24H Le Mans Entrevista Notícias
Henri Pescarolo em exclusivo ao lemansportugal: “Não renuncio a reconstruir a equipa”
Não é à toa que se acumulam mais de 40 anos de participações praticamente ininterruptas naquela que é por muitos considerada a maior corrido mundo, as 24 Horas de Le Mans. Henri Pescarolo consegui-o, o que faz dele um homem com um lugar muito especial na história não só da prova mas do automobilismo desportivo de uma forma geral.
Recordista de presenças na qualidade de piloto - nada mais nada menos que 33, entre 1966 e 1999, tendo ganho 4, três das quais consecutivas - Pescarolo iniciaria o novo século como chefe da sua própria equipa, não tardando em tornar-se também construtor.
Campeã do LMS em 2005 e 2006, vice-campeã em 2007 e 2009, e segunda classificada em Le Mans em 2007 e 2008, a Pescarolo Sport inicia o ano de 2009 ainda com algumas esperanças e ambições, inscrevendo dois carros (num dos quais João Barbosa fez equipa com Bruce Jouanny) em Barcelona, Spa e Le Mans. Mas a destruição do Peugeot 908 HDI com que Pescarolo pretendia, ajudando a Peugeot, fazer frente à Audi, parece ter sido o canto do cisne da equipa que, a partir daí, mergulhada em dívidas, vê sua crise financeira agravar-se. Incapaz de colocar o segundo carro em pista, a partir de Le Mans (deixando Barbosa apeado para o resto da temporada, no LMS), a Pescarolo concentra esforços no seu primeiro carro, mas as desistências em Nürburgring e Silverstone (pouco habituais num protótipo que fez da fioabilidade uma imagem de marca) impedem a conquista de novo título. Sem que o novo dono, Jean Py, através da sua empresa, a Sora Composites (uma grande empresa francesa produtora de materiais compósitos) pareça constituir solução mas antes parte do problema, a Pescarolo desloca-se no final desse ano ao Japão, sob a designação de Sora Racing, para a disputa da única ronda do Asian Le Mans Series, naquela que constitui a sua última vitória e também última aparição da equipa em pista.
Vendida a equipa por si fundada e que ostenta o seu nome, Henri Pescarolo vê-se relegado a um mero papel subalterno de director desportivo, sem qualquer competência na gestão financeira - uma situação estranha que rapidamente haveria de resvalar para a ruptura. De facto, confirmada a desistência da Pescarolo Sport da participação nas 24 Horas de Le Mans, prova para a qual detinha dois convites, Henri Pescarolo bate com a porta acusando Jean Py, o novo dono, de ser incapaz de gerir os destinos da equipa e encontrar o financiamento necessário para colocar a estrutura em funcionamento e os carros em pista.
"Muito, muito, muito mal", foi assim que o Hugo o encontrou em Le Mans, na sexta-feira antes da edição deste ano da clássica francesa de endurance, aproveitando a oportunidade para uma curta conversa. "A minha equipa não anda por aí, os carros estão na oficina e eu estou muito desiludido, porque é uma situação estúpida. O dono da equipa é absolutamente incapaz de colocar a equipa a funcionar, e eu ocupava apenas as funções de director desportivo, não tinha competências na parte financeira. A equipa não tem dinheiro, já há algum tempo, mas temos agora um investidor que não quer investir… É para mim um absurdo, é uma dor que carrego", afirmou Pescarolo.
Como se chegou à presente situação é algo talvez bem mais complexo do que tem sido revelado, mas para Pescarolo são duas as principais razões responsáveis pela situação financeira da equipa, que se tinha vindo a agravar de ano para ano. "Quando eu decidi construir ao carro novo, em 2007", explicou Pescarolo, "ele acabou por ser mais caro do que eu estava à espera; mas ao mesmo tempo, os regulamentos, relativamente aos diesel, foram tão maus para nós que em Le Mans só poderíamos aspirar a ficar atrás de 7 carros a diesel, e por isso todos os meus patrocinadores foram embora, porque não estavam interessados nessa situação".
