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O LeMansPortugal com a ASM Team em Le Mans: Os primeiros dias…

por Hugo Ribeiro, 8 de Junho de 2010 12 Comentários

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Dossier: O Le Mans Portugal com a ASM Team nas 24 Horas de Le Mans — Parte 3 / 9

3 de Junho de 2010. A nossa aventura com a Quifel ASM a caminho da 78ª edição das 24 Horas de Le Mans começa junto ao terminal 1 do Aeroporto de Lisboa, pela hora de almoço, onde encontro Maurício Pinheiro e parte do pessoal que irá assegurar a quarta participação da equipa portuguesa nas clássica prova francesa de endurance.

O voo, que não dura mais de 2 horas (ou 3, se contarmos com a diferença horária), leva-nos directos a Paris, onde a carrinha da ASM já nos espera para mais outras duas horas viagem com destino a Le Mans, que dista cerca de 210 km da capital francesa, para a casa que a ASM aluga todos os anos para as 24 Horas de Le Mans.

Pelo caminho, uma paragem para jantar numa estação de serviço  permite-nos um primeiro contacto com a realidade francesa, tão distante da nossa: um jantar minimamente decente custa quase o dobro do que em Portugal… mas enfim, contas de outro rosário, que aquele que nos trás aqui é bem diferente e ao qual vamos sendo, digamos, 'apresentados': infindáveis - e a maior parte, obviamente, incontáveis... - histórias de outras corridas, muitas e deliciosas...

Depois de um sono retemperador, eis-nos finalmente a caminho do nosso baptismo num dos mais famosos circuitos do mundo. Sem praxe, que o tempo é curto e há muito a fazer, pois é dia de montar a box e organizar convenientemente aquela que vai ser a oficina e centro nevrálgico da ASM durante os próximos dias.

Há um camião cheio de peças, malas, ferramentas, placas, painéis... enfim, uma enormidade de coisas que é preciso descarregar, ponderar a melhor localização e instalar num espaço que não tem mais de 75m2, ou qualquer coisa como 6 por 13 metros - muito pouco, quando comparado com circuitos como Portimão.

IMAGEM: HR/lemansportugal.com

IMAGEM: HR/lemansportugal.com

Há igualmente um sem numero de questões que é necessário discutir, sendo a mais fácil a relativa dá organização da área de trabalho junto ao carro, já que, com estas dimensões, nada pode ser colocado na área frontal, porque o espaço chega, e à justa, para o carro e para uma área confortável para circular em torno dele. Atrás, a mesa de trabalho, que é também uma enorme caixa de ferramentas, e depois a caixa que serve de mesa para a telemetria - algo que deixou os nossos vizinhos norte-americanos da RSR Jaguar bastante entusiasmados, querendo desde logo saber quem é que as faz…

Escusado será dizer que nas tarefas de montagem da box não há distinção entre quem é quem na equipa e todos ajudam de igual modo.

Material descarregado, é altura para verificar o carro, que é o primeiro a ser descarregado do camião da ASM, e começar a prepara-lo para as verificações técnicas iriam ter lugar, para parte das equipas e entre as quais a ASM  na segunda-feira seguinte (as das principais equipas, nomeadamente da LMP1, seriam feitas no Domingo) na Place des Jacobins', como é de tradição, em pleno centro de Le Mans e perante os muitos fãs que não perdem a oportunidade de ver de perto máquinas e pilotos.

Para além do trabalho de preparação do carro, também há outros trabalhos a realizar, um dos quais nos chamou mais a atenção: o fabrico de peças sobresselentes. Com efeito, e quando algumas peças poderão ser 8 vezes mais baratas do que se forem compradas ao construtor, obviamente que tudo o que puder ser fabricado pela equipa,  obviamente apenas algumas peças e componentes de dimensões mais reduzidas, a ASM fabrica por sua conta - e, diga-se de passagem e como podemos constatar, com maior rigidez e qualidade e sem acrescentar maior peso.

IMAGEM: HR/lemansportugal.com

Não será justo, no entanto, acusar o construtor de vender peças demasiado caras, pois é preciso lembrar que há um custo inerente a todo o processo de estudo, concepção e desenvolvimento que, obviamente, tem de ter o necessário retorno. A questão aqui é mesmo de tentar poupar onde se pode para poder investir onde tem de ser. A equipa portuguesa, para nossa grande tristeza, não tem um orçamento que lhe permita dar-se a certos luxos, como é o caso da sua grande rival no LMS, a Strakka Racing, onde se vislumbram dezenas de peças sobresselentes, a reluzir de novas… É a vida de quem tenta fazer omeletas com poucos ovos - mas, verdade seja dita, as 'omeletas', mesmo assim, têm saído bastante boas, vejam-se os resultados obtidos, nomeadamente o título na classe P2 do LMS brilhantemente conquistado em 2009.

