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In Memoriam: Jo Bonnier

11 Jun 2010 // Vitor Ribeiro // 6 Comentários
3ª Parte de 4 artigos no Dossier In Memoriam

Joakim Bonnier, 31/01/1930 - 11/06/1972.

As imagens são quase espectrais, sombras indefinidas lembrando um sonho, ou um pesadelo, a preto-e-branco.

Vê-se uma espessa coluna de fumo evolver-se no ar - e é quase como se sentíssemos o cheiro acre a queimado - da gasolina, da borracha, do metal retorcido.

Há um piloto que encosta o carro à berma e corre como que impelido pela urgência de negar os seus piores pressentimentos. Em off, a sua voz explica-nos e ajuda-nos a perceber a tragédia que aquelas imagens anunciam: "Surpreendentemente, o pequeno Lola de Jo Bonnier havia liderado a corrida, mas durante a noite uma série de problemas obrigaram-no a perder tempo nas boxes. Devem tê-los resolvido entretanto, pois de manhãzinha já ele estava de volta à pista, de prego a fundo, em perseguição dos Matra. Passou-me no final da recta de Mulsanne, eram cerca das 8 horas da manhã. E eu acelerei atrás dele, logo depois da curva de Mulsanne, assim que nos fomos aproximando de um Ferrari 'sedan'. Seguíamos em direcção às curvas de Arnage e Indianapolis, a cerca de 280 km/h. À entrada da segunda curva, vi Jo puxar o carro à direita para ultrapassar o Ferrari, mas no último momento parece ter-se apercebido de que cometera um erro...

Passei por entre os destroços e encostei o carro à berma da pista. Não se conseguia ver o carro de Jo em lado nenhum, mas o Ferrari ardia furiosamente encostado aos rails. A primeira coisa em que pensei foi que o carro podia explodir a qualquer momento e eu tinha de tirar o piloto de dentro dele. Mas quando abri a porta, e para minha completa surpresa, não estava ninguém dentro do carro. Depois vi o piloto do outro lado da pista, por trás do rail. A última vez que tinha visto o carro de Jo, ele rodava no ar como um helicóptero, mas agora só via os destroços entre as árvores - e o estômago começou-se-me a apertar...

É triste perdermos um amigo. E no domingo de manhã perdemos o Jo."

É assim que Vic Elford, que na altura do acidente conduzia o Alfa Romeo 33 TT3 #25, conta o que viu no documentário "The Speed Merchants", concluindo: "Entrei no carro e regressei às boxes, onde dei o lugar ao Helmut [Marko]. Cerca de meia-hora depois ficamos sem caixa de velocidades e tivemos de abandonar a corrida. Acho que foi a primeira vez na minha carreira que fiquei satisfeito por o meu carro se ter partido."

24 Horas de Le Mans de 1972 - Bonnier ao volante do Lola T280 #8.

Faz hoje 38 anos. Foi na manhã de 11 de Junho de 1972, corria-se a 40ª edição das 24 Horas de Le Mans, que o Lola T280 Cosworth DFV #27 se desfez de encontro aos pinheiros após colidir com o Ferrari 365 GT4 #35 da Scuderia Filipinetti, conduzido na altura pelo suíço Florian Vetsch, provocando a morte a Joakim 'Jo' Bonnier.

Nascido a 31 de Janeiro de 1930, em Djurgarden, nos arredores da capital sueca, no seio de uma família  que havia feito fortuna em negócios ligados à edição livreira e imprensa escrita, 'Jocke', 'JoBo' ou simplesmente 'Jo' iniciou-se no motociclismo aos 17 anos de idade, enquanto prosseguia os estudos que o levariam a frequentar um curso de línguas em Oxford, abandonado ao fim do primeiro ano.

Em 1956 estreou-se na F1, em Monza, no GP de Itália, ao volante de um Maserati 250F, tendo disputado ao longo das 15 temporadas seguintes 104 GPs. Presente nos dois GPs de Portugal que se disputaram em 1959 e '60, não logrou terminar nenhum deles.

