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24 Horas de Le Mans

Filipe Albuquerque em entrevista exclusiva ao Le Mans Portugal

por Hugo Ribeiro, 3 de Maio de 2014 5 Comentários

Filipe Albuquerque. © Audi Motorsport

Foram várias as razões pelas quais nos deslocamos ao circuito de Silverstone. Por um lado, assistir ao regresso da Porsche ao universo Le Mans, por outro, entrevistar o piloto português Filipe Albuquerque. O piloto natural de Coimbra irá estar este fim-de-semana em Spa-Francorchamps e em Junho nas 24 Horas de Le Mans ao volante do Audi R18 e-tron quattro #3. Desde a passagem de Pedro Lamy pela Peugeot Sport entre 2007 e 2011 (com dois 2ºs lugares em Le Mans, e um título LMS) que Portugal não se encontrava numa posição de poder ver as suas cores no lugar mais alto do pódio da clássica francesa. Para o autor deste artigo, um dilema: torcer pelo Filipe ou torcer pela equipa que o fez apaixonar-se por Le Mans?...

... claro está que será pelo Filipe!!! Chegados à hospitalidade da Audi Sport Team Joest no paddock de Silverstone, imediatamente fomos recebidos de braços abertos pelo Filipe, com muita, mesmo muita simpatia. Após uma animada conversa — onde ficamos a saber com muito orgulho que estamos no topo das preferências do Filipe no que toca a informação sobre as corridas de resistência — , seguiu-se a entrevista ao piloto que se estreia este fim-de-semana no Campeonato Mundial de Resistência e que em Junho irá regressar para as 24 Horas de Le Mans.

Le Mans Portugal (LMP): Comecemos pela pergunta mais óbvia: como surgiu este convite para correr com a Audi em Le Mans?

Filipe Albuquerque (FA): Desde o início, quando entrei para a Audi, todos sabiam que eu era um grande fã do R18; quando entrei para a Audi tinha realizado um shootout com o R15+, que correu muito bem, que eles gostaram; depois fiz um teste para o DTM que correu bem, e na altura como tinha apenas 23 anos, decidiram colocar-me no DTM. Mas eles sabiam que eu estava disposto, que eu gastava muito de poder fazer Le Mans um dia. Nunca escondi isso a ninguém, que gostava de ir a Le Mans e que gostava de ir com o R18... só não sabia era quando. Este ano surgiu porque havia uma vaga, com a saída do Allan [McNish] — estava tudo planeado para eu voltar a fazer o DTM com a equipa Rosberg, até tinha testado em Jerez já para preparar 2014, e quando o Allan disse na Audi que se iria retirar, eles perguntaram-me: "olha, há uma vaga livre, nós sabemos que tu gostas de Le Mans, deste-te bem nos testes que fizestes, tens-te saído bem nas provas de resistência, tens um perfil que se enquadra bastante bem; quando vieres cá falar connosco diz-nos o que queres fazer, se queres fazer o DTM, ou, se houver a possibilidade, se queres fazer Le Mans". E eu quando cheguei lá: "quero fazer Le Mans!" Foi assim... muito simples! (risos)

LMP: Como muitas outras equipas de fábrica, a Audi tem vários pilotos contratados, que tão depressa estão num Blancpain, como estão numa competição nacional, ou vão a Le Mans, ou ao ELMS, ou a Daytona como tu já foste e venceste. Há uma espécie de preparação? Quando começaste na Audi com o DTM eles perguntaram-te qual a progressão de carreira que pretendias e preparam-te nesse sentido? Ou são oportunidades que vão surgindo mediantes os resultados que apresentas?

