O ano de 2009 encerra algumas efemérides 'redondas' relacionadas com as 24 Horas de Le Mans. Passar os olhos, ainda que de forma breve, por alguma delas e outras tantas curiosidades, é o, sempre interessante, exercício que vos propomos agora.
As efemérides...

The Lords of the Rings
100. Em 1909, na sequência da sua expulsão da própria marca que fundara, com seu nome, dez anos antes, August Horch dava inicio à fundação da Audi. Impedido legalmente de utilizar o seu nome, Horch adopta o étimo latino Audi correspondente a Horch (cuja tradução em português é o imperativo Oiça!, do verbo ouvir), nome que no entanto só se tornaria efectivo em 25 de Abril do ano seguinte. Os quatro anéis que actualmente identificam a marca só surgiriam nos anos 30 com a criação do grupo Auto Union, resultante da fusão da Audi com a Horch original, a DKW e a Wanderer, correspondendo cada um dos anéis a uma destas quatro marcas.

By Her Majesty's Request
50. No ano em que se comemora o cinquentenário da sua primeira e única (até à data) vitória em Le Mans, a Aston Martin está de regresso ao mais alto nível, recuperando ainda, para a ribalta - e num genial golpe publicitário - as míticas cores da Gulf Oil. Em 1959, o DBR1/4 #4 de Stirling Moss e Jack Fairman, equipado com um motor mais 'musculado', foi incumbido da tarefa de forçar o andamento de forma a provocar o máximo de 'estragos' na forte concorrência italiana constituida pelos Ferrari 250 TR 59, e assim abrir caminho à vitória de um dos outros dois Aston Martin. E de facto, a táctica resultou de forma brilhante, pois não só os três Ferrari oficiais acabariam por desistir como os DBR1 - com a dupla americano-inglesa Shelby/Salvadori à frente, no #5, secundada pela dupla belgo-francesa Frére/Trintignant, no #6 - acabariam por conquistar a dobradinha com larga margem sobre o terceiro classificado.
Se é verdade que hoje dificilmente uma táctica semelhante poderá ter os mesmos resultados, pois a fiabilidade das actuais viaturas nada tem a ver com a das viaturas dessa época, também não será menos verdade que a marca inglesa tudo fará para repetir a façanha. No entanto, e sejamos realistas, face ao poderio dos 'diesel', pouco mais resta à Aston Martin que aspirar ao 'prémio de consolação' que será a vitória entre os 'gasolinas'.

A Rebel with a Good Cause
40 (1). Foi há quarenta anos: enquanto todos os outros correm, há um piloto que atravessa em passo lento a pista de La Sarthe, ajustando calmamente as luvas. Dirige-se, como todos os outros, para o seu carro, no caso o Ford GT40 #6, que o aguarda junto muro das boxes, do outro lado da pista, cumprindo o tradicional procedimento de largada. Jacky Ickx, belga de nascimento, 24 anos de idade, um dos melhores pilotos da sua geração (e não só) protesta assim contra o que considera um desajustado e perigoso procedimento. Ainda não se tinha cumprido a primeira volta ao circuito, e já o (triste) destino lhe dava, de certa forma, razão - é, pelo menos, o que muitos defendem: John Wolfe, que na pressa do arranque teria apertado mal (ou nem sequer teria apertado) o cinto de segurança, viria a encontrar a morte ao ser projectado do seu um Porsche 917 privado na sequência do embate com as barreiras de protecção, em Maison Blanche.
No ano seguinte, os carros largariam ainda, e pela última vez, da tradicional formação em espinha (com os carros colocados a 45º em relação ao muro) ao longo do muro das boxes, mas já com os pilotos devidamente acomodados dentro dos respectivos cockpits - procedimento que o filme "Le Mans", em parte rodado durante essa edição das 24 Horas, imortalizaria.

The Winner Takes it All
40 (2). Mas a edição das 24 Horas de Le Mans de 1969 não ficam apenas marcadas pelo 'passeio' de Jacky Ickx na largada e a morte de Wolfe. Ao executar todo o procedimento de largada na maior das calmas, o jovem piloto belga acabaria por sair na cauda do pelotão e ter assim de ir atrás do prejuízo. Mas numa prova tão longa em que a fiabilidade das mecânicas joga um papel preponderante no resultado final, o melhor, para ele e para a equipa anglo-americana, ainda estava para vir. Embora dominando a maior parte da corrida, numa clara demonstração de força, os Porsche 908 e 917 - este fazendo a sua estreia de forma retumbante, encontrando-se na liderança com oito voltas de avanço quando foi obrigado a desistir, a duas horas do final da prova - a vitória acabaria por sorrir, por escassos 120 m(!) à dupla Jacky Ickx/Jackie Oliver, no Ford GT40 #6. Seria a primeira das seis vitórias de Ickx na prova, o que lhe valeria o epíteto de "Mr. Le Mans", que ainda ostenta com orgulho apesar de Tom Kristensen, com as usas oito vitórias, já lhe ter 'roubado' o recorde.

