Entrevista | Le Mans

O Ford GT de regresso a Le Mans: Entrevista exclusiva a Martin Bartek (Matech Racing)

por Vitor Ribeiro, 26 de Março de 2010 7 Comentários

IMAGEM: Matech Racing

IMAGEM: Matech Racing

IMAGEM: Matech Racing

A 77ª edição das 24 Horas de Le Mans apresenta, para além da corrida propriamente dita, dois bons motivos de interesse que não deixarão certamente de concentrar as atenções mediáticas. Falamos, claro está, do 'regresso' do mítico Ford GT e da rara oportunidade de acompanhar o desempenho de uma equipa 100% feminina (apenas a 6ª, em 77 edições da prova!) - em ambos os casos, graças à equipa suiça Matech, que por via do convite do ACO, irá disputar a prova na categoria LMGT1 com as jovens suíças Natacha Gachnang, Cyndie Allemann e Rahel Frey a partilharem o volante de um dos seus Ford GT.

Fundada apenas em 2007, a Matech Concepts SA é uma  companhia suíça que apresenta já no seu currículo, e apesar da sua ainda curta história, alguns sucessos assinaláveis. Através da Matech GT Racing, seu  'braço desportivo' criado também em 2007, a equipa iniciou a sua participação no europeu de GT3 nesse mesmo, com o Ford Mustang e o Ford GT3, tendo-se sagrado, logo no segundo ano de participação, em 2008, campeã europeia FIA GT3 por equipas.

Em 2009, a Matech GT Racing, ainda com o Ford GT3, venceu a sua classe nas 24 Horas de Spa, na sua estreia na clássica prova belga, tendo terminado a temporada em segundo lugar do Europeu FIA GT3, iniciando entretanto um novo projecto orientado exclusivamente ao desenvolvimento de um carro de competição para a classe GT1, o Matech Ford GT1.

É com essa fabulosa viatura, a mais recente versão de competição da versão moderna do mítico Ford GT, com o qual a Ford quis assinalar o centenário da sua fundação - homenageando, ao mesmo tempo, aquele que é, ainda hoje, um dos seus ícones - que a equipa suiça irá este ano não só disputar o Campeonato do Mundo FIA GT1 como também, graças à uniformização dos regulamentos técnicos  do ACO e da FIA, participar nas 24 Horas de Le Mans 2010, razão pela qual decidimos ir ao encontro de Martin Bartek, Director Geral da a equipa sediada em Genebra, e colocar-lhe algumas questões.

Le Mans Portugal (LMP): O actual Ford GT é uma homenagem ao mítico GT40 que venceu em Le Mans no final dos anos 60. Como é que a equipa encara a responsabilidade em trazer de volta às '24 Heures' o nome e a inconfundível silhueta deste carro?

Martin Bartek (MB): A Matech não ignora a história e a importância do Ford GT40 e das suas quatro vitórias consecutivas em Le Mans, nos anos 60 [NdR: entre 1966 e 1969, pondo termo a um 'reinado' de seis anos da Ferrari]. De facto, essa foi uma das razões porque escolhemos a versão Século XXI desse carro quando decidimos construir um novo carro de competição. Escolhemos um dos mais soberbos 'supercarros' e adaptamo-lo e desenvolvemo-lo de forma a criar um dos mais soberbos carros de corridas.  Se comparar o nosso GT1 com o GT40 original dos anos 60, irá logo à primeira vista notar uma silhueta que é, inconfundivelmente, a do Ford GT40. E claro, quando comparar a nossa versão de competição com a versão de estrada, também notará a similaridade das suas silhuetas, respeitando aliás um dos requisitos de homologação. Fazer o Ford GT regressar às 24 Horas de Le Mans é, para a Matech, uma tarefa muito séria, pois pôr um carro a correr durante 24 horas, mais os testes e qualificações, significa que, no fim, muitas peças e componentes terão de ser substituídos. Depois, há os custos com a equipa, o alojamento, a logística, etc, e facilmente os custos derrapam. No entanto, não nos teríamos candidatado a um convite se não encarássemos com seriedade a nossa participação, e quando o ACO anunciou o sucesso da nossa candidatura senti-me extremamente orgulhoso quer da equipa quer do carro.  Levar o nosso Ford GT1 a Le Mans é um feito significativo... pois, como você, diz passam 40 anos desde que o Ford GT lá correu. Vamos lá para competir, e para ganhar. Desde que criamos a equipa, em 2007, que ficou claro que a Matech não anda nas corridas apenas para fazer número. Essa nunca foi e nunca será a atitude da Matech. Se conseguiremos ganhar, é impossível prever. Para além de um carro rápido, temos de garantir a sua fiabilidade, e para além de pilotos rápidos, temos de os apoiar com uma equipa de mecânicos e engenheiros de primeira classe. E por fim, teremos de ter uma pontinha de sorte. Se tudo se conjugar, então estaremos em condições de ganhar. Se não, nãoterá sido por falta de esforço e dedicação de toda a equipa Matech.