FA: Sim... é um pouco como disseste. Tem a ver com as preferências de cada piloto. Eu sempre fiz força para fazer Daytona com o Audi R8, e lá está... eu fiz o teste do DTM e eles também me perguntaram o que eu queria fazer. Mas são oportunidades que também vão surgindo: se esta vaga não existisse hoje em dia [a saída de McNish] eu não poderia passar para Le Mans, mas vamos supor que se eu tivesse feito maus resultados no DTM, muito maus, eles sabendo que eu não estou à altura do desafio não me passavam para Le Mans de certeza. Portanto tem tudo a haver com: Será que o Filipe se enquadra num projecto como é o R18? Ele tem personalidade para isso?... Tens de preencher os requisitos, porque eles recebem vários emails de pilotos a nível mundial, de topo — que eu sei, porque eles me vão dizendo — a dizerem que querem correr no R18, porque realmente é um dos melhores lugares a nível mundial. Lá está... acreditaram em mim após três anos de DTM, onde os resultados não foram os melhores, mas eles sabem exactamente o que se passou por trás e continuaram a confiar em mim sem qualquer problema. 

LMP: Voltando atrás na tua carreira. Muitos ainda se lembrarão da forma como saíste da cantera de pilotos da Red Bull, com muita gente a pensar que a carreira do Albuquerque acabava ali...

FA: (risos)

LMP:... mas tendo em conta que cada vez mais jovens pilotos estão a vir para a endurance, achas que aquela ideia de que a Formula1 é o topo de tudo é ainda válida? Pensas que o WEC ou mesmo o ELMS podem ser uma boa progressão de carreira para quem não encontra lugar na F1? És um jovem piloto e pensas: E agora, o que é que eu faço? Esta uma boa alternativa?

FA: A minha decisão, minha e do meu management, a PNC... a PNC foi crucial na altura na gestão da minha carreira. Eu era um miúdo com 21 anos e o meu sonho era só a F1, na altura; estar dentro de uma cantera de F1 e fazer testes privados com a Red Bull, na altura, para mim não havia nenhuma opção que não a F1. Mas foi a minha equipa de management, com cabeça fria, mais velhos, o Pedro e o Nuno [Couceiro] a dizer: "Repara, o que estão a fazer não é nada". E foram eles que geriram muito bem a minha carreira, recusando à Red Bull irmos na altura para um projecto que não fazia sequer parte do contrato. E rejeitamos, e foi a melhor maneira. A minha carreira representa bem, ao fim de contas, o que é uma carreira bem gerida: estive na Red Bull, estive na CRG como piloto oficial, estive na A1GP, depois na Audi Sport Italia a correr com os R8, e agora estou na Audi. Ou seja, tenho passado por estes lugares de topo, e sou português, sem grandes apoios mas [com a carreira] sempre bem gerida.

Não vejo hoje em dia de maneira alguma o WEC, ou o DTM ou o WTCC, não os vejo nada como alternativas à F1. A F1 hoje é o que toda a gente vê: muita gente entra a pagar, todos os pilotos que estão a entrar é por muito lobby e porque pagam mais. Entram lá simplesmente com uma mala cheia de dinheiro e não por talento próprio. Não acho que é 'alternativa', para um piloto que seja bom, profissional, enveredar por um sítio que seja profissional, num WTCC a ser pago, ou num WEC a ser pago, ou num campeonato como o Open GT ou o Blancpain, qualquer um destes campeonatos onde precisam de pilotos que tenham talento e a quem pagam para correr... eu acho é que isto é que é verdadeiramente de valor, e não entrar num sítio qualquer a pagar.

LMP: Bem... o Ricardo Grilo, nas transmissões da Eurosport, de vez em quando diz que a F1 na verdade é uma formula de promoção para o Mundial de Resistência...

FA: (risos)

LMP:... que os pilotos vão lá primeiro ganhar experiência e depois é que vêm cá correr...

FA: (risos) Se virmos bem, já nem todos os pilotos que saem da F1 conseguem aqui encontrar uma equipa, porque hoje em dia os pilotos mais novos começam logo a sair dos formulas ou dos karts e vão fazer GTs. Começa-se cada vez mais a deixar o sonho da F1 de parte, porque eles sabem que não têm dinheiro, condição financeira para lá chegar. 

LMP: Ou seja, mais do que uma alternativa, começa mais a ser um objectivo?