E continua: "Eu não quero lutar para ser o melhor a gasolina, quero lutar pela vitória, com os diesel. Quando a Audi chegou, eu lutei com os Audi e conquistei alguns pódios. Por isso não há nenhuma razão para que não façamos o mesmo agora, pois estamos mais fortes, temos mais pessoal, designers… Ainda sinto que a equipa é capaz de lutar com os diesel, mas nestas condições [regulamentares] não. E foi isso que ‘matou’ a minha equipa. Tive então a necessidade de encontrar um investidor que investisse na nossa equipa. Ele comprou a equipa, e no primeiro ano eu continuei a gerir a equipa, sem qualquer problema. Mas com a chegada da crise internacional, era suposto o sr. Jean Py, o novo dono da equipa, dono de uma grande companhia de materiais compósitos francesa, ser o homem certo para nos ajudar. Era do que precisávamos. Mas infelizmente não foi aquilo que eu estava espera. Ele tem feito tudo da forma errada,mostrando-se completamente incapaz de gerir e manter a equipa em funcionamento. Nem investe nem é capaz de encontrar patrocinadores."
Durante a semana das 24 Horas houve um grupo de fãs que lançou a ideia de organizar uma manifestação popular de apoio à equipa, pedindo a quem se quisesse manifestar para o fazer envergando t-shirts e bandeiras verdes e bandeiras. Para Pescarolo, essa manifestação de carinho "é natural, porque a equipa é muito próxima de La Sarthe - a cor tradicional do meu capacete e da minha equipa é o verde, que é também a cor de La Sarthe, e a equipa está sediada nesta área." Mas muito embora Pescarolo reconheça que "essas manifestações podem ser importantes, para convencer patrocinadores", falta saber se o número de manifestantes terá sido suficientemente significativo para despertar a atenção de eventuais patrocinadores e justificar, por si só, qualquer investimento.
Ainda sem revelar mais que meras declarações de intenção de regressar já em 2011, de que o lançamento de um novo site é um bom exemplo, o homem que ajudou a levar os Matra M670 à glória em Le Mans por três vezes consecutivas revela, para já, estar apenas "a trabalhar nisso", reconhecendo que, em primeiro lugar, "preciso de saber o que Jean Py irá fazer com a equipa, porque ele ainda é dono da equipa, e depois disso, o problema será arranjar o montante de investimento necessário para fazermos as coisas de forma séria, pois não quero recomeçar de qualquer forma."
Ora, caso consiga reunir condições para um regresso em 2011, Pescarolo terá de enfrentar os novos desafios colocados pelas linhas gerais do que será o regulamento das 24 Horas a vigorar entre 2011 e 2013 (e que deverá ser seguido pelo LMS), o que para ele não constitui propriamente um problema, pois "qualquer solução deve ser boa se todos os carros tiverem as mesmas oportunidades, se houver equivalência".
"Não sou contra qualquer evolução ou revolução técnica", revela Pescarolo, "apenas quero os meus carros sejam velozes - porque Le Mans é [uma pista] rápida - e possam ter as mesmas oportunidades dos outros, qualquer que seja a motorização ou combustível. E senão as mesmas oportunidades, porque um grande construtor terá sempre alguma vantagem, pelo menos a mesma potência. E depois, que ganhe o melhor."

João Barbosa no Pescarolo 01 Judd durante as 24 Horas de Le Mans 2009. IMAGEM: AB/lemansportugal.com
E aquele que tem sido a voz mais crítica, ao longo dos últimos anos, da falta de equivalência entre os protótipos a diesel e a gasolina, com clara desvantagem para estes, não se exime a, uma vez mais, imputar responsabilidades ao ACO no que toca à gestão dos inevitáveis conflitos e confusões que poderão surgir com a multiplicidade de tipologias de motorização a que os novos regulamentos abrem as portas. "É de facto uma grande responsabilidade para o ACO, porque pode voltar a ‘matar’ algumas equipas", afirmou. " Construir um carro novo com um novo motor sabendo que esse carro ou essa solução está condenada a ser derrotada, é o fim dessa equipa… É uma grande responsabilidade. Eu não estou contra, porque isso até é bom para eles, terem diferentes tecnologias, mas é uma grande responsabilidade assegurar que todos tenham a mesma potência – e no fim que ganhe o melhor."
Questionado sobre o anúncio da realização, em 2011, da Taça Intercontinantal, que poderá constituir um primeiro passo para o regresso do antigo Campeonato do Mundo de Marcas, ou de Sport-protótipos, Pesacrolo mostrou-se particularmente favorável à ideia, aparentando mesmo algum entusiasmo. "Eu espero que sim, pois é o que venho a pedir ao ACO desde há muito tempo!", revela, acrescentando que que o regresso de um Campeonato do Mundo de Sport-protótipos paralelo ao Mundial de F1, "é o que as pessoas querem e eu há muito desejava", fazendo votos de que a presença de Jean Todt, recém eleito Presidente da FIA, no arranque das 24 Horas de Le Mans deste ano "permita acabar com a guerra" entre e o ACO e a FIA.