Se em pista o seu desempenho não logrou alcançar resultados de destaque, à excepção da vitória em Zandvoort, no GP da Holanda de 1959, ao volante de um BRM P25 - única vitória e também única vez que subiu ao pódio na disciplina - fora dela destacou-se pela acção em prol da segurança, tendo sido um dos principais animadores da GPDA (Grand Prix Drivers Association).

Mas como era habitual na época, desde cedo a sua carreira inclui outras disciplinas para além da F1 (e com melhores resultados), nomeadamente em turismos e sportscars, muitas das vezes com a sua Ecurie Bonnier, sediada na Suíça, para onde se mudou muito antes do país dos helvéticos se tornar o refúgio ideal para quem procura um sistema fiscal mais 'simpático'.

A sua primeira vitória internacional foi em 1956, no GP de Berlim disputado em Avus, ao volante de um Alfa Romeo Giulietta Veloce da classe GT1.3. Em 1959, partilhando o volante de um Porsche 718 RSK oficial com o alemão Wolfgang von Trips, conquista um 3º e um 2º lugares, respectivamente, e a vitória na classe S2.0 nas 12 Horas de Sebring e no Tourist Trophy. No mesmo ano, faz a volta mais rápida na Targa Florio, antes de desistir, ao volante do mesmo carro. Em 1960, ainda com Porsche 718 oficial, mas já na versão RS60,  é terceiro da geral e vence a classe S1.6 nos 1000 km Buenos Aires, com o inglês Graham Hill,  e vence, com o alemão Hans Herrmann, a Targa Florio, onde obtém de novo a volta mais rápida.  Ainda nesse ano, conquista um segundo lugar geral e a vitória na classe S2.0 nos 1000 km Nürburgring, com o belga Olivier Gendebien.

Segundo em 1961, com o americano Dan Gurney e ao volante de um 718 RS 61 oficial, e terceiro em 1962, com o italiano Nino Vaccarella e ao volante de um 718 GTR da Scuderia SSS Republica di Venezia, volta a vencer a Targa Florio em 1963, agora com o italiano Carlo Maria Abate e ao volante de um 718 GTR oficial, e é quarto em 1965, com Graham Hill e um Porsche 904/8 oficial.

Nas 12 Horas de Sebring, 1962 é o seu ano, vencendo com o belga Lucien Bianchi ao volante de um Ferrari 250 TRI/61 da Scuderia SSS Republica di Venezia, enquanto nas 24 Horas de Le Mans obtém o seu melhor resultado em 1964 - um segundo lugar, com Graham Hill ao volante de um Ferrari 330 P da Maranello Concessionaires - naquela que foi igualmente a única vez em 14 participações que logrou terminar a clássica francesa. Ainda em 64, e sempre com Graham Hill (piloto com o qual mais vezes - 16 - partilhou o volante), vence as 12 Horas de Reims, com um Ferrari 250 LM e os 1000 Km de Paris, com um Ferrari 330 P.

De volta à Porsche, vence em 1965 a classe P2.0 e é terceiro da geral nos 1000 km Nürburgring, partilhando um Porsche 904/8 com o austríaco Jochen Rindt, mas no ano seguinte vence à geral, agora com um Chaparral 2D Chevrolet e Phil Hill como companheiro.

3 de Junho de 1966 - Bonnier vence em Nürburgring com o Chaparral 2D.

Só três anos depois, em 1969, regressa aos lugares de destaque ao conquistar o segundo lugar nos 1000 km Zeltweg, com um Lola T70 Mk.3B GT Chevrolet da Scuderia Filipinetti, tendo como companheiro o suíço Herbert Müller Scuderia. E finalmente, no ano seguinte, conquista o seu único título da carreira, o Europeu de Sport  2.0l, com quatro vitórias (Salzburgring, Anderstorp, Hockenheim e Citta di Enna/Pergusa)  e dois segundos lugares (Paul Ricard e Spa) em nove provas, sempre ao volante de um Lola T210 Cosworth FVC da sua própria equipa, a Ecurie Bonnier.

Ironia do destino, a sua última vitória seria conquistada precisamente em Le Mans, na preparatória prova de 4 Horas extra-campeonato, com Hughes de Fierlandt e o Lola T280, três meses antes da fatídica corrida na qual a Ecurie Bonnier contava no seu segundo carro com um piloto português - Mário Araújo 'Nicha' Cabral - o qual, de facto, supostamente devido a um desentendimento com o piloto sueco e patrão da equipa quanto à sequência de turnos, nunca se terá chegado a sentar ao volante.

