Notícias | Portugueses | USCC

United SportsCar Championship

João Barbosa no USCC 2015: “O objectivo passa por defender os nossos títulos”

por Hugo Ribeiro, 24 de Janeiro de 2015 Sem Comentários

© José Mário Dias

Parece que foi ontem mas já lá vão mais de três meses e meio desde a prova de Petit Le Mans que consagrou o piloto português João Barbosa em toda a linha: Campeão do United Sportscar Championship e da North American Endurance Cup, na companhia do piloto brasileiro Christian Fittipaldi, com quem formou, já com a temporada 2013 em andamento, uma das mais formidáveis duplas de resistência no outro lado do Atlântico. As circunstâncias não o permitiram desde então, mas com as 24 Horas de Daytona à porta, entramos em contacto com Barbosa para um pequeno "update".

O título, ou títulos na verdade, conquistados por João Barbosa no final da primeira temporada do United Sportscar Championship foram apenas a confirmação cabal do que já se sabia: o piloto portuense é um dos melhores e mais rápidos pilotos de resistência da actualidade. A ausência das 24 Horas de Le Mans nos últimos anos, e do WEC também, retiram-lhe um pouco as luzes da ribalta, mas competir no USCC não é pera fácil, e não é por acaso que muitos pilotos WEC — se autorizados pelas suas equipas — não perdem uma oportunidade para irem a Daytona, Sebring, Petit Le Mans ou mesmo Watkins Glen.

Falámos um pouco antes da Sessão de Qualificação, informalmente, e foi este o resultado.

Le Mans Portugal (LMP): Finalmente Campeão!

João Barbosa (JB): (Risos)… sim, pode-se dizer que finalmente… Já há muitos anos que andava à procura de uma oportunidade destas, de um resultados destes. As pessoas sabem que eu tenho feito um bom trabalho, mas é sempre difícil “provar” quando não há resultados de relevo. Este resultado veio ajudar-me um pouco mais a afirmar-me  o trabalho que tenho realizado até agora, que tem sido muito valido, mas não tem tido os resultados para mostrar no final do ano, e este ano tudo se conjugou da melhor maneira e conseguimos [com o Christian Fittipalidi] um grande resultado para a equipa. E claro que fiquei também extremamente feliz porque provou-se que com as condições certas somos uns sérios candidatos ao título.

LMP: Já lá tinhas andado perto [do título] há uns anos atrás ainda com a Brumos, e em 2013 numa temporada prejudicada pelo facto de não teres ao teu lado Fittipalidi desde o início… já para não falar das três vitórias nas 24 Horas de Daytona. São estas também um validar da tua qualidade?

JB: São… claro que também são, mas ganhar uma corrida é uma coisa e outra bem diferente é vencer um campeonato. Embora, como é lógico, as 24 Horas de Daytona sejam muitíssimo importantes. Mas, ganhar um campeonato, conseguir colocar em pista toda uma consistência ao longo de várias provas é muito mais difícil e nós felizmente no ano passado conseguimos isso. Provámos que tínhamos um excelente andamento em Daytona logo no início da temporada, e conseguimos manter essa eficácia durante o resto do ano. Um dos nosso calcanhares de Aquiles era manter uma performance consistente ao longo do ano, e finalmente conseguimo-lo, conquistando o título de pilotos e de equipas no United SportscarCar, o de pilotos e de equipas no NAEC e ainda ajudamos a Chevrolet a ganhar o campeonato de marcas. Foi portanto um ano em pleno que será muito difícil de repetir.

LMP: Com os títulos, algo mudou na tua rotina como piloto de competição?

JB: Não! Continuo a trabalhar exactamente da mesma maneira. Não se pode relaxar com os resultados que não são os melhores, nem quando eles o são. Esforço-me sempre ao máximo, estou sempre concentrado a 100% no que estou a fazer, para conseguir melhorar após um dia mau e ou após um dia bom, porque lá por termos ganho um Campeonato não deixa de haver situações que podemos sempre melhorar. Penso mesmo que um dos problemas que temos de enfrentar é mesmo o de ficar confortável com os resultados alcançados, porque os nossos rivais estão a trabalhar ao máximo para tentar levar-nos o título… Mas claro que nós tudo faremos para os manter, embora saibamos que vai ser muito complicado. Vamos fazer sempre o nosso melhor, e trabalhar tanto ou ainda mais do que no ano passado para alcançar mais um grande resultado este ano.

LMP: Mas sendo tu agora o Campeão em Título, certamente és muito mais solicitado fora da pista?

JB: Sim. Ao nível do Campeonato, e com as celebrações de Daytona, tenho sido bastante solicitado para acções de promoção, dando a conhecer as 24 Horas de Daytona e falar sobre o Campeonato. Mas esse é um dos nossos papeis, num campeonato que apesar de tudo é recente e que tem de ser promovido junto das pessoas.

LMP: E em Portugal?

JB: Tirando os sites e os jornais habituais, o automobilismo em Portugal está muito esquecido… bem, tu sabes que nunca dei muita importância a que se faça eco dos meus resultados, e nunca trabalhei muito o contacto com a comunicação social. Quem quiser falar comigo fala, quem não quiser falar não fala. Hoje em dia é tão fácil obter informação sobre o que está a acontecer, pelo que havendo interesse fala-se. Mas no geral, penso que as pessoas se aperceberam um bocadinho mais graças aos resultados no Campeonato e em Daytona e houve um pouco mais de exposição, sobretudo nos meios que já referi.

LMP: 2014 já vai longe, o título está no bolso, e agora começa uma nova temporada. Quais são os teus primeiros comentários ao renovado Corvette e à performance dos teus rivais após o ‘Roar before the 24’?