FA: É uma carreira... Eu para fazer carreira tenho de viver do desporto, ou seja: acordar de manha, fazer relatórios sobre a corrida, treinar fisicamente e voltar a trabalhar. Isto para ser viável não podemos estar a viver do dinheiro da família que temos, independentemente de tudo. É correr atrás de patrocínios? O patrocínio pode estar muito bem hoje e amanhã acaba... é inconstante. Entrar num construtor é o ideal para qualquer piloto, e eu acho que hoje em dia é o que toda a gente procura. Porque isso sim dá estabilidade a um piloto, a um piloto profissional, permitindo ganhar dinheiro e pagar as despesas em casa. E eu acho que isso sim é que fazer carreira, não andar à procura de patrocínios — é claro que muitas das vezes temos de procurar patrocínios para nos fazer ver, para ter a oportunidade, porque ninguém vai investir em nós sem nos conhecer.

LMP: Voltando a Le Mans. Fizemos esta pergunta ao Pedro [Lamy] quando ele correu com a Peugeot em Le Mans. Como é que isto de correr com um carro que não faz barulho nenhum?

FA: Não sei se é por ser de outra geração, mas eu fiz uma progressão bastante suave. O último carro 'barulhento' que tive foi o do World Series; depois fui para a A1GP onde o som era mais abafado; e depois para o Audi R8 que é muito silencioso, e este sim fazia-me mais confusão porque quando ia ao lado de um Ferrari ouvia a rotação do motor dele e não ouvia a do meu... o que é inacreditável! E agora com o Audi... enfim... acho engraçado os motores eléctricos a fazerem aquele zumbido, a descarregar nas travagens, é engraçado... mas sim, é bastante diferente.

LMP: É uma questão de hábito?

FA: Sim, é uma questão de hábito. Nós não vamos poder alterar isso, é o regulamento. É uma pena? É! Mas, não vou gastar energia a pensar no que tenho pena de não ter — e lembro-me perfeitamente em 2011 de ver as corridas de Le Mans, e havia lá um carro que fazia um barulho perfeito! Era um V12, fazia cerca de 11/12 mil rotações... lindo! Lindo! Simplesmente lindo! Mas não era o mais rápido... mas não interessa.

LMP: Bem... tu pelo menos este ano vais no carro mais rápido, ou no que tem sido o mais rápido.

FA: Sim (risos), eu como piloto só me preocupo em ser o mais rápido...

LMP: Estás ansioso por Le Mans? E Spa? Também é uma pista fabulosa...

FA: Sim, estou ansioso por correr com o Audi, em corrida. Tenho andado a testar bastante, e estou mortinho por correr com o carro, estar em pista, fazer aquelas curvas como vimos nesta primeira hora [em Silverstone - a entrevista foi feita durante a corrida], é aquilo que um piloto de corridas querer, ou seja, andar a discutir roda-a-roda.

LMP: Como é que descreverias o Audi R18? Ou o que podes revelar do carro...

FA: Muito ágil, fantástico com a tracção às quatro nas saídas das curvas, muito rápido em baixas, fantástico top speed (risos)... fantástico mesmo! E dá gozo... dá muito gozo!

LMP: E a visibilidade? Muito se falou da falta de visibilidade de dentro destes LMP modernos?

FA: OK... este carro é de facto muito melhor o que o anterior em termos de visibilidade, e adaptei-me bem. Não tive qualquer problema. É verdade, sim, que não vejo muitas vezes o corrector do lado interior, nas curvas lentas, mas não é do tipo: ah... isto é uma grande problema.

LMP: Quais são as tuas expectativas para a tua primeira experiência em Spa.

