História | Opinião

Le Mans: Na iminência de uma nova era dourada… ou de um novo desastre?

por Hugo Ribeiro, 6 de Setembro de 2010 13 Comentários

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O logótipo do Intercontinental Le Mans Cup

No próximo fim-de-semana começa a primeira temporada de uma nova competição mundial de endurance. Para já com apenas três provas e um carácter ainda algo "experimental", a Intercontinental Le Mans Cup (ILMC) aposta em ocupar o lugar deixado vago no imaginário de muitos fãs de automobilismo pelo antigo Campeonato Mundial de Resistência (World Sportscar Championship/World Endurance Championship - WSC/WEC), que em 1992, por razões ainda hoje envoltas em histórias muito mal contadas, se extinguiu por decreto da FIA. Os 1000Km de Silverstone, uma das provas que marcavam o calendário da antiga competição será o 'pontapé de saída' da nova competição.

Estaremos nós na iminência de uma nova era dourada na endurance, ou esta competição poderá acabar em desastre deitando por terra uma situação de estabilidade que a disciplina actualmente apresenta, pacientemente construída desde a passagem de século, que com duas competições regionais - e apesar dos seus com altos e baixos - tem mantido acesa a chama das provas de resistência?

Talvez seja ainda cedo para tirar conclusões sobre o que nos poderá reservar o futuro, sendo melhor aguardar pelo final de 2011, altura em que a segunda edição do ILMC, já com um calendário de 7 provas, à imagem do WSC/WEC, e com as 24 Horas de Le Mans incluídas como evento bandeira, terá terminado para se poder tirar as primeiras ilações fundamentadas sobre o futuro da disciplina. Certezas para já,  talvez apenas uma: uma certa e evidente ansiedade, entre quem ainda assistiu ao antigo mundial, por um momento tão esperado há quase 20 anos…

Mas o que é que se passou há 20 anos que ditou a remissão da endurance para um canto (quase) esconso do automobilismo mundial? Há um ditado português que diz "dos fracos não reza a história" - frase popularizada na cena musical portuguesa da década de 80 pelo grupo Heróis do Mar - e assim é de facto. A História, seja ela social, política, económica, artística ou desportiva sempre foi escrita pelos mais "fortes", pelos vencedores — indiferentemente da forma como a vitória seja alcançada... E a história do fim do Mundial de Resistência não é muito diferente. Mas para compreendermos ainda melhor o que se passou, façamos uma pequena viagem no tempo até aos alvores dos anos 80.

Jean Rondeau venceria as 24 Horas de Le Mans de 1980 com um carro por si construído, facto único na história de Le Mans, mas apenas teve que enfrentar uma equipa semi-oficial da Porsche.

Le Mans vivia nessa época um período de menor fulgor, e nas salas do Automobile Club de l'Ouest — o organizador de sempre das 24 Horas de Le Mans —, ansiava-se por um regresso às batalhas épicas do final da década de 60, princípios de 70. Em 1980 vivia-se ainda no rescaldo de duas crises mundiais petrolíferas que haviam colocado meio mundo em recessão (os regimes socialistas da Europa de Leste foram menos afectados), e embora nessa altura não se falasse, como hoje se fala, em economia de combustível, o ACO viu aí algo que poderia ajudar relançar a competição.

Com efeito, a industria automóvel colocava a poupança de combustível na ordem do dia e o ACO e a FISA (Fédération Internationale du Sport Automobile, entidade extinta em 1993 e que tratava da organização dos Mundiais FIA) não tardaram em pôr em marcha um novo regulamento para os sport-protótipos chamado Grupo C (C de consumption - consumo em português). O conceito era bastante simples: a um regulamento aerodinâmico que procurava impor um certo back to basics, ou seja, às  linhas fluídas e elegantes dos tempos dos Porsche 917 ou Ferrari 512, juntava-se um regulamento para motores que, praticamente, permitia tudo e mais alguma coisa... apenas com uma condicionante: não ultrapassar um consumo de 500 litros (que mais tarde desceriam para 330) por cada 1000km de corrida.

O sucesso foi evidente, com Le Mans rapidamente a regressar de novo à sua antiga glória. Porsche, Ford, Lancia, Jaguar, Mercedes, Nissan, Toyota, Mazda e Aston Martin fizeram questão de marcar presença, fazendo com que o Mundial atingisse tal notoriedade que não tardou a rivalizar directamente com o Mundial de Formula 1. Menos agradadas com esta solução ficaram as equipas privadas, os pequenos construtores e os garagistas - como a Lola, Spice, Tiga, Alda, March, Cougar, Rondeau, etc -, sobretudo porque os custos baixos que sempre caracterizaram esta disciplina aumentaram exponencialmente. A resposta seria a criação de uma espécie de 'segunda classe', o Group C Junior (mais tarde Grupo C2), mas até esses acabariam por encontrar um lugar em Le Mans dentro das suas possibilidades, com alguns mesmo a conseguir lutar com os "tubarões" na classe principal.