No entanto, quando confrontado com a possibilidade desse novo campeonato poder vir a ditaro fim dos actuais campeonatos 'regionais' (LMS, ALMS e Asian LMS) - como muitas vozes, sobretudo nos EUA, afirmam protestando contra o facto - Pescarolo mostra um curioso pragmatismo. "Claro que isso irá 'matar' o LMS, o LMS e o Asian LMS", reconhece, não escondendo que, em sua opinião, "é isso que é necessário: um novo campeonato, forte e com boa promoção - que é a única forma de ele sobreviver". Mas, e as pequenas equipas, sr. Pescarolo, não será difícil garantir boas grelhas sem elas? "Sim, será difícil", responde, "mas esse campeonato mundial também despertará maior interesse me todo o mundo", conclui...
Entretanto, já ontem, dia 17 de Junho, o casal Pescarolo fez-nos chegar às mãos um curto comunicado onde informava que, por decisão do tribunal, a sociedade Pescarolo Sport foi colocada sob administração judicial desde o passado dia 15 de Junho, dando-se assim inicio a um processo que irá permitir aferir a efectiva viabilidade económica da empresa ou, caso contrário, decretar a respectiva insolvência. Declinando uma vez mais qualquer responsabilidade administrativa e financeira na gestão da sociedade desde finais de 2008, Henri Pescarolo volta a acusar Jean Py, dono da Sora e actual detentor da totalidade da empresa, de "não ter mantido o nível de performance da equipa e, além do mais, ter suspendido o programa desportivo para 2010", sem que as dívidas tenham parado de aumentar.
No comunicado, Pescarolo revela ainda que intentou uma acção em tribunal contra Jean Py, por quebra de compromissos assumidos e prejuízos morais, mas mantém a intenção de regressar ao activo: "Não renunciei a reconstruir, sobre novas bases, um bom programa de Endurance, com os meus parceiros fieis e outros que convido a juntarem-se a mim. O encorajamento e as promessas de que fui alvo, de todo o lado, durante o fim-de-semana das 24 Horas, incitam-me a não desistir."
Falta saber como, havendo quem duvide da capacidade de Henri Pescarolo conseguir reerguer a sua equipa face a todo um processo de que nem todos os contornos são conhecidos... Mas esperemos que sim.
A Henri Pescarolo o nosso muito obrigado pela simpatia e disponibilidade.



A sentença de morte da Pescarolo, foi no ano de 2006, graças ao ridículo regulamento da ACO. Não existia a Sora e continuidade era comportável. O retorno dos investidores era viável/rentável…, até 2006. A sede de ganhar as 24H, o único sonho como construtor ainda não concretizado, não por culpa própria, já que em 2006 seria o justo e merecido vencedor em corrida, mas da audi em parceria com ACO, num projecto a dois, meses antes, crucificaram o mesmo assim como todos os que seguiam o regulamento, até à data. Como dizia, a sede de ganhar as 24H, sem que a parceria Audi/ACO desse mostras em vontade de alterar os regulamentos (a Peugeot limitou-se a seguir os passos…), apostou forte num risco muito elevado: O 908 HDI. Como não há seguradoras/seguros contra todos os riscos neste tipo de “valores”, correu mal…, acabou! Duvidas? Não me parece que haja, nem milagres. Culpar a Sora de um investimento sem retorno a curto, médio e muito menos a longo prazo, neste cenário os contornos contratuais do investidor, calculo que tenham havido clausulas que salvaguardassem o investidor e não o “investido”, sempre assim foi é não era aqui que iria mudar, daí, e do ponto de vista do accionista, mais uma vez refiro que neste cenário, é perfeitamente normal que assim fosse…
Bom, nada de estranho e diferente dos testemunhos que fiz em 2007, ainda por outras “bandas”, mas como optimista que sou, continuei na esperança que as coisa mudassem, tanto mais que os interesses da Audi no mercado dos States, com o Diesel, tinham fracassado nos objectivos… Mas não, mesmo assim o mesmo continuou…, no mesmo!
