Entrevista / LMS
Entrevista a Paulo Pinheiro, administrador do Autódromo do Algarve
Quando os trabalhos de construção do novo Autódromo Internacional Algarve (AIA) foram concluídos, em finais de Outubro do ano passado, terminavam também alguns anos de muitas incertezas, dúvidas e cepticismo, em particular daqueles que apenas iam conhecendo o desenrolar do (moroso) processo através da imprensa, habituados todos que estamos a tantos intenções, boas vontades e promessas não cumpridas.
Rigoroso no cumprimento dos prazos de execução e no orçamento previsto, facto raro num país habituado às constantes 'derrapagens', o AIA de imediato iria ainda granjear elogios dos mais diversos quadrantes - e em particular dos pilotos, sendo deles os melhores elogios que se pode ter - devido ao particular layout da pista desenhada nos arredores de Portimão, o qual foge àquela que tem sido a 'norma' adoptada nos circuitos construídos nos últimos anos e retoma e adapta algumas das características (nos desníveis acentuados e no desenho de algumas curvas) dos chamados 'circuitos naturais', desenhadas ao sabor do relevo do local onde se implantam.
Autor principal de um sonho tornado realidade, Paulo Pinheiro, administrador do AIA e rosto principal de uma vasta equipa que trabalha arduamente para voltar a recolocar Portugal no mapa do automobilismo internacional de mais alto nível, no que toca à organização de provas, acedeu a responder-nos a algumas perguntas em jeito de antecipação da prova do Le Mans Series a disputar no próximo sábado.
Lemansportugal (LMP): Embora seja ainda cedo para um balanço, que avaliação que se pode já fazer destes primeiros dez meses de actividade? De alguma forma, o autódromo tem sentido os efeitos da crise? Ou teme ainda que eles se possam vir a manifestar num futuro próximo? E de que forma?
Paulo Pinheiro (PP): É difícil nesta fase antever aquilo que vai acontecer. Nós conseguimos, nestes primeiros dez meses de vida, combater a crise - tivemos uma taxa de ocupação muito acima das nossas previsões e temos reservas firmes para o próximo ano. Portanto, à partida, temos as coisas estão asseguradas. No entanto nunca podemos dizer isso, porque de um momento para o outro tudo muda. temos feito um esforço muito grande para angariar todo o tipo de teinos, de apresentações e eventos à volta do circuito, mas é claramente um trabalho contínuo que não é fácil gerir.
LMP: O projecto do complexo do AIA integra outras valências para além do autódromo propriamente dito. Como está a decorrer a execução/implementação das mesmas, nomeadamente no que respeita ao Parque Tecnológico?
Paulo Pinheiro (PP): O Parque Tecnológico, em particular, é um projecto que não é fácil, porque Portugal é um país periférico da Europa, e a mais valia que nós temos para angariar empresas da área tecnológica tem a ver com o circuito, pela maior competitividade que essas empresas poderão ter por estar próximas de um circuito, o que nos induz um relacionamento com a indústria automóvel e com as equipas de competição. Ora, todos sabemos que neste momento a competição automóvel é um negócio que está mundialmente em crise, o que para nós tem sido relativamente complicado. Mas continuamos a trabalhar nesse sentido, e à partida pensamos que temos dois ou três negócios que se vão rapidamente, ou até ao final do ano, concretizar,mas não tem sido fácil, como é óbvio.
LMP: A configuração do circuito tem sido muito elogiada, quer pelos jornalistas especializados quer, sobretudo, pelos pilotos que por cá têm passado, havendo inclusive quem referir que o mesmo constitui um marco no que respeita à construção de circuitos permanentes. Como encara esses os elogios? Acreditava, quando decidiram apostar nesta configuração, que o circuito viesse a receber esses elogios?
Paulo Pinheiro (PP): É para nós motivo de orgulho e satisfação os elogios que toda a gente tem feito sobre o nosso circuito, em relação ao layout, aos edifícios, à arquitectura - e a equipa de arquitectos fez um trabalho de primeira linha, e eu quero destacar o arq. Ricardo Pina pelo trabalho magnifico que fizeram em tão pouco tempo. A pista em si, que é um trabalho em que nós já interferimos mais, também tem sido muito elogiada, o que para nós é motivo de orgulho. De início, houve alguns receios, porque estávamos com receio de fazer uma pista que fosse, talvez, demasiado radical, em termos das inclinações e das curvas cegas - particularmente nos dias que correm - mas felizmente essa aposta pagou dividendos e agora estamos um pouco mais descansados. Mas temos consciência que esse é um trabalho contínuo e temos de continuar a trabalhar sempre.
LMP: O AIA vai receber em Agosto um prova do LMS. Como é que surgiu a ideia e como foi possível concretiza-la? Foi a saída de Monza do calendário que abriu portas à entrada de Portimão ou, pelo contrário, foi Portimão que 'forçou' a saída de Monza?