Simultaneamente, aquela que sempre foi por definição a competição de pilotos (Le Mans era a competição das marcas por excelência, apesar do título mundial de marcas ter sido substituído pelo de equipas em 1984) estava a perder algum do seu fulgor e necessitava urgentemente de um 'golpe de asa' que lhe permitisse continuar a crescer. Com praticamente só três construtores envolvidos — Ferrari, Renault e Alfa Romeo (mas apenas com a Ferrari entre 86 e 91), quando na mesma época o Grupo C estava no auge e tinha sempre 4/5 construtores envolvidos — e com imensos pequenos construtores independentes, conhecidos por garagistas, o Mundial de F1 necessitava de facto de mais do que uma reorganização geral de forma a poder estabelecer-se como a competição mais importante do automobilismo: precisava atrair a si mais construtores, nomes com significado em qualquer parte do mundo.

Bernie Ecclestone e Max Mosley em 1976... uma amizade antiga. IMAGEM: F1DataBas

E é aqui que um nome começa a emergir: Bernie Ecclestone. Este empresário inglês, dono da equipa Brabham, que havia adquirido no princípio dos anos 70, assume as rédeas de um processo de profissionalização da F1, começando pela organização das equipas e reestruturação do próprio campeonato. Tendo formado uma empresa para controlar a organização do Mundial (a FOPA, Formula One Promotions and Administration, actual FOG, Formula One Group), a sua importância no seio da FIA vai crescendo de forma imparável na mesma medida da sua capacidade em transformar a F1 numa autentica máquina de fazer dinheiro - uma boa parte do qual fica para si mesmo... Mas, havia um entrave para o negócio atingir valores nunca sonhados disciplina dita rainha: faltava o envolvimento de grandes construtores, todos eles mais dedicados ao Endurance e/ou também aos Ralis.

A solução era óbvia: tornar a F1 mais atractiva para os grandes construtores de forma a que estes se mudassem para essa competição. A luta pelo controlo da F1 entre a FISA/FIA e a FOPA, que levaria até ao famoso boicote das equipas em 1982, leva a que a FIA acabe por aceitar dois dos homens fortes da organização da F1 no seu seio, nomeadamente o próprio Bernie Ecclestone e Max Mosley, um amigo de longa data e seu braço direito. A Ecclestone são atribuídas as questões de organização e promoção, enquanto que a FIA guarda para si os regulamentos, cabendo a Mosley o papel de assegurar que os mesmos fossem feitos à imagem do que a F1 pretendia ao tomar assento como Presidente do Conselho Mundial de Construtores. A F1 passa assim, e pela primeira vez, a ser a única competição Mundial da FIA a ter voz no seu corpo governativo, com o todo poderoso e egocêntrico Jean-Marie Ballestre, ainda presidente da FIA mas já um homem derrotado e esvaziado de poder real, a aproveitar as conferências de imprensa do ACO durante as 24 Horas de Le Mans para criticar tudo e todos na F1, numa espécie de último estertor do seu consulado.

O WSC em 1990: Mercedes, Jaguar, Porsche, Toyota, Nissan...

Chegados assim a 1990, e com Le Mans e o WSC/WEC  no seu auge, eis que FISA decide mudar tudo. Apesar do evidente sucesso do Grupo C, e com uma classe destinada aos "mais pequenos", o Grupo C2, a FIA "convence" o ACO a mudar os regulamentos, até aí livres em termos de motorização, para um regulamento em formato Formula: com 1991 a ser um ano de transição, em 1992 o Mundial de Resistência passa a adoptar motores de 3.5litros atmosféricos, iguais aos usados na... F1. O objectivo até pode aparentar ter sido inocente, mas esteve muito longe de o ser. A ideia era que, com um regulamento idêntico, o WSC/WEC poderia usar motores de F1 (como o fez durante anos com o famoso Cosworth DFV sem necessitar de nenhum regulamento específico...) e vice-versa. Na frente da organização do WSC/WEC é entretanto colocado John McDonald, um ex-piloto e ex-dono da equipa de F1 RAM, com fortes ligações a Bernie Ecclestone...