É, enfim, a dura realidade com que temos de viver… uma realidade que inclui muitas empresas portuguesas mais interessadas em investir na falta de resultados, noutras competições automobilísticas, do que em projectos sólidos, coerentes e capazes de assegurar um trabalho continuado e com futuro. Nunca é, pois, demais dizê-lo que ASM acaba por fazer pequenos milagres com muito pouco - e sem o reconhecimento que merecia!

Passando à frente, uma outra dor de cabeça - perfeitamente desnecessária, reconheça-se, mas é mais um sinal de uma certa 'lei da selva' reinante... - foi a colocação das motorhomes e da área do catering. Quando seria de esperar que não houvesse problemas, tendo todas as equipas um espaço mínimo que satisfizesse as suas necessidades estritas - e não necessariamente as excessivas mordomias - eis que a realidade que se nos apresenta é muito diferente. O espaço disponível é, evidentemente, enorme e há espaço para que todos se instalarem confortavelmente - mas, como em tudo na vida, não falta quem se instale 'mais confortavelmente' que os outros...

Audi, Peugeot, Corvette, Oreca, BMW… possuem áreas de apoio a pilotos, equipa e convidados com dimensões absolutamente monumentais - e fora ainda as roulottes e afins. E a batalha não se limita ao espaço logo atrás das boxes, pois ainda mais além continuam evidentes as diferenças de tratamento entre uns e outros. Não bastasse isso, ainda há quem troque de lugar e crie o verdadeiro caos... E não, desta vez não são 'artistas' portugueses!...

Voltando ao que interessa, estes dias foram também aproveitados por Maurício Pinheiro, o Team Manager da ASM, para rever os planos de trabalho e descanso  para as 24 Horas em que tudo se joga. Este plano de trabalho já vem a ser delineado desde há algum tempo e é um verdadeiro quebra-cabeças. Os mecânicos são distribuídos por turnos de 2 horas, sendo que regra geral descansam ao fim de 3 turnos por um período de 2 horas. E quem descansa, descansa mesmo. Os mecânicos em cada turno são responsáveis pelos pit stops e pelas reparações no carro, caso haja necessidade, sendo que para essas reparações todos têm funções especificas.

Mas esta ainda é a parte mais fácil... Dificílimo é criar uma tabela com todos os problemas possíveis e imaginários, quem estará preparado para fazer determinado tipo de intervenção, e a que determinada hora, para resolver o respectivo problema... ou seja, são dezenas de situações e varáveis possíveis!

IMAGEM: HR/lemansportugal.com

No fim do segundo dia, sexta-feira, tivemos à noite o que possivelmente deverá ser o único momento de descontracção de toda esta semana e meia. Com os problemas da instalação da tenda do catering ainda por resolver, e depois de um dia onde se iniciou a preparação do carro, da box e do equipamento, a equipa aproveitou para fazer algo que não vai ter tempo para fazer a partir de então: conviver um pouco. Sendo a alternativa ir comer a um qualquer restaurante francês - que, como já vimos, não são propriamente baratos, de acordo com a nossa  'tabela' nacional... - a equipa optou antes por um churrasco à boa maneira portuguesa, nada melhor para reforçar laços e aumentar os níveis de motivação através de histórias de outras lutas, a aventura da primeira participação, as alegrias e os dissabores destes dois últimos anos. Claro está, que a larga maioria das histórias não são passíveis de serem contadas sem omitir pessoas e locais... o que é uma pena, nós sabemos, mas é mesmo assim!

Sem grande história, sábado foi apenas 'mais um dia no escritório' com a continuação da preparação do carro e da box e respectivo equipamento. No domingo, foi dia para ultimar detalhes da electrónica e do motor, com a Zytek, e fazer uma última inspecção ao carro conferindo todos os componentes e medidas que iriam ser conferidos pelo ACO nas verificações técnicas que, para a ASM, estavam marcadas para a hora de almoço do dia seguinte.

Sobre as verificações técnicas, que desta vez, e ao contrário do tem sido hábito, foram realizadas no lado oposto à Place des Jacobins, não há muito que contar até porque o essencial está no vídeo que já aqui publicamos e, como se costuma dizer, vale por mil palavras.

E por hoje chega, que manhã há mais, incluindo as estórias do dia de hoje, terça-feira... e outras mais.