans. No algarve o jogo continua…
Olá Amigão
Foi tudo o que esperava e muito mais.
Ficou a faltar o mais do que merecido pódio mas sobrou em amizade e camaradagem…
Foi uma primeira experiência em Le Mans só possível com vocês!!
Um abraço e até breve… em Portimão!
Obrigado Hugo e Vítor pelo brilhante acompanhamento que fizeram das 24 horas Le Mans . E este texto do Hugo sobre a prova on board ASM está magnífico. Melhores cumprimentos!
Ora essa Greg… eu é que agradeço, e como já disse ao Vitor Hugo, os parabéns devem ser dirigidos à ‘nossa’ ASM pelo seu excelente desempenho perante as adversidades!
Um Grande Abraço!
Hugo. Bom texto, lembrou-me algumas visitas a Le Mans(5) e principalmente uma que passei na Box da Chamberlain. Os meus parabéns pelo texto
Obrigado Vitor Hugo!
Os parabéns devem ser estendidos à ASM. Eles sim estão de parabéns e eu mais não fui do que um mero espectador do seu excelente trabalho!
Um Grande Abraço!
hahah!
Grande trabalho Hugo! Parabéns e lá estaremos em Portimão.
Abraço,
F.
Um grande abraço para ti Francisco!