História

16 de Março de 2011

In Memoriam: Bob Wollek

Dossier: In Memoriam — Parte 5 / 5

Bob Wollek, 04-11-1943/16-03-2001. IMAGEM: © Porsche AG

As 12 de Sebring de 2001 deveriam ter sido apenas mais uma (quiçá a última, aceite que tinha sido o convite da Porsche para se tornar embaixador da marca) na já longa carreira do piloto francês Robert "Brillant Bob" Wollek. Quis o destino que assim não fosse, e o Porsche 996 GT3-RS #30 da Peterson Motorsports, que deveria partilhar com Johnny Mowlem e Michael Peterson nessa edição da clássica prova americana já não sairia para a pista no dia da corrida, depois de conhecida a morte do já veterano piloto em sequência do atropelamento de fora vítima quando se deslocava de bicicleta do circuito para o hotel, como muitas vezes fazia, após mais uma sessão de treinos.

Nascido a 4 de Novembro de 1943, em Estrasburgo, Wollek terá iniciado a sua carreira nos automóveis mais por brincadeira que propriamente por uma qualquer apelo de vocação, pois ainda estudante universitário, e apesar da ligação familiar aos automóveis (o seu pai era concessionário da Mercedes naquela cidade francesa), tudo lhe parecia mais encaminhado para uma brilhante carreira no esqui.

As três medalhas de ouro e uma de prata conquistadas nas Universíadas de Inverno de 1966, em Sestriere, e a de prata em Innsbruck, logo no início de 1968, em diferentes variantes, permitiam-lhe sonhar com uma boa presença nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1968. Um acidente ocorrido durante a preparação para o evento, no entanto, afasta-lo-ia definitivamente das pistas de neve, que trocaria então pelas de asfalto.

Em 1971, Com um Citroen DS oficial, no rali Ronde de Chamonix. IMAGEM: © Phicanam (fonte: www.forum-auto.com)

Perdeu-se então um esquiador de mérito mas ganhou-se um piloto que se tornaria num dos melhores, nos sporstcars e na endurance, ao longo das três últimas décadas do séc. XX, apesar de nunca ter atingido o estrelato ou a notoriedade de outros seus contemporâneos.

Seria no entanto nos ralis que daria os primeiros passos no automobilismo de competição, ainda em 1967, ao volante de um Renault 8 Gordini, mas a segundo lugar no Volant Shell, no circuito Bugatti, em Le Mans, e a conquista do Troféu Alpine Le Mans acabariam por determinar o rumo que a sua carreira iria seguir nos automóveis de corrida, pese embora vir a manter participações ocasionais em ralis.

E se bem que, como muitos outros, também tenha experimentado os monolugares, tendo disputado os campeonatos francês de F3, em 1969 e ‘70, e europeu de F2, em ‘71 e ‘72, seria aos sporstcars que Wollek deixaria o seu nome indelevelmente ligado.

Depois da estreia em 1968, Wollek regressaria no ano seguinte com o Alpine A210 Renault oficial, ao lado de Jean-Claude Killy, outro ás do esqui que havia sido seu colega na selecção francesa da modalidade. IMAGEM: © autor desconhecido (fonte: www.forum-auto.com)

A primeira das suas 30 participações nas 24 Horas de Le Mans (28 das quais consecutivas, entre 1973 e 2000), que fazem de Wollek o segundo piloto com mais participações na prova, apenas superado por Henri Pescarolo, ocorreu ainda em 1968, como prémio pela vitória no referido troféu, ao volante precisamente de um Alpine A210 Renault e na companhia de Christian Ethuin, tendo-se saldado por um 11º lugar final (2º entre os Sport-Proto 1151/1300), a umas distantes 44 voltas do Ford GT 40 de Pedro Rodriguez e Lucien Bianchi.

Mas Brillant Bob, no entanto, certamente teria trocado algumas dessas participações por uma única vitória que fosse em La Sarthe, já que por uma outra razão acabou sempre por se ver arredado do mais que merecido lugar mais alto do pódio, tendo que se contentar com quatro 2ºs lugares (1978, com Jürgen Barth e Jacky Ickx, ao volante do Porsche 936/78 #6 da Martini Racing Porsche System; 1995, com Mario Andretti e Eric Hélary, no Courage C34 Porsche #13 da Courage Competition, 1º na classe LMP1; 1996, com Hans Stuck e Thierry Boutsen, no Porsche 911 GT1 #25 da Porsche AG, 1º na classe GT1; e 1998, com Jörg Müller e Uwe Alzen, no Porsche 911 GT1 98 #25 da Porsche AG) e dois 3ºs lugares (1989, com Hans Stuck, no Porsche 962 C #9 da Joest Racing; e 1991, com Kenny Acheson e Teo Fabi, no Jaguar XJR-12 da Silk Cut Jaguar).