LMP: Que apoio tem dado a Ford a este projecto?

MB: A Ford tem-nos apoiado, por via da Ford Racing e da Ford Europa, através de assistência extensiva no domínio de CFD [NdR: Computer Fluid Dynamics] e disponibilização do túnel de vento, em Colónia,  e está a dar-nos também todo seu o apoio à nossa participação com o Ford GT1 em Le Mans.

LMP: A Matech tem sido uma das equipas que tem procurado desenvolver, na Europa, o Ford GT. Até onde pensam levar esse desenvolvimento? Quais os planos a curto/médio prazo?

MB: A Matech é a única companhia aprovada pela Ford e pela FIA para construir e homologar os Matech Ford GT3 e GT1 de competição. Construímos e vendemos viaturas de GT3 para toda a Europa e também para a América do Sul, onde os nosso carros têm conquistado considerável sucesso. Para além disso, concebemos e construímos o Matech Ford GT1, carro com o qual iremos nós próprios disputar o Campeonato do Mundo FIA GT1, bem como os 1000 Km de Spa e, claro, as 24 Horas de Le Mans; já vendemos outros dois Matech Ford GT1, que irão competir nas mesmas provas; e planeamos vender mais alguns a novas equipas e em novos mercados durante os próximos dois anos.

LMP: Quais os planos a curto/médio prazo?

MB: Os nossos planos são os mesmos com que fundamos esta companhia. Esses planos decorrem dos meus próprios valores e dos valores que associei à minha equipa: atingir a excelência em tudo o que façamos. Estreamo-nos na competição em 2007 e, logo em 2008, ganhamos o Campeonato Europeu FIA GT3 por equipas. Em 2009, fomos vice-campeões na mesma categoria mas ganhamos as 24 Horas de Spa, à primeira tentativa. Este ano, evoluímos o nosso protótipo Ford GT1 2009 para o Matech Ford GT1 2010, enfrentando o desafio de competir quer nas provas de sprint quer nas principais provas de endurance. E para além disso... há que esperar para ver o que o futuro nos reserva.

LMP: Quais os pontos fortes e fracos deste carro? O que espera dele numa prova com as características das 24 Horas?

MB: O carro de 2010 é completamente novo em termos de aerodinâmica e comportamento. Embora isso não seja propriamente uma fraqueza, significa porém que teremos de o aprender em cada circuito e em todos os tipos de condições atmosféricas e temperatura. Outros carros que estarão em Le Mans tem sido desenvolvidos continuamente ao longo dos últimos anos, mais com pequenas evoluções do que grandes revoluções. Para nós, esse é portanto o nosso grande desafio, mas que por outro lado nos trás também um enorme potencial. Em termos de expectativas, e como sempre, é difícil estabelecer comparações com outras equipas e carros. Quando a prova começar é que vamos ficar a saber. Pontos fortes - o chassis da versão de estrada é um dos melhores chassis disponíveis no mercado, e da perspectiva de um verdadeiro carro de estrada é uma excelente base para construir um carro de competição. Já conhecemos o carro,  de termos corrido com os seus análogos nos últimos três anos, e também de termos sido nós a concebê-lo e desenhá-lo.