O antigo Grupo C1 é agora o C2, sendo fortemente penalizado em termos de performance, e as equipas privadas que aqui corriam com o ainda muito competitivo Porsche 962 seguem o mesmo caminho. O novo Grupo C1 torna-se o campo de experimentação destes novos regulamentos, com as equipas privadas e os 'garagistas' a praticamente desaparecerem do Mundial de Resistência face aos custos da nova formula, que mesmo para os grandes construtores já começavam a ser exorbitantes. Carros cada vez mais complexos em termos tecnológicos (chegando a ser mesmo mais avançados do que um qualquer F1 da altura) e atingindo velocidades brutais (mais de 380km/h em Mulsanne, de forma regular) exigem também pilotos mais profissionais, e os gentlemen-drivers que suportavam mais de metade das equipas desaparecem... Até os custos de hospitalidade para as equipas e para os seus sponsors e VIP's convidados quadruplicam de um dia para o outro…

O Peugeot 905, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1992 e último Campeão Mundial de Resistência. IMAGEM: Peugeot Sport

Evidentemente, não tardou que o resultado ficasse à vista. O Mundial de Resistência tornava-se na mais cara competição automóvel, as corridas, apesar de terem bastante público nos circuitos (tanto como em muitas das provas de F1), vendiam-se (já nesta altura) mal para as TVs, e os resistentes acabariam por abandonar perante a fraca mediatização e a incapacidade de suportar os elevados custos. Aos poucos, um a um, todos, mais tarde ou mais cedo, acabariam por... ir parar à F1. Estava fechado o ciclo e o Mundial de Resistência estava morto.

Morto, pelo menos na Europa, porque nos EUA, onde já decorria um campeonato nacional paralelo ao Mundial, as provas continuaram, assim como esses carros, durante a restante década, tendo o seu interesse crescente acabado por resultar no actual American Le Mans Series. O projecto acabaria também por ser 'exportado' para a Europa já em 2001, depois da experiência falhada da IMSA em fazer uma competição internacional, que apesar do nome - European Le Mans Series (ELMS) - tinha duas provas nos EUA: as 12 Horas de Sebring e as 1000 milhas de Petit Le Mans. Mas as equipas europeias não se mostram muito interessadas, até porque na Europa já havia uma competição organizada pela… FIA, que até tinha começado de forma independente em 1997, mas à qual a FIA não tardou em meter as mãos. Curiosamente, mal a FIA tomou conta do campeonato, em 2001, este começou rapidamente a entrar em declínio...

O Mercedes CLK-GT com o qual a Mercedes dominou o FIA GT de 1998. IMAGEM: Mercedes-Benz

Mais tarde, em 2003, e desta vez pelas mãos do ACO, arrancava de forma experimental um novo campeonato à imagem do ALMS e ELMS, o Le Mans Endurance Series, com uma única prova de 1000km disputada em Le Mans, no circuito Bugatti — era o embrião do actual Le Mans Series (LMS), que arrancaria definitivamente no ano seguinte. Pelo meio, Le Mans, com o desaparecimento dos protótipos, tinha ficado entregue aos GTs, e o aparecimento de uma competição independente chamada BPR, com provas de 4 horas disputadas por super-desportivos GT, acabaria por encher Le Mans no seu período negro — competição que acabaria também nas mãos da FIA, em 1996.

Das 4 horas iniciais, as provas 'descem' para os 500 km (3 horas), com os construtores de regresso, Porsche e Mercedes à cabeça; Toyota e Nissan apenas para Le Mans, pois o ACO aceitava os carros desta competição em Le Mans para manter a prova viva. Os regulamentos seriam liberalizados, e é com com GTs de homologação especial — que na verdade eram praticamente sport-protótipos à imagem (actualizada) dos Porsche 917, Ferrari 312 e Ford GT MKIV — que os construtores aparecem em Le Mans. Mas dois anos foi quanto durou o sonho, pois o domínio absoluto da Mercedes no FIA GT, onde ganhou todas as provas de 1998, depois de quase ter feito o mesmo em 1997, levaria os outros construtores a abandonarem o projecto.

Passados todos este anos, o ACO volta ao ataque: com dois campeonatos regionais a sustentar as 24 Horas de Le Mans: o LMS e o ALMS; a presença regular da Audi e da Peugeot, que parecem não querer ir embora tão cedo; a presença quase assegurada da Aston Martin; e com algumas das mais fortes equipas privadas (Grupo C/LMP1); a que se junta ainda uma segunda linha de equipas privadas mais pequenas (Grupo C Junior - C2/LMP2) mas aguerridas; bem como ainda os GTs, com a Ferrari e a Porsche num registo semi-oficial e a BMW e Corvette a nível oficial a dar cartas — eis como o interesse pelas provas de resistência parece voltar a subir levando o ACO a entender estar na hora de dar o passo em frente e criar algo pelo qual não só os fãs mais antigos anseiam desde 1992... mas também grandes construtores vêm pedindo desde que regressaram a Le Mans.

