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United SportsCar Championship

O BoP do descontentamento da Aston Martin — Ainda as 24 horas de Daytona

por Pedro Correia, 9 de Fevereiro de 2014 3 Comentários

© Aston Martin Racing

Terminadas as 24 Horas de Daytona, a Aston Martin — que não foi além da 8ª posição na classe GTLM — passou ao ataque. Embora nunca tenha sido afirmada qualquer vontade de marcar presença na totalidade do USCC, a marca inglesa também não ficou com grande vontade de lá voltar devido ao que diz ser um BoP prejudicial para o seu Vantage GTE. Haverá razões reais de queixa, ou há no WEC benesses a mais?...

A Aston Martin Racing tem sido bastante sonora no descontentamento com a performance do seu Vantage GTE comparada coma dos restantes concorrentes da classe GTLM do TUDOR United Sportscar Championship (USCC). Uma das alegações é que o carro mais rápido do WEC, de repente, fica 'a ver navios' com o Balance of Performance dos americanos. O regulamento da classe GTLM do USCC é o mesmo da classe GTE do WEC e, em ambos os casos, está sujeito aos retoques das organizações para nivelar carros de base mais performantes com outros que nem tanto.

De modo sumário, o peso mínimo dos carros seria 1245 kg, o depósito teria 90 litros e o restrictor de admissão seria determinado pela capacidade volumétrica do motor.

Cilindrada Diâmetro
(1 restrictor)
Diâmetro
(2 restrictores)
3.8l a 4.0l
(Porsche 991)
40.5 mm 28.6 mm
4.0l a 4.5l
(Ferrari F458, Aston Martin Vantage, BMW Z4)
40.0 mm 28.3 mm
5.0l a 5.5l
(Corvette C7)
39.5 mm 27.9 mm
SRT Viper* 39.7 mm 28.1mm

* O Viper tem um motor de capacidade (8.0l) superior ao máximo regulamentar (5.5l), pelo que o seu restrictor de admissão foi fixado após análise dos dados do datalogger do modelo americano

O grande problema é que, com estes parâmetros, as corridas não seriam muito equilibradas, com alguns modelos com uma base de produção em série mais eficaz dinamicamente e motores tecnologicamente mais desenvolvidos teriam grande vantagem, pelo que os organizadores usam o Balance of Performance, mexendo com estes valores, para aproximar os carros em tempos por volta e número de voltas entre reabastecimentos.

Como diz a velha expressão portuguesa “duas cabeças, duas sentenças”, a comissão de endurance do WEC chegou a um Balance of Performance distinto do dos senhores do USCC e que passamos a apresentar, ressalvando que os valores para o WEC dizem respeito à mais recente revisão do mesmo feita em Outubro último.

BOP Peso Restritores
Modelo WEC USCC WEC USCC
Ferrari F458 GTE 1235 kg (-10kg) 1230 kg (-15 kg) 2x28.3 mm 1x40.6 mm (+0.6mm)
Porsche 991 RSR 1210 kg (-35kg) 1225 kg (-20 kg) 2x29.3mm (+0.7mm) 2x29.6mm (+1.0mm)
AM Vantage GTE 1225 kg (-20kg) 1225 kg (-20 kg) 2x29.4mm (+1.1mm) 2x29.7mm (+1.4mm)
BMW Z4 GTE 1260 kg (+15 kg) 1230 kg (-15 kg) 2x29.4mm (+1.1mm) 2x29.8mm (+1.5mm)
SRT Viper 1245 kg 1250 kg (+5 kg) 2x29.6mm (+1.5mm) 2x29.6mm (+1.5mm)

Quanto à capacidade dos depósitos de combustível, a competição americana prevê a utilização por parte dos GT de bioetanol E85 (85% de etanol de origem vegetal + 15% de gasolina de competição de 100 octanas). Entre as particularidades do E85, uma das mais importantes é que tem uma capacidade energética inferior à da gasolina. Um litro de E85 tem 25,65 MJ de energia contra 34.2 MJ no caso de 1 litro de gasolina, pelo que a autonomia dos carros é alterada. A Aston Martin foi o único construtor que optou por não ajustar o seu modelo para correr com a mistura de bio-etanol, usando gasolina convencional de competição. Dada a diferente capacidade energética dos dois combustíveis, os respetivos depósitos foram ajustados em conformidade.