LMP: Haverá alguns desenvolvimentos específicos para esta prova? Quais?

MB: Uma vez que o ACO e a FIA acordaram em aplicar as mesmas regulamentações técnicas e de homologação em 2010, os GT1 que irão participar no Campeonato do Mundo FIA GT1 2010 não serão diferentes dos que irão a Le Mans. O Matech Ford GT1foi construído para ser fiável, seja para fazer corridas de uma hora ou de duas voltas ao relógio. Le Mans é um circuito único, onde os GT chegam a atingir os 275 Km/h por quatro vezes em cada volta, pelo que a nossa preocupação será em encontrar uma configuração aerodinâmica que nos garanta um baixo arrasto mas relações de caixa estáveis e adequadas. Também já desenhamos um sistema de reabastecimento mais rápido. Temos as luzes apropriadas assim como cumprimos os níveis de ruído regulamentares. Vamos ter telemetria, para permitir aos engenheiros a recepção de dados do carro, o que é proibido nos campeonatos FIA. Os regulamentos da FIA também não contemplam limites à capacidade dos tanques de combustível.  Iremos também dispor de um conjunto especial de relações de caixa, dispensador de bebida onboard e ar-condicionado para manter a temperatura do cockpit dentro dos limites regulamentares, se for necessário.

LMP: Porque decidiram apostar numa equipa 100% feminina e quais os objectivos que se propõem cumprir?

Natacha Gachnang, Cyndie Allemann e Rahel Frey. IMAGEM: Matech Competition

MB: Tem sido objectivo meu apresentar uma equipa constituída integralmente por pilotos suíços e senhoras, desde que começamos, em 2007. O mundo moderno evoluiu e não há já absolutamente nenhuma razão para que uma mulher não possa competir ao mais elevado nível no desporto automóvel. Aliás, como sabe, as mulheres já competem nas provas de endurance há muitos anos. A única diferença é que eu optei por inscrever uma equipa totalmente constituída por mulheres. A primeira senhora a competir em Le Mans foi a francesa Odette Siko,logo em 1930, enquanto Anne-Charlotte Verney, com as 10 edições da prova que disputou entre 1974 e 83, detém o recorde de participações [NdR: ver, a esse propósito, este nosso artigo]. Mas sejamos claros: nós entregamos duas candidaturas, mas o segundo carro, com um line-up totalmente masculino, não foi confirmado pelo ACO, tendo ficado em 4º lugar na lista de reservas.  Mas porque razão o ACO optou por confirmar precisamente a equipa 100% feminina, é algo a que só o ACO poderá responder.

LMP: A inexperiência das três jovens piloto em provas de endurance, e em particular em Le Mans (acrescida à da própria equipa) não se poderá revelar um handicap numa prova onde a experiência conta muito? Não teria sido preferível ‘temperar’ o line up com um piloto mais experiente?

MB: Todos os pilotos e todas as equipas terão de ter a sua primeira vez em Le Mans. A Natacha, a Cyndie e a Rahel são pilotos experientes e muito competentes, que já competem desde a infância. Se você se abstrair da atenção mediática que elas atraíram à equipa, dir-lhe-ei que simplesmente não as teria escolhido para correrem connosco se não tivesse inteira confiança nas suas qualidades atrás do volante e na sua completa determinação.

Como atrás dissemos, Natacha Gachnang, Cyndie Allemann e Rahel Frey irão partilhar o volante do Ford GT #61 nas 24 Horas de Le Mans, tendo o segundo carro da equipa, o #60, ficado no 4º lugar da lista de reservas da classe LMPGT1. No Mundial FIA GT1, a equipa suíça acabou de confirmar que o ex-piloto de F1 franco-suíço Romain Grosjean irá juntar-se ao alemão Thomas Mutsch (que é igualmente Director de Operações da equipa) num dos carros, estando o outro entregue à dupla Gachnang/Allemann.

A Martin Bartek o nosso agradecimento pela simpatia e disponibilidade.

O Ford GT #61 em Paul Ricard, durante os testes oficiais do LMS. IMAGEM: Matech Racing