Excepto Le Mans, Audi e Peugeot apenas se confrontaram este ano durante os 100km de Spa, no LMS. IMAGEM: Frederic Le Floc / DPP

Surge assim o Intercontinental Le Mans Cup, uma prova que pretende reavivar o antigo Mundial de Resistência, mas onde nem tudo são rosas. O aparecimento do LMS (Europa) veio competir directamente com o ALMS (EUA), pelo menos em termos de atenção dos grandes construtores. A Audi foi presença assídua nos EUA desde o inicio, enquanto que a Peugeot optou pelo Europa, culminando na fantástica temporada de 2008, onde ambas se juntaram no LMS, para no ano seguinte ambas desaparecerem da competição regular.

A questão é que nenhuma delas parece interessada em estar em dois lugares ao mesmo tempo: se a Audi tem interesse no mercado automóvel norte-americano, facto que terá pesado na sua opção pela participação no ALMS, já a Peugeot está mais focada no europeu, pelo que o único sítio onde os interesses de ambos convergem é na Ásia. Depois da tentativa de competirem uma contra a outra no LMS, que resultou em termos de público nos circuitos mas falhou em termos de transmissão TV, era evidente que ou se encontravam uma vez por ano em Le Mans, ou então pensavam no mercado global apostando tudo numa competição que corresse o mundo.

Para o ACO, pensar global não é problema, até porque com isso poderá atrair mais construtores, mas não sendo possivel fazer todas as provas do ALMS e do LMS (15 no total) mais algumas na Ásia (e quem sabe noutros locais), uma selecção de provas de cada campeonato tinha de ser feita, a juntar às do (virtual...) Asian Le Mans Series, com as 24 Horas de Le Mans, que justificam qualquer orçamento, a terem de ser incluídas de novo — como chamariz... — num campeonato regular.

Os confrontos Audi-Porsche-Acura, ao qual a Peugeot se juntou em Sebring e Petit Le Mans, catapultaram o ALMS para o 2º lugar, atrás da NASCAR, em termos de audiências televisivas e assistência ao vivo nos EUA. IMAGEM: ALMS

Decorrendo esta nova competição — que em 2011 deverá ter 7 provas (2 na América do Norte, 3 na Europa e 2 na Ásia) — em simultâneo com o LMS e ALMS, é praticamente um dado adquirido que os grandes construtores não irão fazer uma temporada integral nestes dois campeonatos 'regionais', a menos que vendam, aluguem ou cedam os seus carros a equipas privadas que o façam por si. A questão que se coloca então é saber se, nessas circunstâncias, poderão o ALMS e o LMS sobreviver sem os grandes construtores.

O LMS tem-se aguentado muito à custa de uma grelha preenchida por equipas privadas (embora algumas desapareçam após as 24 Horas de Le Mans) - mas até quando? Quanto ao ALMS, apesar de estar em claro declínio desde a saída de Audi, Porsche e Acura, e com uma grelha que sempre dependeu mais destas marcas do que das (pouquíssimas) equipas privadas a correr quer na LMP1 ou LMP2, usufruía no entanto de contratos de direitos televisivos bastante lucrativos e imenso público nas bancadas — mas como os contratos estão-se a esvaecer, segue-se o público... Poderá assim Le Mans sobreviver sem dois campeonatos regionais que forneçam carros e equipas? Poderá ficar dependente das (para já poucas) equipas e construtores que farão o ILMC?

Por outro lado, o ACO tem dado constantes 'tiros no pé' com regulamentos que, longe de assegurarem um mínimo de equilíbrio competitivo, têm pelo contrário dado o aval ao domínio dos protótipos a diesel sobre os restantes protótipos a gasolina, o que não só poderá levar a Aston Martin a desistir de vez como, e pior do que isso, tem constituído um entrave à entrada de novos construtores para quem a tecnologia diesel está longe de ser uma prioridade ou fazer parte da sua ordem do dia. Mas o novo regulamento já anunciado, há algum tempo, para 2011 (com uma escalada de custos como em 1992?...) aposta nas tecnologias híbridas, uma preocupação crescente da indústria automóvel (tal como o consumo o foi relativamente ao Grupo C, e que estaria na origem da última idade de ouro em Le Mans?...) e que supostamente poderá, assim, atrair novos construtores, sendo os mais falados a Toyota e a sempre presente no imaginário dos fãs e muito aguardada Porsche.

Por tudo isso: estaremos na iminência de uma nova era dourada… ou de um novo desastre?