Brands Hatch, 24 de Outubro de 1971.
Disputa-se a 1ª World Championship Victory Race, prova de F1 extra-campeonato. No paddock, apesar da corrida não contar para nada, a azáfama é a habitual: pilotos, mecânicos e outros membros das equipas, convidados, jornalistas e público acotovelam-se - uns nos seus afazeres outros à procura de um 'boneco', um autógrafo ou dois dedos de conversa com os seus pilotos favoritos.
Ao longe, diviso e reconheço o meu amigo Jo 'Seppi' Siffert, ainda 'à civil', de fato, mãos nos bolsos e os Ray Ban que o protegem do sol que parece querer abençoar este domingo de corridas em solo de sua majestade britânica.
- Seppi! - grito, procurando furar por entre a multidão.
Reconhecendo-me a voz, roda sobre os calcanhares e fita-me. Instintivamente, como o caçador perante a presa, carrego no botão de disparo fixando aquele instante para eternidade. Mal sabia então - nem tinha como o saber - que aquela seria uma das suas últimas fotos em vida.
- René! Então, tudo bem? - responde-me, no seu jeito habitual, de anti-vedeta, sempre disponível, dispensando-me o mesmo sorriso de playboy com que destroça corações femininos por todo o lado para onde vá e com que parece esconder a imensa e inquebrável determinação com que construiu a sua carreira, 'pedra a pedra', com as suas próprias mãos, neste difícil mundo - para quem, como ele, não tinha fortuna pessoal - das corridas de automóveis e lhe permitiu tornar-se um dos mais amados pelo público e admirado pelo seus pares.
- Tudo! E tu? Pensava que ias ao Japão...
- Sim, era para ir, mas as coisas complicaram-se com o transporte do carro e depois, como havia aqui a homenagem ao Jackie, acabei por não insistir muito e preferi vir aqui...
De facto, era suposto Siffert ter seguido com o seu Porsche 917/10 para o Japão, depois de ter disputado no fim-de-semana anterior o Monterey Grand Prix a contar para o campeonato Can-Am, mas dificuldades no transporte do carro acabariam por deixar o piloto suíço livre para responder positivamente ao apelo à homenagem ao recém coroado campeão de F1 e seu amigo Jackie Stewart. Ironia do destino, esta Victory Race - por sinal disputada no mesmo circuito de Brands Hatch onde, três anos antes, Siffert havia conquistado a sua primeira vitória (oficial) na F1 - havia ocupado a data deixada vaga pela anulação do GP do México a contar para o Mundial de F1, depois da morte, em Julho desse ano, do ídolo mexicano Pedro Rodriguez - colega de equipa de Siffert quer na BRM, na F1, quer na Porsche, no Mundial de Marcas, e seu arqui-rival - ter levado os organizadores mexicanos a desistirem da prova.
- E os pequenos?
- Estão óptimos - estive agora com eles depois de vir dos Estados Unidos. A Véronique está cada vez mais linda e o Philippe, não tarda nada está a andar!
Siffert parecia correr contra o tempo. Fora assim sempre desde miúdo, em que o sonho de um dia chegar à F1 o levara a empreender toda a espécie de pequenos negócios que lhe iam garantido o mínimo de recursos necessários, até esses dias, em que ao Mundial de F1, juntava a F2, o Mundial de Marcas (WSC) e o Can-Am - que só nesse ano já o tinham feito disputar cerca de 40 corridas, quase uma por fim-de-semana. A Véronique, que tinha dois anos, e Philippe, nove meses, apenas as fotografias permitirão um dia imaginar memórias de um pai que mal conheceram mas não deixarão de admirar...
- Bela qualificação, hein?
- Sim, o carro está bom, conseguimos um bom acerto... vamos lá ver como se vai portar na corrida.
- Tem sido um ano difícil...
- Bem, não foi mau... mas não fossem alguns problemas que tivemos e poderia ter sido melhor. Mas as corridas são assim.