FA: Bom... não fazer erros, claramente, andar no andamento dos outros, mas expectativas... Se houver seco e depois chuva, como aqui em Silverstone, há uma linha muito pequena entre sermos os heróis ou não sermos nada, ninguém. Andar com slicks num carro com cerca de 800cv ou 1000cv e sem que tenhamos controlo de tracção é delicado num carro com muita downforce, basta o carro entrar um bocadinho de lado e fica muito difícil de recuperar. Daí dizer que não quero fazer erros, mas tenho que andar no meu limite, e cada vez mais estas corridas — como estámos aqui a ver na primeira hora — bem... eles estavam ali com uma agressividade... porque eles sabem que é importante. Vou fazer o meu melhor, quero ganhar experiência, este ano é importantíssimo ganhar experiência no meio do transito, e o mais rápido possível.

LMP: O facto de estares no terceiro carro da Audi faz de ti e dos teus companheiros de equipa, de alguma forma, um plano B para a Audi? O Dr. Ullrich costuma dizer que se acabarem a corrida, podem lutar entre si...

FA: Sim, exactamente... mas não, não é um plano B senão eles não nos davam tanto tempo dentro do carro. Aconteceu já este ano em que os pilotos do #1 e do #2 gostavam de fazer um teste aqui ou ali, e eles dizem que não, que é para o carro #3, que nós temos de ter quilómetros. Eles querem que nós estejamos competitivos, e só querem aumentar as probabilidades de ganhar e depois, também, preparar-nos para o futuro. É uma questão de preparação de corrida, e se eles conseguirem fazer isso estão mais bem preparados para o futuro do que se calhar qualquer outra equipa. Eles querem que nós estejamos no nosso melhor, à altura do #1 e do #2, o que prova o facto de me terem dado a oportunidade de competir no ELMS - porque eu este ano sou o rookie - para eu estar o mais à vontade possível com o tráfego, e isso só mostra a pressão que eles querem que o carro #3 ponha sobre o #1 e o #2. Eu não vejo que haja uma opção B, mas vejo como preparação para o futuro.

LMP: Então a passagem pela Jota Sport, pelo ELMS, tem mesmo a ver com isso, uma preparação, não é por teres falhado o DTM, ou outro campeonato, e terem-te arranjado outra coisa para fazeres?

FA: Não, não, não... a ideia foi mesmo: como é que me posso preparar melhor. Onde é que está o carro, e quais as possibilidades para eu me preparar para uma corrida como Le Mans. E o carro mais próximo de um LMP1, é um LMP2. Ok, onde há um LMP2? No WEC, mas todos os que fazem o WEC fazem Spa e Le Mans. Eu não posso fazer nem uma nem a outra. Nenhuma equipa estaria disposta a ter isso, e o ELMS enquadra-se perfeitamente nesta lógica. Não faz o WEC nem Le Mans — e já assim vai ser complicado, porque a equipa onde eu estou vai fazer Spa e Le Mans, e para isso a Audi disponibilizou o Marc Gené, o piloto e reserva da Audi, para estar com eles nessas corridas. Foi uma opção fantástica para a equipa.

LMP: Como é foste recebido na Jota?

FA: De braços abertos! Eles são muito simpáticos, ficaram muito contentes, muito motivados por terem um piloto da Audi... dois, dois pilotos da Audi, e o Marc Gené tem muita mais experiência que eu. Correr com um piloto como o Marc Gené, que já venceu Le Mans, já fez F1, correr com ele em Spa e em Le Mans obviamente que vai ser uma mais valia para a equipa. Depois, correr com um piloto que está a testar e a desenvolver o carro de Le Mans e veio do DTM... e eles estão muito contentes com o que fiz: não cometi qualquer erro, arranquei e ganhei logo boa distância para o 2º... eles estão muito contentes com isso.

LMP: Ontem estivemos aqui a assistir à tua corrida, e mal esta começou, o Albuquerque foi-se embora...

FA: (risos)... é esse o meu trabalho...

LMP: ... e tudo estava acorrer bem até aquele acidente com o Simon Dolan.