4 de Junho de 1972 - Bonnier em Dijon, com o Lola T290 da Ecurie Bonnier (inscrito pela Ecurie Filipinetti)

Refira-se a esse propósito que, para além de Le Mans, 'Nicha' Cabral ainda faria nesse ano Vila Real, os 500 Km de Nürburgring e as 6 Horas de Nova Lisboa (actual Huambo) com a Ecurie Bonnier, já depois da morte do piloto sueco, e no ano seguinte a equipa suíça voltaria a ficar ligada a Portugal através da parceria com um dos mais importantes e ambiciosos projectos competitivos nacionais, o Team BIP.

Esta parceria permitira à equipa portuguesa partir à conquista não só do Nacional de Velocidade, em '72, como de algumas provas do Mundial de Sport-Protótipos e do Europeu de Sport 2 Litros. Mas é já sem o fundador da equipa, que Georges Jost, o team-manager, Heini Mader, o preparador de motores, e os mecânicos da Ecurie Bonnier ficariam encarregues da preparação dos dois pequenos protótipos pintados com as cores vermelha e branca do Banco Intercontinental Português, com que Carlos Gaspar, Carlos Santos, Jorge Pinhol,  Santos Mendonça e 'Nicha' Cabral iriam escrever algumas das mais importantes páginas da história do desporto automóvel nacional.

6 comentários até ao momento...
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  1. afrancis diz:

    Um pormenor apenas para acrescentar a este excelente artigo de fundo, uma homenagem merecida a uma das figuras mais importantes dos carros de sport dos anos 60 e princípio de setenta, que a vitória à geral em Nurburgring em 1966 foi com Phil Hill e não Graham Hill que no entanto correu também muito frequentemente em carros de sport além da formula 1. Na Formula 1 a sua única mas sofrida vitória foi em 1959 na Holanda.

    A edição de Junho de 1972 foi a primeira edição em muitos anos que a RTP não transmitiu a corrida. Desde 1966 que a nossa televisão (na mesma altura do célebre mundial de futebol de 66) transmitia sempre imagens da partida e chegada da corrida, com uma interrupção (creio eu…) em 68, ano de grandes convulsões e tragédias enormes em todo o mundo. Mas o campeonato de 1972 foi muito fraco em termos competitivos dado o domínio da Ferrari e a Lola fazia com a Alfa Romeu a figura de David…

    De Le Mans 1972 poucas notícias se ouviram pela rádio e nenhumas pela RTP. Com a não comparência da Ferrari ficou apenas a Matra a dominar com equipas muito fortes e carros muito bem preparados que vieram a revelar-se imbatíveis. No domingo de manhã foi estranha a sensação quando se soube pela rádio e TV da morte de Jo Bonnier. Era um piloto que já não tinha a rapidez de outros anos depois da vitória na Holanda em 1959 e quando no inicio dos anos sessenta fizera parte da equipa de formula 1 e 2 da Porsche e obtivera alguns resultados de relevo. No entanto com a sua equipa dos queijos Switzerland parecia ter ganho um novo ânimo e os Lola pareciam andar bem apesar dos muitos problemas e da intransponibilidade dos Ferrari em todas as corridas do campeonato mundial.

    Parabéns pelo artigo. Homenagem merecida.

  2. wOwtaku diz:

    Foi bom recordar — pelos piores motivos — este “episódio” da História Desportiva Automóvel.

    Um dos melhores artigos (para mim) deste site até hoje. Parabéns!

  3. Miguel Lacerda diz:

    Jo Bonnier, que tive o prazer de conhecer pessoalmente, foi um dos tais pilotos que já não estão em vias de extinção,porque simplesmente já não existem.
    Deixo a minha homenagem a um Senhor, por quem nutria admiração e simpatia.

  4. Greg G diz:

    Muito bom este artigo assinalando esta data de má memória e que retirou ao nosso convívio o valoroso piloto que foi JO BONNIER que por tudo que fez e protagonizou está de facto ligado a uma das mais brilhantes páginas do automobilismo de competição em Portugal.

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