Disse em tempos, que se a Pescarolo se retirasse, eu faria o mesmo (mal menor)…, mas nunca pensei (embora os indicadores o denunciassem) que esse dia chegasse…
Voltem Pescarolo, Mazda 787B, e tantos outros cruelmente erradicados das corridas…
Fiquem bem
Não estarás a exagerar? Não te esqueças que nós só sabemos aquilo que transparece para a comunicação social. Há muita coisa que não sabemos e que, se divulgada, talvez tornasse as coisas menos ‘pretas-ou-brancas’. Talvez um bocadinho mais cinzentas…
Eu, se pensasse assim, já há muito anos teria deixado de ver corridas de automóveis.
Não, penso que não, o ponto de equilíbrio em ser extremista ou realista, pode ser discutível, mas uma coisa não sou: fundamentalista. Fazer “birra” por A, B ou C ter sido beneficiado ou prejudicado ao ponto de deixar de ver carros…, não. A paixão é bastante forte e saudável para superar essa questão. Aliás, foi exactamente nestes 4/5 anos mais contribulados, que vivi mais intensamente e de perto, esta modalidade e realidade, assistindo ás dificuldades dos independentes, como referes, que de garagem não têm nada. É fácil, o resultado é fruto do dinheiro e não de suor, como antigamente. A ASM (grande ASM), sem o Dtº. nem existia (nesta classe), por muita boa vontade e profissionalismo do Sr. Simões e restante equipa, que tão boas provas e testemunho disso têm dado em formação e nos campeonatos “GT/Ibéricos”. Não há lugar a coincidências. A Pescarolo (Sr. Henry) vende e prepara carros de corrida, não é dentista, nem sobrinho ou afilhado. Talvez se em vez de ter motores JUDD, tivesse TFSI’s, poderia ser diferente?! Isto foi só um aparte…Porquê que existem as classes LMP1,P2, GT1, GT2, WRC, IRC, PWRC, etc? Porque os regulamentos têm características próprias, no encontro da igualdade que as definem e diferenciam entre elas. Onde se encaixa o Diesel? Bom, como dizia, se não ganha, não dá nas “bistas”, não dá nas vistas, não vende, perde credibilidade…, fecha a porta. E o 908 HDI foi o selo das “finanças”…É mais uma empresa que fecha, juntamente com tantas outras, quer seja de meias ou pastilhas elásticas.
Caro Vítor, já tenho os bilhetes para o Allgarve, à mais de um mês, mesmo com a fraca afluência. Se estou triste, estou sim senhor e cansado destes episódios da Sora/Pesca/Py, mesmo estando convicto que o “sangue já estava derramado” e com a bola de neve já a rolar. Como apaixonado pela modalidade e pelo historial, gosto da Pescarolo. Era uma equipa de 1ªlinha que nos saboreou com aguerridas lutas pelos títulos e não daquelas que se andavam a arrastar e rastejar pelas provas, cujo o regulamento já não iria beliscar as suas modestas classificações e outras cujo a propulsão até era da Audi (Diesel/Gasolina), que naturalmente optaram pelo silencio…
Como investidor é um tipo de “ser” insensível a estas questões, não o vai fazer numa equipa perdedora e sem um projecto sustentável, seja o problema do regulamento ou o “coitado” do Sr. Henry (muitos dos investidores nem sabem se as rodas são redondas e querem lá saber…) e tambem triste porque ainda não vi ao vivo o R15 e parece que também não o vou ver por cá…, certo!
Fiquem bem…
Caro Zé, também nós – e eu em particular – temos uma especial simpatia pela Pescarolo, não sendo à toa (nem para escarafunchar nas suas ‘feridas’) que já o entrevistamos duas vezes. Aliás, tenho muito mais respeito por homens como Pescarolo, Rondeau, Courage, Spice, Lavaggi, Luchinni, que pelos grandes construtores, porque aqueles perseguem um sonho ou uma paixão, encaram as corridas como um fim em si mesmo, enquanto estes, sendo mais movidos pelo marketing, encaram mais as corridas como um meio (mesmo que estas lhes estejam nos genes) e vão e vêem conforme as suas conveniências, fazem birrar quando não lhes dão o que querem (alguns ‘pequenos’ também, mas com a diferença de que ninguém lhes liga nenhuma…), não se importam de passar por cima de toda a gente se for preciso (um mal que também afecta alguns ‘pequenos’ quando se julgam ou ascendem a ‘médios’ ou ‘grandes’…) e rodeiam as suas operações de secretismos exacerbados e a roçar a paranóia (quando o dinheiro envolvido é muito, todos os cuidados são poucos, pois o perigo ‘espreita’ em qualquer esquina, máquina fotográfica, bloco de apontamentos ou olhar atento…).