FA: Foi pena, foi pena... Eu não condeno de todo, de todo, o meu colega de equipa, mesmo sendo ele um piloto silver e não um profissional. São coisas que podem acontecer com qualquer um. Ele ter que esperar e não passar ali, teria de perecer ao longo da recta toda, e ali estamos a falar de 2/3 segundos mais lento por volta e não nos podemos dar a esse luxo...

LMP: ... principalmente numa altura em que a Jota estava a perder tempo para o 2.º.

FA: Estávamos a perder ligeiramente, embora o 2.º... lá está, são quase corridas de sprint, temos de estar sempre a passar em cada curva. Num LMP2 é mais complicado porque os GTs são tão ou mais rápidos em recta, pelo que temos sempre de os passar nas curvas. Só condeno um pouco o regulamento por obrigar o gentleman-driver - e estou a falar de um piloto que, sendo empresário, está bem fisicamente e apto - a fazer três stints; não acho que esta seja a direcção em termos de segurança. Se metem quatro stints em Le Mans por uma questão segurança, então num circuito com muito mais curvas, com muito maior carga aerodinâmica, que cansa muito mais, então meter três equivale provavelmente a seis em Le Mans, onde há muitas mais rectas. Acho que há que melhorar neste ponto. Mas voltando ao Simon, podia ter acontecido a mim o que aconteceu a ele, com o piloto do Ferrari a não nos ver e a empurrar-nos para fora da pista.

LMP: Achas que o facto de não terem pontuado os irá prejudicar para o resto do campeonato? Afinal são apenas cinco corridas...

FA: Lá está... eu apesar de não condenar o Simon, estou triste. Assim como está o Simon, que enquanto levava pontos no braço no Medical Center dizia: "Ah... estou chateado por não termos pontuado, estou chateado por me estarem a rasgar o fato todo para me fazerem pontos, estou chateado porque demos cabo do carro" — ele está mais chateado do que eu! Estamos tristes porque complica muito as contas do campeonato, e eles ganharam o ano passado, era uma boa altura para pontuarmos bastante porque irão haver corridas onde não iremos estar tão fortes e não podemos desperdiçar pontos. Agora vai ser mais difícil...

LMP: Nós acompanhamos a ASM Team em Le Mans e no LMS, onde eles corriam com um Zytek, cujo último ano de vida foi muito atribulado... o que é que achas do Zytek?

FA: Bem... acho que é um carro bem equilibrado, com muito apoio aerodinâmico; falta-lhe velocidade de ponta, mas ganhamos nas curvas. Acho que o carro foi melhorado nos últimos tempos, pelo que não tenho razões de queixa... Eu ainda tenho pouco experiência com o carro, mas não tivemos problema algum. Provavelmente, melhoraram a fiabilidade do carro, mas até agora acho que fizemos a pole com mais de 1s de vantagem, estávamos muito fortes na corrida, não tenho razão de queixa neste momento. Mas nunca se sabe.... digo-te no final do ano (risos).

LMP: Por falar em final do ano, a última corrida é precisamente no Estoril, onde vais correr em casa, e onde esperemos que esteja imensa gente a apoiar-te, e esperamos nós que não seja por este resultado em Silverstone que não chegas a Portugal a lutar pelo título.

FA: Exacto, para mim o ideal era ir para o Estoril com o título já no bolso, agora vai mesmo que ser na disputa. Pela minha experiência, o importante é pensar corrida a corrida. Se começarmos muito a pensar no campeonato é pior. Agora vou para Imola com vontade de ganhar, e no final do ano, independentemente de estar a discutir ou não o campeonato, quero lá chegar e ganhar em casa... ponto (risos)!

LMP: Faz diferença para um piloto correr em casa, ou uma vez dentro do carro é indiferente onde estás a correr?