O contrato com a BRM - pago pela Porsche (marca da qual era piloto oficial no WSC) como forma de impedir que a sua 'estrela' se mudasse para a rival Ferrari, que lhe havia acenado com um contrato duplo para F1 e Mundial de Marcas - parecia promissor, depois da terrível desilusão que havia sido a sua ligação à March, no ano anterior, tendo lhe dado a oportunidade de alcançar a sua segunda vitória na disciplina e a melhor classificação de sempre (4º lugar, ex-aequo com Jacky Ickx) no campeonato. Mas se na F1 o sonho de discutir o título e consagrar definitivamente o seu nome na disciplina, juntando-se à restrita galeria dos seus maiores heróis (nomeadamente daquele que mais admirara, Jim Clark), ia sendo sucessivamente adiado, no WSC o seu nome granjeara já uma reputação inquestionável, tendo não só ajudado a Porsche a conquistar os títulos de 69, '70 e '71 como era, àquela data, o piloto com mais vitórias (13) naquele campeonato e também o que detinha o recorde de vitórias (6) num só ano (1969). Mas o seu estatuto no seio da equipa de John Wyer, que representava oficialmente a marca alemã no WSC, vinha a ser questionado, em pista, desde o ano anterior, pela juventude e talento do mexicano Pedro Rodriguez, estando ainda bem fresco na mente de todos nós o episódio da largada para os 1000 Km de Spa-Francorchamps do ano anterior...
- Vemo-nos depois da corrida?
- Sim, claro. Até logo.
Não o voltaria a ver.
À 14ª volta, 15:18 horas daquela tarde de Outono, uma nuvem de fumo negro ergue-se no ar, anunciando o pior. Não tardaríamos a sabê-lo.
À noite, no bar em que era suposto encontrá-lo, com alguns dos seus amigos, depois da corrida, o seu lugar permanecia triste e silenciosamente vazio. Enquanto a TV debitava imagens a preto-e-branco do acidente, para uma plateia entre o alheado e o incrédulo; Heini, Jean-Pierre e Michel - os cubos de gelo tilintando no copo - olhavam o vazio; e Jacques - o cigarro pendente dos lábios - escrevia febrilmente como que procurando fixar as memórias de um tempo que já não mais voltaria.
Dias depois, eu era apenas mais um entre as cerca de 50.000 pessoas que enchiam as ruas de Friburgo prestando a última homenagem ao seu herói - que já não o era só da zona baixa popular e proletária da cidade, onde nascera no seio de família onde o dinheiro não abundava, mas também da zona alta aristocrática que igualmente o adoptar já como seu.
«Là, où il y a le risque, il y a la mort. Là, où il n'y a pas de risque, il n'y a pas de vie», diria o Padre Duruz, durante o serviço fúnebre, resumindo o espírito de um época, em que qualquer piloto convivia de muito perto com a morte, que amiúde se cobrava da ousadia de quem a desafiava.
Mas, como também me diria a sua irmã Adelaide, "Chaque être humaine fait une choix. Et lui, Il a fait le choix de vivre dangereusement. Je pense qu'il vaut mieux vivre dangereusement pendant 34 ans, qui s'emmerder pendant 80 ans."
Joseph Siffert. Friburgo, 7 de Julho de 1936 - Brands Hatch, 24 de Outubro de 1971.
Nota: qualquer semelhança com pessoas, factos ou acontecimentos reais não é, de todo, mera coincidência. Porém, o relato do suposto encontro é pura ficção baseada na interpretação livre da foto que ilustra o artigo, retirada do filme "Jo Siffert. Live Fast, Die Young" (Men Lareida, CH, 2005).





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Targa Fiorio:
Carros de Sport em estradas de montanha, com rochas de um lado e de outro. Já tentei imaginar os actuais LMP1 a fazerem essa loucura mas simplesmente não consigo. (Sei que haviam carros mais pequenos para aquela prova, como o 908 “Barra de Sabão” mas mesmo assim… aquela potência toda na rua!)
