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20 de Agosto de 2009

Le Mans Portugal com a ASM nos 1000km do Algarve: Dia 5 (Sábado – Corrida)

Dossier: O Le Mans Portugal com a ASM Team nos 1000km do Algarve — Parte 4 / 8

O Diário

Durante os momentos que antecederam a prova optamos por deixar a equipa em concentração máxima tentando manter ao mínimo qualquer interacção com os seus elementos, de forma a não interferir na preparação da corrida. Felizmente, até aos momentos anteriores à saída do Ginetta-Zytek para a grelha de partida, nada havia para fazer para além da habitual rotina que antecede cada prova.

A equipa técnica foi fazendo várias operações rotineiras, certificando-se que o GZ 09S não apresentava qualquer problema que não tivesse sido já detectado, mesmo em relação ao motor de arranque, que foi evidentemente substituído, relativamente ao qual nada mais havia a fazer do que esperar que o segundo não desse ele também problemas. Ainda dentro da boxe, o carro foi ligado de forma a receber alguns dados de telemetria sobre o seu funcionamento, apenas para confirmação, enquanto os engenheiros da telemetria, tanto o Francisco como os dois engenheiros ingleses da Zytek, faziam correr uma lista de 'check-ups' aos seus sistemas para garantirem a sua operacionalidade durante a corrida.

Os engenheiros da Dunlop pareciam ser entre todos os mais descansados, preocupados apenas em manter actualizadas as leituras das temperaturas do ar e da pista, enquanto que os próprios mecânicos da ASM já se haviam certificado de que dispunham dos pneus necessários, dentro da box, para serem utilizados nas 2 paragens para troca de pneus que estavam inicialmente previstas. Noutro canto, o Luís e o Bernardo atestavam a bomba de combustível (que leva um máximo de 200 litros, sendo que o Ginetta-Zytek leva 80 a cada reabastecimento) para as primeiras paragens em 6 previstas, 2 em cada stint duplo dos pilotos.

Cá fora, junto do camião da ASM, o Castro continuava num trabalho insistente, alargando alguns furos em algumas peças da carenagem, pois como ele nos disse, apesar do material da Zytek ser de grande qualidade, não é rara a vez em que os locais onde os parafusos unem as diversas peças serem pequenos demais. Por outro lado, também havia que montar algumas das várias partes da carenagem, sobretudos os dois 'guarda lamas' da frente, que incluem as ópticas e um pequena asa em frente destas, pois é preciso estar preparado para qualquer eventualidade e os toques em corrida são bastante comuns dado o tráfego intenso em pista, uma constante das provas de endurance.

Com esta azáfama rotineira, aproveitamos para ver de perto as pérolas históricas que competiam no Classic Endurance Racing quando chegamos ao circuito. Entre os mais 'comuns' Lola - T70, T212, T280, T290, T294, T296 e T298 - e Chevron - B16, B19, , B21, B31 e B36 - destacavam-se o lindíssimo Porsche 936 decorado com as cores da Martini, que foi outrora conduzido por Jackie Ickx e Reinhold Joest em Le Mans, e um Porsche 910,  sem esquecer ainda os BMW M1 (fazendo lembrar tempos de glória da velocidade portuguesa), um Porsche 911 #59 da Brumos, um raríssimo DeTomaso Mangusta, um Datsun 240 Z e dois Corvette de finais de 70, que pareciam ter a carenagem a rebentar pelas costuras na tentativa de manter o enorme motor de 7 litros da Chevrolet acoplado ao resto do carro... very american.

Ainda antes da prova, teve lugar o habitual 'pit-walk' e a sessão de autógrafos, ocasião que também aproveitamos para dar uma olhada de outro prisma para as restantes boxes, assim como ver de perto os muitos pilotos que faziam parte do plantel LMS em Portimão, dando lugar à nossa condição de fãs (que por acaso e calorice também lá estavam a fazer-se passar por jornalistas...). Como não somos muito fetichistas em relação a autógrafos, preferimos simplesmente caminhar pelo paddock e tirar algumas fotos para mais tarde recordar, procurando respirar o ambiente Le Mans e aproveitar para conhecer e conversar com vários amigos que por lá passaram durante este período... Também aproveitamos para conhecer um pouco melhor a bancada VIP, sobre o pit-lane, e a bancada principal, procurando bons locais, e de rápido acesso, para mais tarde usufruir também da corrida.

Com os minutos a passarem rapidamente, na box da ASM começava a ser visível o crescendo de tensão que antecede o inicio de qualquer corrida, emborta nada mais houvesse a fazer: a equipa estava preparada, o carro estava a 100%, os pilotos - sobretudo o Olivier, o primeiro a entrar em pista - já se encontravam em 'modo racing' e em total concentração. Cerca de 20 minutos antes da largada, a linha de boxes foi aberta e os carros começaram o seu percurso para a grelha, incluindo, obviamente, o da ASM, enquanto os mecânicos faziam também o seu percurso até ao local, o 10º, de onde largava o Ginetta-Zytek da equipa portuguesa.

Na corrida, impondo logo de início um ritmo infernal, o jovem de Toulouse colocou o Ginetta-Zytek desde bem cedo longe da vista dos seus mais directos adversários, que rodavam mais lentos cerca de 2 s por volta, ganhando uma vantagem suficiente para permitir a Amaral rodar com menos pressão e ficarem a salvo de qualquer imponderável menos grave. E de facto, num dos reabastecimentos, o motor de arranque, que não só já havia dado problemas em Spa e Le Mans, como havia, logo no warm-up obrigado a equipa, por precaução, à sua substituição, voltou a fazer das suas, causando um ligeiro calafrio, felizmente sem consequências nem repetição.