FA: Quando entras dentro do carro, não há diferença nenhuma. Podes conhecer melhor o circuitos, os correctores, as curvas, os saltos, como é que o vento muda, isso faz um bocadinho diferença. Tem tudo a ver com o conheceres melhor a pista, os detalhes. Para mim, quando tens uma corrida que é em casa, tens é mais atenção mediática. Acredito que para ajudar a divulgar o campeonato, as minhas corridas, vou ter de despender muito mais tempo para isso em vez de estar quietinho a pensar na pista, concentrado com a minha equipa… Vou ter familiares, amigos, que querem estar sempre comigo ou falar comigo. Aprendemos isto nos Estados Unidos, que as corridas são para os fãs, para as pessoas virem ver, virem ao paddock, conhecerem os pilotos, tirarem uma fotografia com eles… é isso que eu quero tentar passar. 

LMP: De facto o ambiente nos EUA é muito diferente…

FA: Muito diferente… por exemplo: às 8 da noite em Daytona, as equipas têm de ter tudo fechado nas boxes porque ninguém se responsabiliza… isto é fantástico! Vamos imaginar que estas equipas que aqui estão, a Audi, a Porsche e a Toyota não pudessem trabalhar à noite. Vamos imaginar que tens um acidente nos treinos… vai ser muito difícil correres porque a equipa não tem tempo para trabalhar no carro. Na Europa ficamos até às 3 horas da manhã se for preciso. Lá não é possível… às 8 noite, vamos todos para o restaurante e vamos socializar… logo isso muda completamente a nossa mentalidade. Aqui, com tantas regras, tanta tecnologia, às vezes as corridas são para os engenheiros e não para os pilotos. Nos EUA as corridas são para o público. Os carros são muito inferiores aos que temos aqui na Europa, mas é um show incrível!

LMP: E a nível de público?

FA: É muita gente! Eles gostam muito de comprar coisas relacionadas com as equipas… Tudo bem que há mais poder de compra, mas cá na Europa não temos tanto isso. 

LMP: E o paddock? Aquilo de ter de levar o carro para a garagem pelo meio do público no paddock é uma loucura. E nós vemos lá um mar de gente inacreditável!

FA: É um loucura! Mas até agora ainda não me aconteceu isso (risos), nem sei como isso funciona, mas lá está: temos de aceitar as regras; para um Europeu é estranho mas resulta lá. Eles têm mesmo uma outra mentalidade, muito para os fãs. Cá também temos a sessão de autógrafos, mas lá, por exemplo, durante a sessão de autógrafos o dono da Flying Lizard não quer ninguém ao telefone, porque estamos aqui para falar com os fãs. Eu sou uma pessoa que já fala imenso, mas eles lá falam imenso com os fãs, e tomam a iniciativa de o fazer. Os fãs às vezes têm mais receio de mandar uma piadola ou são mais tímidos, e é o próprio piloto a quebrar o gelo. 

LMP: Como foi correr em Daytona? Nunca havias corrida numa oval?

FA: Fantástico! Se depender de mim quero correr todos os anos em Daytona. É numa altura fantástica: não coincide com mais nada, e correr naquela oval é muito giro… Mas é fácil, acaba por ser uma curva a fundo, mas é muito giro quando estamos a ultrapassar três carros, e vamos pela parte de cima da oval… é uma adrenalina imensa! 

LMP: Uma experiência para repetir mais vezes então?

FA: Sem dúvida nenhuma. Duas presenças com uma vitória e um 5º lugar…

LMP: Voltando de novo ao tema Audi, vais correr em Spa e em Le Mans, no terceiro carro, e tendo sido a política da Audi só fazer o WEC com dois carros, quando é que te vês ao volante do #1 ou do #2?

FA: Como tínhamos conversado no início da entrevista, nunca sabemos o que vai acontecer.  Não sabemos como vai ser o futuro porque tudo depende: se eu fizer uma má exibição em Spa e em Le Mans, se eu fizer uma boa… a questão é que neste momento eles estão muito contentes com os dois carros, com pilotos de topo, que venceram Le Mans por mais de uma vez… é difícil.

LMP: Não me digas que estás à espera da reforma do Tom Kristensen?