David vs. Goliath
25 (1). Vinte e cinco anos é quanto já leva de vida a sociedade criada em 1984 por David Richards e Ian Parry e que dá pelo nome de Prodrive, contando já, entre muitas outras, com 100 vitórias e 6 títulos no Mundial de Ralis, com a Subaru; cinco títulos ingleses de Turismo, com a BMW, Alfa Romeo e Ford; e três vitórias em Le Mans, na classe GT1, com um Ferrari (em 2003) privado e com a Aston Martin, a nível oficial, em 2007 e 2008.
Nesta sua participação na classe rainha, e se bem que o sonho comande a vida, dificilmente David levará a melhor sobre os 'Golias' movidos a diesel, transformando em obra o sonho de uma vitória em Le Mans.

Mon Oncle
25 (2). Em 15 de Julho cumprem-se igualmente 25 anos sobre a primeira e única experiência de Ayrton Senna com um sport-protótipo. Foi em 1984, nos 10oo Km de Nürburgring, a primeira prova oficial disputada no novo circuito, ao volante do Porsche 956K #7 da NewMan Joest Racing , o mesmo que havia ganho, um mês antes as 24 Horas de Le Mans pelas mãos de Henri Pescarolo e Klaus Ludwig. A convite de Domingos Piedade, que era na altura não só o seu manager mas também Director Desportivo da Joest, Senna juntava-se ao já veterano Pescarolo e a outro 'jovem lobo' em ascenção, o sueco Stefan Johansson. Nonos na qualificação, a 4 s do Rothmans Porsche oficial de Stefan Bellof e Derek Bell, na corrida acabariam em 8º, a 10 voltas da mesma dupla, que se sagraria vencedora da corrida, muito por culpa de problemas com a embraiagem. Da sua prestação diria Norbert Haug, na época jornalista de serviço para a Auto Motor und Sport, ter estado ao nível dos bem mais experientes na categoria, incluindo Bellof, que se sagraria campeão mundial nesse ano.
Vinte e cinco anos depois, o apelido está de regresso à categoria, cabendo ao sobrinho Bruno Senna Lalli defendê-lo. Se bem que o tio dele tenha dito um dia ter ainda mais talento que ele próprio, Bruno, e apesar dos bons desempenhos já realizados, ainda estará longe de o demonstrar cabalmente. Enquanto aguarda a oportunidade de dar o salto para a F1, este será um bom teste às capacidades do jovem brasileiro.

Deutschland Über Alles
10 (1). Dez anos e oito vitórias: para a história, a primeira década do séc. XXI será indubitavelmente a década Audi. Uma década de domínio quase absoluto que começou logo na segunda presença, em 2000, e só foi interrompida em 2003, com a vitória da Bentley (cujo Speed 8 tinha mais semelhanças com o Audi R8C do que o nome deixa perceber, não pertencesse a Bentley, já na altura e desde 1998, ao grupo Volswagen/Audi).
Comemorar o centésimo aniversário da marca e o décimo da sua primeira participação em Le Mans seria assim mais do que uma simples cereja em cima do bolo (de aniversário)...

New Team in Town
10 (2). Trinta e três participações como piloto (recorde que tão cedo não será batido) e quatro vitórias absolutas depois, Henri Pescarolo apresenta-se à partida das 24 Horas de Le Mans de 1999, na dupla condição de piloto (naquela que constituiu a sua 34ª participação, e também despedida, como piloto) e chefe de equipa. Preparando já o futuro, Pescarolo 'dá o salto' e constitui o embrião da actual Pescarolo Sport: a Pescarolo Promotion Racing Team, inscrevendo um Courage C50 com apoio oficial do pequeno construtor francês, para o qual aliás Pescarolo havia corrido em Le Mans desde 1994. No ano seguinte, seria já sob a designação Pescarolo Sport - com Henri já de luvas 'arrumadas' e assumindo as novas funções a tempo inteiro - que a equipa alinharia nas 24 Horas. Fiel à Courage até 2003, em 2004 Pescarolo resolve introduzir significativos desenvolvimentos no C60 daquela marca, passando a designá-lo por Pescarolo C60 - estava dado mais um passo, passo esse que levaria a equipa ao título do LMS em 2005 e 2006 (ano em venceria todas as cinco corridas do campeonato) e ao segundo lugar em Le Mans nessas mesmas épocas.
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