Eu li aquele detalhe do Fittipaldi num livro publicado juntamente com o jornal “O público” que era uma biografia praticamente da F1. Eram vários os cronistas que teciam a história, e haviam uns melhores do que outros por isso… mas é obrigatório verificar em mais do que uma fonte o que se passou. Sempre que possível. Esse livro até falava num mecânico num bar com uns copos que tinha confessado a verdade. É um pouco duvidoso não é?
Também recordo-me de ter ouvido falar que foi a inalação de fumo que o matou mas só confirmando no GP Encyclopedia e afins. Mas é capaz de ser verdade.
Quando tiver novidade digo-te qualquer coisa
Abraço!
Rochas e… abismos! Para além do piso…
Tomá lá mais:
http://www.youtube.com/watch?v=haIpAQg9n6w&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Uw9OPGATkRM&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=jKoRmPRpb6Y&feature=fvw
http://www.youtube.com/watch?v=Q-l92QWA3i8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=qxomMmgHQE0&feature=related
Essa história do mecânico da BRM já a li noutro lado qualquer, mas não sei onde: alguém que decidiu empreender a tarefa de de descobrir a verdade mas o mais perto que tinha chegado era desse mecânico, só não conseguiu confirmar a veracidade das afirmações… ou algo do género. Eu há uns tempos andei a recolher material para um dia escrever algo mais de fundo sobre o Siffert (o filme deixou-me a ‘bater mal’…), mas ainda não tive muito tempo para tratar e cruzar as informações.
Desculpem, mas só hoje tive acesso a esse tópico, porém gostaria de comentar o que segue:
Existe um livro publicado de Emerson Fittipaldi em que ele afirma que quando o Siffert acidentou-se, ele tentou ajudar, mas ao chegar a 50 metros do carro, o mesmo explodiu, oque impossibilitou-o de qualquer tentativa, já que Siffert tinha uma perna partida e provavelmente por isso não conseguia sair sozinho do carro.
Essa versão me parece descabida, haja visto que quando houve o acidente, Siffert estava em quarto lugar na corrida e Emerson em segundo, colado ao BRM de Gethin e portanto à frente.
No vídeo podemos ver que os carros deram uma volta e começam parar ao chegar proximo do local do acidente.
Numa revista da época, Emerson comenta a corrida e disse que parou seu carro, ao seu lado parou Stewart e ele perguntou se Jackie sabia quem tinha se acidentado e a resposta foi um balançar de cabeça.
Emerson perguntou a um bandeirinha e só então soube que era Siffert.
Por esse motivo a segunda versão me parece verdadeira.
De facto, também me parece mais credível a segunda versão. Quanto mais não seja, por ter sido reproduzida na época, e portanto mais próxima dos acontecimentos, pois, como sabemos, a memória é traiçoeira e não surpreenderia que Fittipaldi, uns anos mais tarde, quando publicou o livro, já não recordasse com precisão o sucedido.
Correcto, nesse livro que tem titulo” A história da F1-Grand Prix ” Público-Talento 2003, FRANCISCO SANTOS. Excelente publicação na qual sobre a morte de SIFFERT, FITTIPALDI diz:
«Passei pelo local do acidente e o JO fez-me sinal de OK, mas logo de seguida o carro explodiu e ele morreu carbonizado.» E está lá o diálogo com mecânico BRM, que se lamenta pela velocidade a que SIFFERT seguiria e que o impediu de controlar o carro. Há qualquer coisa que não bate certo! Também é certo que FITTIPALDI estava em pista e não no bar. Com certeza aparecerá algum relato mais pormenorizado.Cumprimentos!
Devidamente encaminhado para aqui, porque este site merece os parabéns IN LOCO pelo excelente artigo.