FA: (risos) Eu digo-te uma coisa… Eu fico impressionado, como dizem os ingleses, com a "velha raposa". O Tom é inacreditável! Para te dar um exemplo: noutro dia ele andou no carro de manhã, fez dois stints a testar, saiu do carro e foi correr 14Km, e no final do dia ainda foi fazer mais um stint. Uau! é inacreditável a motivação que tem, a ambição, o nível que exige a si próprio. É sem dúvida alguma inacreditável o que eles fazem para se manterem ao nível dos pilotos mais novos. Isto tudo para te dizer que não sei quando é que o Tom se vai reformar, ou não, mas vou concentrar-me e dar o meu melhor. Mas como te disse, a Audi planeia tudo ano a ano e como tudo se desenvolve, independentemente dos contratos que tenha e dos pilotos que tenha. Se eles já chegaram a meter quatro carros em Le Mans, quem sabe um dia os CEO da Audi estão tão contentes que põem três carros… não sei, já estou a sonhar porque estou no carro #3!

LMP: Nos formulas, os teus colegas ou são ligeiramente mais novos ou ligeiramente mais velhos, mas aqui tens como companheiros de equipa pilotos — que não deixam de ser rivais — com muita experiência e com os quais aprendes muito…

FA: Sem dúvida. Olho para o Tom como meu colega de equipa, conversamos sobre a corrida… falo sempre com ele com os ouvidos muito abertos porque quero apreender com ele. Mas aqui na Audi temos outros que foram pilotos, como o Dindo Capello, o Allan McNish — e o McNish foi fundamental para eu fazer o ELMS. É ele que me tem aconselhado, dando-me dicas sobre os circuitos, e a Audi tem muito isto. Mas o Allan está de fora, mas seria ainda perfeitamente capaz de entrar ali no carro e estar no pódio no final da corrida!

LMP: Resumindo: estás numa equipa de fábrica, onde és pago para correr, onde tens todas as condições para fazer o teu trabalho, toda a estabilidade, e ainda tens uma série de nomes, como muita experiência, que ainda te ajudam a progredir na tua carreira. Ou seja… não podias estar melhor?

FA: Não, mas atenção que isto não quer dizer que não tenha pressão! Enquanto na Audi tenho de andar todos os dias a pensar como posso melhorar, ou seja, o nível de exigência é muito alto!

LMP: Afinal estás numa posição onde tens vinte ou trinta pilotos à espera de uma asneira tua para ficarem com o teu lugar.

FA: (Risos)… quem me dera que fossem só vinte ou trinta! Estava eu muito bem! É que são muitos mais…

LMP: Para fechar, Le Mans. O que seria para ti um bom resultado? Não digo excelente, porque isso é obviamente ganhar, mas o que é que deixaria satisfeito nesta tua primeira experiência?

FA: Um bom resultado seria um pódio. 

LMP: Ou seja, no dia 14 de Junho, ao volante do Audi R18, só vais pensar no pódio.

FA: Não. Eu funciono assim: entro no carro e penso: este é um stint de duas horas, por isso vou dar o meu melhor durante duas horas, no meu limite, sem fazer erros, o melhor stint possível! Vou dormir sem saber como o carro anda, quando entro outra vez, de novo andar no meu máximo, no meu limite e depois vamos ver onde nós estamos. Não adianta nada perder horas de sono, ou de alimentação, massagem, o que quer se seja para me preparar para as próximas duas horas, porque não vou alterar nada. Vejo muito assim, vejo como se fossem muitas corridas numa só. Há pilotos que correm uma hora e vão para casa duas semanas, para se prepararem para a próxima, verem o que fizeram bem, o que fizeram mal, e eu vejo muito assim a resistência… mas em 24 Horas! Não posso entrar no rádio e dizer: "Ei, Oli [Olivier Jarvis], estamos em quarto. Anda mais rápido pois temos que ir ao pódio". Claro que não. Ele está no seu limite, nós respeitamo-nos uns aos outros. Foi assim que encarei as 24 Horas de Daytona.

Ao Filipe Albuquerque um forte abraço de toda a equipa Le Mans Portugal e votos do maior sucesso.