Em 1989, na sua 3ª vitória 24 Horas de Daytona, com o 962 IMSA da Busby Racing que partilhou com John Andretti e Derek Bell. IMAGEM: © Mark Windecker (fonte: www.forum-auto.com)

Mas se os deuses de La Sarthe nada quiseram com Wollek não foi por isso que este deixou de coleccionar vitórias um pouco por todo o lado por onde andou. Das mais de 70 conquistadas entre Março de 71, em Albi (com um Alfa Romeo T33/2), numa prova a contar para o Campeonato Francês de Circuitos, e as 3 Horas de Zhuhai, em 1994 (com um Porsche 911 Turbo S LM), a contar para o International GT Endurance Series, o destaque vai, obviamente, para as 4 conquistadas em Daytona, na clássica prova de 24 Horas (1983, 85, 89 e 91).

As 12 h. de Sebring de 1985, e mais umas quantas também a contar para o campeonato IMSA, bem como as 6 h. de Hockenheim em 1977 (Porsche 935 K2), as 6 h. de Dijon, Misano e Vallelunga em 1978 (Porsche 935), as 6 h. de Mugello, Silverstone e Nürburgring em 1979 (ainda com o Porsche 935), os 1000 Km de Monza 1983 (Porsche 956), Spa 1985 (Lancia LC2) e Brands Hatch 1986 (Porsche 956), e os 480 km Dijon 1989 (Porsche 962) completam um ramalhete que ainda inclui diversas vitórias no antigo Deutsche Rennsport Meisterschaft (DRM), e ainda mais de 70 presenças no segundo lugar do pódio e mais de 50 no terceiro!

Em Wunstorf, a caminho do 2º lugar na 6ª ronda do DRM 1982, com o Porsche 936/80 da Joest Racing. IMAGEM: © Le Mans Models/RSC (fonte: www.forum-auto.com)

Foi aliás no DRM que garantiu ainda (em 1982 e 83, com um Porsche 956 da Joest) dois dos títulos que lhe adornam um palmarés onde sobressaem os sete conquistados na Porsche Cup – 1976, 77, 78, 81, 82, 83 e 89 – que ainda hoje constituem recorde absoluto daquela competição monomarca.

E monomarca é como (quase) se lhe poderia alcunhar a carreira, tantos foram os modelos produzidos pela marca de Estugarda ao longo das décadas de 70, 80 e 90 do século passado que lhe passaram pelas mãos  - incluindo as famosas versões preparadas pelos irmãos Erwin e Manfred Kremer: 908/3, 911, 911 Carrera RSR, 911 GT1, 911 GT1-98, 911 GT2, 911 GT2-evo, 911 S, 911 Turbo S LM, 917/K81 (a famosa última versão competitiva do mítico 917 preparada pelos irmãos Kremer), 934, 935, 935 K2, 935 K3, 935 K4, 935-77, 935/78-81, 935J, 935L, 936, 936C, 956, 962, 993 Bi-turbo, 993 Carrera RSR, 996 GT3-R e 996 GT3-RS - com  especial destaque para os 962 e 935,  aqueles com os quais mais correu ao longo da sua carreira

Em Daytona, em 1998, com o Ferrari 333SP da Scandia Engineering, que Yannick Dalmas havia colocado na 'pole-position' - uma fuga de óleo impedi-lo-ia de ir além da 20ª posição. IMAGEM: © Kevin Terry (fonte: www.forum-auto.com)

Mas se foi ao volante de um Porsche que conquistou a maior parte dos seus êxitos (e fez em mais de 4/5 de todas as corridas em participou), é também de realçar que Bob Wollek esteve ainda associado aos programas de endurance da Lancia e da Jaguar, nos anos 80 e princípios doa anos 90, respectivamente, tendo ainda tido a oportunidade de conquistar um 2º lugar nas 24 Horas de Daytona, em 1996, ao volante do último sport-protótipo da Ferrari, o 333SP.

Wollek nunca terá corrido em Portugal, mas chegou a estar inscrito no 20º Circuito Internacional de Vila Real, em 1973, com um Chevron B23, sem que no entanto tenha comparecido à prova (ver aqui), mas teve oportunidade de partilhar o volante com um português, o então jovem Pedro Lamy, em 1997, num Porsche 911 GT1 da Schubel, nas 4 h. de Hockenheim (6º lugar) e de Silverstone (7º lugar).