Mas é nestas alturas em que toda a gente parece bater no mesmo ‘ceguinho’ que me apetece ser politicamente incorrecto e fazer um pouco de advogado do diabo…
Talvez eu não tenha razão, não sei, mas há algumas questões que não consigo de deixar de me colocar. A primeira é de saber até que ponto é que o actual regulamento P1 é, de facto, culpado por situações como a da Pescarolo. Será mesmo? Coloquemos a questão de outro modo: quantos exemplos existem de pequenos construtores que conseguiram bater o pé aos grandes construtores, fosse qual fosse o regulamento? A vitória de Jean Rondeau, em 80, foi uma espécie de conto de fadas – que mesmo assim contou com o facto de não haver nenhum ‘grande’ directamente envolvido…
Colocando a mesma questão ainda de outro modo, olhemos com a atenção para a P2: o ‘problema’ da ASM levar 6 seg. por volta dos HPD também foi, ou é, culpa do regulamento? Bem, como os HPD não andam a diesel, não será ‘outro’ o problema? Não será antes um problema de escala, de dimensão? É que ter uma Honda (ou uma Porsche) a ‘aquecer-nos as costas’ não é exactamente a mesma coisa, sejamos claros, que ter uma Zytek (com o devido respeito por quem bem o merece). Como ter orçamentos quase ilimitados (seja para motores a diesel, seja para motores a gasolina ou a bosta de cavalo…) não é a mesma coisa que viver à míngua com os tostões contados e dependente de investidores que parecem não saber muito bem o que estão fazer. Por isso, e em minha opinião, o problema dos pescarolos desta vida será sempre o da sua dimensão – e é por isso que eles me (nos) fascinam: por que ousam, arriscam, lutam, tentam fazer das tripas coração, tentam fazer muito com pouco (dizia-me o Hugo que a Strakka estava carregadinha de sobresselentes novinhos em folha e reluzentes, enquanto a ASM tinha-os contados – e muitos de fabrico ‘caseiro’…)… são os nossos heróicos (mas miseráveis) ‘Davides’ que estamos sempre à espera consigam derrotar os horrendos (mas fantásticos) ‘Golias’… mesmo que sejam poucos os que irão a Le Mans ver os ‘Davides’ a correr, como reconhecia um dos ilustres (sem ironia) convidados do Eurosport Portugal relativamente a uma hipotética luta Pescarolo vs Oreca pela vitória (pois é: Audi vs Peugeot, como Porsche vs Ferrari, ou Ferrari vs Ford, ou Jaguar vs Porsche, ou Toyota vs Porsche, soa bem melhor, não soa? ‘Há que dizê-lo com toda a frontalidade’, como dizia o outro…).
Voltando ainda à ASM, não é por acaso que a equipa portuguesa, quando decidiu comprar um novo protótipo, ponderou a aquisição de um RS Spyder, mas desistiu (António Simões dixit, na entrevista que nos concedeu no Algarve, em 2009) face aos custos (é que a marca alemã não dá nada a ninguém de barato, e o apoio de fábrica é muito bonito mas… leia-se a série “Quanto custam as corridas de automóveis” para se perceber melhor) e se virou para a Zytek, uma empresa muito mais motivada em se associar a alguém com capacidade para lhes potenciar o ‘produto’ e ajudar a expandir o negócio (mas que terá de investir muito para superar a diferença para um construtor como a Honda/Acura/HPD).
Da mesma forma que muito dificilmente a Pescarolo poderá lutar, de igual para igual, com uma Audi ou uma Peugeot – seja qual for o regulamento. E quando a isso se junta uma gestão a merecer algumas dúvidas (o próprio Pescarolo reconhece, na entrevista, que o carro de 2007 lhe custou mais do que esperava…o que dá ideia de algum descontrolo, de alguém que parece querer dar um passo maior que a perna…além de algumas coisa que o Hugo ouviu em Le Mans e que, a serem verdade, ajudam a perceber melhor parte do ‘problema’), pouco haverá a fazer. Digo-o, repito, com muita pena.