Enquanto o Aston Martin manteve a capacidade regulamentar de 90 litros, ao contrário do WEC em que conta com 5 litros extra de combustível, os carros a competir com E85 viram a sua capacidade corrigida ao facto do bio-etanol ser menos energético. Os 90 litros de gasolina que estão à disposição do Aston Martin correspondem a 3078 MJ, o que equivaleria a 120 litros de E85. No entanto, o BoP do USCC determinou que todos os modelos a competir com E85, com excepção do Viper, tivessem apenas 110 litros deste combustível. De referir que o BoP do WEC também concede 95 litros de gasolina ao Viper, pelo que, neste aspecto particular, em ambos os casos, o Aston Martin Vantage e o SRT Viper mantêm uma ligeira vantagem no combustível disponível.

Depósitos USCC
Modelo E85 Equivalente gasolina
Ferrari F458 GTE 110 l 82,5 l
Porsche 991 RSR 110 l 82,5 l
AM Vantage GTE 90 l
BMW Z4 GTE 110 l 82,5 l
Corvette C7R 110 l 82,5 l
SRT Viper 120 l 90 l

Outro dos pontos em que alguns carros são diferenciados pelo BoP é a altura máxima da asa traseira, que deveria ser 100 mm abaixo da altura máxima do tejadilho, sabendo de antemão que a eficiência aerodinâmica aumenta com o aumento da altura a que é colocada, pois o fluxo aerodinâmico é menos perturbado pela carroçaria. No entanto, apenas o Ferrari F458 e o Porsche 991 têm as suas asas na altura regulamentar, com Aston Martin Vantage e BMW Z4 a poderem montar as asas até à altura do tejadilho e os americanos Corvette e Viper a montarem as asas até 25mm abaixo da altura do tejadilho, sendo que, neste caso o USCC mantém inalteradas as concessões atribuídas pela FIA/ACO.

Uma outra queixa da Aston Martin é de que demora mais tempo a reabastecer que os rivais. E, mais uma vez, é difícil perceber porquê, uma vez que o USCC ajustou o calibre das mangueiras de reabastecimento depois do ROAR e o Aston Martin, apesar de ser o que precisa de meter menos combustível, até beneficia de um restrictor de reabastecimento de diâmetro superior à maioria dos rivais, o que indicará que qualquer atraso na operação deverá estar relacionada com alguma questão técnica do carro ou de operacionalidade dos mecânicos nas boxes.

Restrictores Abastecimento Diâmetro
Modelo mm
Ferrari F458 GTE 33,5
Porsche 991 RSR 33,5
AM Vantage GTE 35,7
BMW Z4 GTE 33,5
Corvette C7R 37,75
SRT Viper 37,75

No computo geral, o Balance of Performance do USCC segue em linhas gerais a mais recente revisão do BoP do WEC, atenuando no entanto as diferenças entre modelos, principalmente no que respeita aos pesos mínimos, aqui verdadeiramente equilibrados, onde sobressai apenas o mais pesado SRT Viper, curiosamente um dos carros mais competitivos em Daytona. Nos depósitos de combustível o Ferrari F458 deixa de estar castigado por ter um motor mais poupado que a concorrência, graças ao recurso à injecção directa, tal como o modelo de estrada - sendo conveniente lembrar que BMW Z4 e Corvette C7R também dispõem de motores de injecção directa. Nos restrictores de admissão, o Ferrari F458 continua a ser o menos agraciado, ainda assim menos penalizado do que no WEC.

No caso particular da Aston Martin, continua a ser difícil encontrar algum ponto do BoP em que é penalizado face à concorrência, embora seja inegável que perderam parte das benesses de que beneficiaram no WEC em 2013, onde, convém lembrar, além das condições mencionadas, competiu com um peso mínimo de 1195kg, ou seja, 50 kg abaixo do valor regulamentar, sendo os resultados obtidos nestas condições a servirem de argumento para os responsáveis pelo construtor britânico justificarem que o BoP do USCC lhes retira competitividade.