Embora reconhecido como simpático, Wollek - de quem alguém disse só se ter apercebido da sua verdadeira rapidez ao olhar para as tabelas de tempos, já que a sua condução não seria das mais ‘vistosas’ – deixou para a história episódios onde revelou, no mínimo, ser pouco ‘politicamente correcto’, como o que ficou célebre por, no que devia ser o final do seu primeiro turno durante as 24 Horas de Daytona de 1983, se ter recusado passar o volante a A.J.Foyt, pouco satisfeito por lhe terem colocado um ‘estranho’, que não só nunca tinha posto as mãos num 935 como ainda por mais nunca conduzira antes um qualquer Porsche que fosse. “Ele não conhece o carro, não conhece a chuva, não conhece nada. Trabalhamos muito para recuperar as 12 voltas de atraso e agora é o sr. A.J. Foyt que conduz o carro. Quem diabo é esse A.J. Foyt?”, terá dito perante um repórter de TV. Claro que o americano não tardou a mostrar-lhe ‘quem era’, contribuindo decisivamente para a primeira vitória absoluta de Wollek em Daytona e primeira das duas em que os dois partilharam a vitória na prova…

Numa das suas últimas corridas, as 24 Horas de Daytona de 2001, com o Lola B2K10 Porsche #38 da Champion Racing, desistiu à 8ª hora com problemas de motor, depois de largar da 4ª posição. IMAGEM: © Thimothy Crete (fonte: www.forum-auto.com)

E se foi com os carros de competição que desafiou a morte, foi - numa das muitas terríveis ironias de que a vida é pródiga - com a inseparável bicicleta com que se preparava fisicamente para essas provas que acabou por a encontrar, estupidamente. Em Sebring, na Highway 98, faz hoje 10 anos.

POR Vitor Ribeiro

6 Comentários


6 comentários até ao momento...
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  1. Ricardo diz:

    Nessa corrida, A. J. Foyt perdia cerca de 20 segundos por volta em relacção a Wolleck e Ballot Lena.

    No final os jornais anunciavam… “O Triunfo de Foyt em Daytona!”.

    Wolleck que não tinha papas na língua, disse simplesmente o que pensava “do Deus das corridas Americanas” e conseguiu criar um mini-escândalo nos EUA que só não foi pior porque os media abafaram a realidade.

  2. Wildcat diz:

    Grande homenagem a um piloto a que os da minha geração não podem ficar indiferentes.

    • Greg G diz:

      Bob Wollek, sem dúvida um notável das corridas de resistência, pena nunca ter conseguido ganhar as 24 horas de le Mans. Aquele episódio com Foyt está soberbo.
      Parabéns pelo excelente artigo
      Melhores cumprimentos

  3. Paulo Pinha diz:

    Rectifico dois erros.

    Bob Wollek perdeu a vida na semana que antecedeu as 12 horas de Sebring de 2001 e não as 24 Horas de Daytona (duas provas clássicas disputadas no estado norte-americano da Florida, num intervalo de cerca de 45 dias). Henri tem como apelido Pescarolo e não Pescaloro.

  4. Paulo Pinha diz:

    Bob Wollek foi um grande “monsieur”. Por detrás daquele ar taciturno, escondia-se uma pessoa generosa e afável, e um grande piloto. Lembro-me de ter lido há uns atrás uma carta de um leitor do semanário italiano Autosprint, que confirmava a ideia que eu tinha do célebre piloto francês. Esse leitor italiano cruzou-se com Bob Wollek no “paddock” de Monza, depois do final dos treinos oficiais dos 1000 Km, pontuáveis para o campeonato do Mundo de Grupo C (nos anos 80 do século XX), e perguntou-lhe se sabia onde estava o Henri Pescaloro, que ainda corria. Solícito, Bob Wollek respondeu: “acabei de o ver, há minutos. Não sei se ele ainda está lá, mas posso acompanhá-lo”. Disse e cumpriu. Bob Wollek foi um piloto notável, não só nas provas de Resistência, reservadas a GT e sport-protótipos, como nos monolugares. Por falta de apoios financeiros nunca chegou à Fórmula 1, mas “deu nas vistas” na Fórmula 2, nos princípios dos anos 70 do século XX, ao volante de um Rondel, construído e inscrito no campeonato europeu por Ron Dennis.
    Apaixonado pelo ciclismo, por ironia do destino, morreu atropelado por um condutor idoso (com mais de 70 anos), que conduzia uma caravana e tinha problemas de visão. Bob Wollek fazia o seu exercício físico diário com a bicicleta, na semana das 24 horas de Daytona que ele já tinha vencido e onde ia competir.

  5. carlos videira diz:

    Foi atropelado por uma autocaravana conduzida por um casal de idosos ! pouca sorte!

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