Dizes ainda que o problema da Pescarolo começa em 2006, mas eu pergunto: não terá antes começado em 2003, quando a Peugeot lhes deixou de fornecer os motores para os Courage e se terá esfumado a possibilidade de a equipa se poder vir a tornar semi-oficial da grande marca francesa – ou, quiçá, vir a desempenhar um papel como o da Joest?… Não acredito que Pescarolo desdenhasse uma situação como essa, só que ela não aconteceu (se é que alguma vez poderia ter acontecido) e Pescarolo virou-se para outro lado. É claro que os diesel, depois, lhe vieram ‘estragar’ os planos, mas mesmo sem diesel, eu tenho dúvidas que a Pescarolo pudesse fazer mais que algumas cócegas aos ‘grandes’ ou um brilharete aqui e ali (de resto, Pescarolo não se queixou apenas do regulamento favorecer os diesel, mas também os ‘gasolinas’ da Aston Martin…).
Se calhar, o ideal, digo eu, talvez fosse não permitir (como?) o envolvimento directo de grandes construtores: estes deveriam limitar-se a produzir um determinado número de exemplares dos seus protótipos (chassis + motor) que depois teriam de ser distribuídos por equipas privadas – e depois, quem, entre elas, tivesse unhas que tocasse a guitarra… – ou a fornecer os seus motores para serem montados em chassis concebidos por pequenos construtores. Uma espécie de Grand-Am à europeia (mas depois lá volta a velha questão: quem iria a Le Mans ver uma luta Riley vs Dallara ou Coyote vs Doran – mesmo que, à boa maneira ianque, lhes chamássemos Porsche Riley ou Ford Dallara em vez de Riley Porsche ou Dallara Ford?…).
PS: espero que nos encontremos cá no Algarve…
Oh Sr. Victor. Nós estamos do mesmo lado…
O que nos une é esta paixão mesmo que na realidade, a distancia de conhecimentos seja abismal. As soluções para as questões colocadas, têm mais lógica e credibilidade vinda de “vocês”, para assim ser mais fácil, para quem pouco percebe, comentar, aplaudir ou até ter o atrevimento de criticar. Agora permite-me uma observação que não podes estar em desacordo e vais ficar com o mesmo dilema: O que custa é que realmente nunca iremos saber, nem nós, nem vocês, nem ninguém, qual o resultado se aquando da criação do regulamento (o tal…) para os Diesel, as condições para os motores turbo/comprimidos em termos de cilindrada e admissão de ar, fossem iguais (segundo o Sr. Henry, praticando das mesmas “benesses”, conseguiriam cerca de mais 50 a 100CV)… Nunca iremos saber! É uma duvida que tantos “foristas” afectos à gasolina (pessoalmente a que transmite mais emoções aos sentidos), sonhariam de ver desfeita e sem duvida que seria muito emocionante de avaliar. E também aqui a Pescarolo ganhou muito mais dimensão devido ao timing dos acontecimentos, pois era a única em condições de fazer frente…, daí referir o ano de 2006.
Então, já se sabe algo dos R15?
Fica bem…
Outra coisa: a vida nunca foi fácil para quem se aventurou como construtor independente – fossem os regulamentos ‘favoráveis’ ou não. E sem uma boa gestão ainda menos fácil é a vida. Por isso, a pergunta que faço é: terá o problema da Pescarolo sido mesmo, unicamente, o regulamento ‘desfavorável’? De certeza que não haverá outra(s) razão(ões)?
Penso que Pescarolo terá boas hipóteses de conseguir o seu objectivo se conseguir associar-se a um grande construtor que tenha um propulsor híbrido adequado à corrida. Acredito que seja possível nesse caso reunir um grupo de parceiros tradicionais, porque não também eles antigos participantes e vencedores, interessados em se associar ao significado desportivo da equipa e ao capital técnico que Pescarolo consegue reunir à sua volta.
Seria uma forma de celebrar tantos anos de competições em Le Mans e reviver duma forma positiva e consequente aquilo que foi esta corrida nos anos mais emotivos e com mais forte significado na sua história.
Penso que o nome Pescarolo ainda tem uma força muito grande no desporto automóvel e ninguém pode ficar indiferente a alguém que é uma imagem viva desta corrida e faz parte da memória das competições de endurance automóvel do após guerra.