Pelo meio, um alerta de possibilidade de chuva fez a equipa colocar de prevenção (não fosse S.Pedro tecê-las...) os pneus adequados - de chuva e intermédios. A noite, no entanto, continuou agradavelmente fresca mas, felizmente, sem sinal de chuva.

Amaral, por seu turno, esteve também ao seu melhor nível, cumprindo os seus dois stints de forma irrepreensível e rodando consistentemente no segundo 39,  o suficiente para manter em respeito o Ginetta-Zytec #41 da GAC e os dois Lola Judd da Racing Box, que rodavam no mesmo segundo.

Não surpreendia, por isso, que à entrada para penúltima volta - e depois de uma corrida quase sem história - a diferença do carro português se cifrasse já em duas voltas para o segundo classificado. No entanto, e como nas corridas de automóveis nada é garantido até à bandeirada de xadrez, eis que de repente, ao fazer a primeira curva do circuito, soa o alarme: a monocoque, na zona de ancoragem da suspensão dianteira, cede e deixa a suspensão em risco de colapso, colocando alguma tensão no ar e fazendo pairar o espectro de um final inglório para um fim-de-semana, até aí, perfeito. O problema, embora não pusesse em risco a segurança do piloto, uma vez que se manifestava numa das zonas deformáveis e naturalmente frágeis da monocoque, era no entanto o suficiente para, em poucas voltas, obrigar o carro a parar.  Talvez irremediavelmente, com a suspensão partida.

Nas boxes, procura-se esconjurar os receios e manter a calma: “Ele aguenta, ele aguenta!…”, ouve-se, se bem que ninguém pareça esconder algum (natural) nervosismo.

As duas voltas de avanço parecem margem suficiente, nada mais restando a Pla que manter o sangue-frio e tentar trazer o carro até ao fim sem forçar o que quer que seja. Última volta: depois de dias de trabalho intenso e seis longas horas de corrida, tudo parece de repente jogar-se naqueles últimos 4 quilómetros de prova, pouco mais de 1:30 m, sendo que uma desistência nesta prova representaria um rude golpe nas aspirações ao título, objectivo assumido pela equipa. “Tivesse a corrida mais duas voltas”, dir-nos-á Maurício Pinheiro, Team Manager da Quifel ASM,  já depois da corrida, “e não teríamos conseguido terminar!”. Quis no entanto a fortuna, que tão longe andou da equipa em Spa e Le Mans, que a dupla Pla/Amaral e toda a equipa Quifel ASM fossem premiados com uma vitória caseira, e quando Pla recebeu, finalmente, a bandeira de xadrez, na box, os mecânicos da equipa, quais molas libertas da tensão, saltaram no ar, respirando de alívio e soltando as gargantas: “Ganhámos!!!”, enquanto o Olivier ia gritando pelo rádio: "I love you, guys... i love you all...".

No final da corrida, Pla e Amaral eram o espelho da satisfação, pelo desempenho e dever cumprido. Para o jovem francês esta vitória é não só a sua primeira no seio da equipa portuguesa como ainda a primeira depois de quatro anos de interregno (a última havia sido em 2005, no GP2). Para Miguel Amaral, foi uma vitória que, por ser em casa’ “tem sempre um sabor especial”, como afirmará no rescaldo da corrida.

Para Olivier Pla “foi simplesmente uma corrida perfeita.  Fomos sempre muito rápidos, desde o inicio do fim-de-semana”, afirmaria o jovem francês no final da corrida, “e apesar do problema de suspensão, no final da corrida - que ainda assustou um bocadinho - acabou por não se passar nada. Durante os meus dois primeiros turnos procurei andar o mais rápido possível, de forma a passar o carro ao Miguel com uma vantagem suficientemente segura para ele poder cumprir os seus turnos sem demasiada pressão e não necessitar de correr demasiados riscos. Tudo acabou por correr muito bem e eu estou muito, muito feliz!”

Após uma merecida celebração dentro da Box da ASM, brindada pelas palmas das dezenas de fãs que se amontoavam na área destinada aos visitantes na box, a equipa abalou numa correia desenfreada até ao inicio da linha de boxes, para a porta de acesso ao parque fechado para receber o Olivier Pla em ombros. Apesar dos gritos "p'rá piscina", o Olivier acabou por chegar seco ao pódio.

Depois... foi ouvir o hino, entoado pelas dezenas de fãs mais resistentes, com orgulho e com a satisfação do dever cumprido, com a ASM a colocar-se na frente do campeonato LMP2 e a depender agora de si própria para a conquista do título que lhe tem fugido desde que a estrutura de António Simões, em colaboração com Miguel Amaral se lançou nesta aventura em 2006, para além da saborosa vitória que já não era conseguida desde que a equipa levou o Lola B05/40 AER ao lugar mais alto nos 1000Km de Valência, no dia 6 de Maio de 2007, à mais de dois anos.

A festa continuou logo por baixo do pódio, como é normal, onde tivemos a honra de partilhar o champanhe da vitória com a equipa técnica, momento que nunca esqueceremos, e prosseguiu em privado na motorhome da equipa, mas não por muito tempo pois daí a poucas horas a equipa tinha de começar a empacotar o material para regressar a casa.

Assim deixamos a ASM e voltamos também nós a casa para podermos descansar e regressar horas depois para fazermos o acompanhamento da equipa no seu regresso à base, a Lisboa, felizes por esta iniciativa ter sido 'brindada', qual cereja em cima do bolo, com a vitória da ASM no Algarve.

Os Vídeos

A Festa na Box da ASM
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O Pódio
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