JB: São bons… este ano, felizmente para os pilotos (risos), ao nível de conforto vamos ter algumas melhorias, utilizando pela primeiras um volante com patilhas, e isso ao nível de conforto é uma melhoria enorme para nós pilotos; e temos também uma nova carroçaria, com um visual aparentemente mais próximo do Corvette de estrada mas que mecanicamente mantém-se igual. A nova carroçaria provoca algumas alterações aerodinâmicas e altera também um pouco do que fomos aprendendo ao longo da temporada. Tivemos três dias de testes muito positivos em Daytona, conseguimos ser muito rápidos, e a grande incógnita são os nossos rivais, porque não sabemos realmente se estão fortes ou não. Ou melhor, eles estão fortes porque fizerem bons tempos, agora se mostram tudo o que tinham ou não, isso é a grande questão. Ninguém quer andar demasiadamente devagar, mas também ninguém quer andar demasiadamente rápido com medo de ajustes no BoP antes da corrida, portanto... temos que esperar para ver.

O nosso restritor este ano é mais pequeno do que no ano passado, logo não iremos ser tão rápidos; os LMP2 têm vindo desde a temporada passada a ter algumas facilidades, assim como os Ford [Chip Ganassi] — já partimos com alguma desvantagem ao ter menos cerca de 2 litros de combustível que os motores Ford... - há muitas questões em aberto.

LMP: Por isso é que nos dizias durante o 'Roar' que os teus rivais andaram a esconder o jogo...

JB: Pois... como te tinha referido, eles fizeram o melhor tempo da primeira sessão, na primeira vez que colocaram o carro em pista [Chip Ganassi], e depois quanto mais trabalhavam no carro mais devagar andavam... (risos) Acho que é um sinal claro de que estão totalmente confortáveis e sabem bem o que estão ali a fazer. Mas, durante a corrida, a ver vamos se será o suficiente, e se o que nós fizemos também será suficiente para nos colocar nos lugares da frente. Todos sabem que as corridas de 24 Horas hoje em dia são disputadas a fundo, com carros muito fiáveis, pelo que ter o carro mais rápido vai ser muito importante sobretudo nos momentos finais da corrida. Resta-me esperar que a nossa velocidade e fiabilidade esteja tão boa como no ano passado. 

LMP: Os P2/LMP2 irão este ano estar muito mais fortes? E lutar muito mais taco-a-taco com os DP?

JB: Olhando para os tempos feitos aqui durante os testes, o carro da Michael Shank Racing esteve muito perto dos nossos tempos e a velocidade de ponta era apenas 1 ou 2 milhas inferior — e eles são muito fortes no infield [o interior da pista] — pelo que eles serão os principais candidatos. Depois, com as várias alterações regulamentares que foram acontecendo durante o ano passado, eu acho que um LMP2 poderá vencer qualquer prova, sobretudo quando o campeonato for às pistas mais sinuosas. Mas há que esperar para ver...  

Ainda assim penso que, apesar de tudo, nós temos um dos melhores carros para enfrentar a temporada, mesmo tendo sido um dos mais penalizados. Há que lidar com as condicionantes, controlar o que pudermos controlar, e fazer o melhor que pudermos. E acho que será o suficiente para lutar de novo por bons resultados.

LMP: Portanto, em 2015 é de novo para lutar pelo título.

JB: Para defender o nosso título! O nosso objectivo para este ano é defender os nossos títulos! E todas as equipas estão a trabalhar para nos contrariar, para que isso não aconteça, mas é lógico que vamos trabalhar tanto ou ainda mais do que no ano passado. Penso que assumidamente podemos afirmar que somos um dos candidatos ao título, embora vá ser extremamente difícil. Também, se fosse fácil, não tinha tanta piada (risos).

LMP: Acreditando que o #5 vai estar na luta pela vitória em Daytona,  quem pensas que irão ser os vossos principais rivais?

JB: Penso que serão as equipas habituais: a Wayne Taylor Racing e o Corvette #10, a Chip Ganassi, que irá estar muito forte com a Ford, e a Michael Shank Racing. Haverão 5/6 carros que poderão lutar pela vitória.

LMP: E Le Mans? O bichinho ainda morde?

JB: (risos) Claro que sim! Le Mans é uma corrida muito especial e importante, que eu gostaria de fazer de novo, mas cada vez mais com determinadas condições. Tem sido bastante difícil encontrar um lugar últimamente, para fazer Le Mans, mas tenho essa data sempre em aberto, tento sempre não marcar nada para essa altura. Mas eu ganho a minha vida a correr aqui, e não tenho patrocínios para levar para equipas, e estas acabam por preferir pilotos que levem dinheiro. Mas sim, tenho sempre esperança de ir a Le Mans mais uma vez...

LMP: Achaste estranho a IMSA não ter dado um dos convites para Le Mans a que tinha direito à Action Express Racing? Afinal são vocês os Campeões.

JB: Não faço ideia de como isso se processou, mas também a nossa equipa nunca expressou vontade para ir a Le Mans sem ser com um Daytona Prototype. Se eles aceitassem DPs, claro que tinhamos estranhado esta decisão. Mas como não temos nenhum LMP2 nem intenções de ir a Le Mans com um carro que não seja o nosso — e a Wayne Taylor Racing demonstrou essa vontade — não ficamos nada surpreendidos.

Ao João, uma vez mais um grande obrigado pela enorme disponibilidade em atender os nosso pedidos, e a melhor das sortes para a temporada 2015 do United Sportscar Championship e North American Endurance Cup