A quem nunca viu o filme “live fast die young”, mesmo não pescando francês nem alemão,recomendo veemente que o veja pelas espectaculares imagens que tem da F1 antiga e claro de momentos raros do “SEPPI”
Um detalhe engraçado é que a vitória do Jo Siffert em Brands Hatch 69 foi a última vitória da Rob Walker Racing, o primeiro privado ganhador na F1, utilizando carros construídos por terceiros com os seus apoios pessoais.
(também pode ser considerada a Tyrrell, mas havia apoio oficial da Ford ao Stewart, além de serem bastante mais endinheirados que a equipa do Rob)
Para os endinheirados, há uma magnífica miniatura do Lotus 49B Ford do Siffert datado de 1968, em escala 1/18 da Exoto.
http://www.marksf1models.co.uk/exoto/lotus/49/gpc97004med.jpg
Já vi em slot também o de 69, com as asas estilo “rotor de helicóptero”
Engraçado também na altura a presença da BRM. Ter uma equipa praticamente privada (embora endinheirada) construir carros e motores, aqueles V12 magnificos parece uma loucura completa dita hoje em dia.
Destaque o P160 foi um dos mais bem sucedidos carros da marca pelas vitórias alcançadas em Spa por Rodriguez na Bèlgica 70 e Siffert em 71 a par do triunfo (quase esquecido) de Peter Gethin no “slipstreaming” de Monza.
A vitória de 71 em Spa foi um grande tónico para uma equipa afectada pela perda de Rodriguez naquele evento insignificante da Interseries alemã, quando o seu Ferrari 512 privado, propriedade do piloto Herbert Muller foi empurrado contra o rail e incendiou-se em Norisring.
Eram tempos em que corria-se a sério e também se corriam riscos a sério. Ah miudos mimados de hoje em dia.
Li algures que o acidente que vitimou Siffert foi causado por um toque na largada da race of champions, o qual danificou a suspensão do BRM, que apenas cedeu mais tarde e a alta velocidade.
Havia um anuário em que Fittipaldi contava que passou por ele e Siffert estava vivo, fazendo sinal “OK” antes de o carro explodir em chamas, mas não arranjei mais fontes que o confirmassem.
Mais uma vez parabéns pelo magnífico artigo.
Abraço
Queres mais imagens antigas? Então toma lá…
http://copabrasil.blogspot.com/2009/02/jo-siffert-live-fast-die-young.html
As vitórias em Spa foram ‘ao contrário’: Siffert/Redman ganharam em 70 (Rodriguez/Kinnunen desistiram à 44ª volta), a tal do famoso ‘mano-a-mano’ em Eau Rouge e no mesmo ano em que ganharam também a mítica Targa Florio; e Rodriguez/Oliver ganharam em 71, com Siffert (que fez ‘parelha’ com Derek Bell), apesar de um forcing final, a não conseguir alcançar o mexicano. A prova de 71 disputou-se em Maio e Rodriguez morreria em Julho.
Poderá ter sido esse toque inicial que afectou a suspensão do BRM, mas não há certezas e ninguém da BRM o confirmou alguma vez (pelo menos a acreditar no que encontrei na net). De facto, afirma-se que ele, não fosse a fogo (e a inalação do fumo, que terá sido de facto a causa da morte), teria saído dali apenas com Obrigado e Abraço.
(…) teria saído dali apenas com uma perna partida. Desconhecia esse episódio do Fittipaldi, mas também ainda não li com profundidade o que consegui recolher na net. Estará no livro do Jacques Deschenaux? Obrigado e Abraço.
Pelo iPhone consigo aceder , ver o comentário do milac e comentar.
Vê lá se aparece
Como se pode ler,já ia com 40 corridas disputadas em diferentes disciplinas.
Eram pilotos de outra têmpera,sempre disponíveis para o desporto que amavam.
Ainda ontem coloquei no AS um tópico a elogiar a disponibilidade e o talento dos pilotos do antigamente.