Paulo Pinheiro (PP): Nós fomos abordados em Julho do ano passado para,eventualmente, termos uma prova de Le Mans Series. De imediato agradou-nos a ideia, porque achamos que é um campeonato extremamente interessante, que temos a certeza se irá crescer nos próximos anos. Tem características únicas, o facto de ser uma prova de longa duração, que poderá ser disputada com um grande período à noite, tudo isso levou a que achássemos que podia ser uma grande festa do automobilismo e que a data de Agosto seria a ideal para permitir que as pessoas que estão no Algarve de férias pudessem usufruir desta corrida. Em termos das outras provas, nós não tivemos qualquer tipo interferência, não sabemos se fomos nós que 'empurrámos' os outros ou não. Agora, era uma aposta nossa conseguir trazer o LMS e felizmente conseguimos.
LMP: Como é que os responsáveis do LMS reagiram à proposta de realização de um prova semi-nocturna? De onde veio a ideia? Foi fácil convencê-los?
PP: De início a organização do LMS não se mostrou muito adepta do facto de fazermos uma corrida nocturna, porque tirando Le Mans não faziam mais nenhuma, e ficaram um pouco na expectativa. Nós achamos que seria uma mais valia grande, porque nunca tinha sido feita nenhuma corrida nocturna em Portugal, que achamos que é dentro do espírito da prova de Le Mans, e que melhor data para o fazer se não Agosto. Portanto, achamos que foi uma excelente escolha. Obviamente, só com a corrida é que poderemos aquilatar os resultados, mas achamos que foi uma aposta bastante bem sucedida.
LMP: Miguel Ramos, numa entrevista que nos concedeu, alertou para as dificuldades que uma fraca iluminação do circuito poderá causar, dada a configuração da pista. Como é que estão a ser preparados nesse aspecto, os 1000 Km do Algarve?
PP: Em relação à iluminação da pista, pelas suas características específicas, pelo facto de ter muitas curvas cegas, muitas subidas e descidas, a iluminação ganha aqui uma maior importância e tivemos essa preocupação. Por isso fizemos diversos testes de iluminação, nomeadamente com os testes nocturnos da Aston Martin que já tivemos aqui este ano, e pensamos que não vai haver problemas. Obviamente, é algo em relação ao qual vamos estar sempre muito atentos e que se for necessário melhorar no próximo ano iremos fazê-lo.
LMP: Em Março, na conferência de imprensa em que foi lançada a temporada 2009 do LMS, Patrick Peter foi um pouco mais além na revelação da prova nocturna que irão ser os 1000 Km do Algarve e deixou no ar a ideia de "os promotores têm intenções de ir ainda mais longe2". Pode-nos adiantar que "intenções" serão essas? O que é se pode esperar desta prova, no futuro? Seria viável, por exemplo, a realização de uma corrida de 12 Horas?
PP : Nós achamos que o importante é perceber como a prova deste ano vai decorrer em termos de público, da reacção do público, dos pilotos, das equipas, e ver o que é que podemos melhorar para 2010. tremos algumas ideias, que não podemos ainda avançar muito, mas achamos que podemos evoluir sempre, fazer melhor e tornar esta corrida num marco em Portugal, e, quiça, mesmo em termos europeus, ser um ícone do desporto motorizado. Vamos a ver se o conseguimos, não será fácil, mas tudo vamos tentar nesse sentido.
LMP: Ainda na conferência de imprensa, Patrick Peter anunciou ainda a intenção de criar um 'ambiente tipo Le Mans' em Portimão. O que significa isso?
PP: O sr. Patrick Peter tem uma visão muito idêntica à nossa sobre como devem ser as provas desportivas hoje em dia. Nós achamos que o conceito de Le Mans é um conceito que as pessoas gostam, em que o público é bem vindo à pista, é bem vindo à grelha de partida, é bem vindo à pit-lane, é bem vindo ao paddock e a tudo isso, e isso obriga-nos a ter muito cuidado na maneira como encaramos a organização da prova. Nós já fizemos acções de rua, hoje particularmente [NdR: quarta-feira, dia 28 de Julho], com a demosntração dos carros de corrida, com as sessões de autógrafos dos pilotos em centros comerciais e numa zona de praia , na Praia da Rocha, e isso tem mostrado às pessoas que o 'Le Mans' está na nossa cidade, que trazemos 'Le Mans' à nossa cidade fazer as pessoas ávidas de ver a corrida. O próprio circuito recebeu um parque infantil, temos um palco gigante onde vão actuar os Fingertips, temos um paddock gigantesco, com 80.000 m2, que vai estar com permanente animação. Portanto, tudo isso vai fazer as pessoas perceber que as corridas não são apenas carros à volta de uma pista, mas é também o trabalho de equipa, é a animação, são as empresas que giram à volta das marcas de automóvel. Tudo isso faz com que isto seja um ambiente específico e que poderá ser disfrutado, em nossa opinião, ainda melhor à noite.
LMP: A prova do International GT Open recentemente realizada no AIA teve uma assistência muito fraca. Tendo em conta o sucedido com Monza e a assistência média às provas do LMS, não teme que os 1000 Km possam não vir a ser o sucesso de público que seria desejável?
PP: Para já, em termos de público, está acima das nossas expectativas: temos 16.000 bilhetes vendidos achamos possível ainda chegar aos 25.000 vendidos, reais, o que achamos que é extremamente importante e interessante. O International GT Open foi uma prova que não teve qualquer promoção, porque não era uma prova organizada directamente por nós, pelo não nos cabe a nós responder em termos de público, porque nessa prova não tivemos qualquer responsabilidade. Nas provas da nossa responsabilidade, como foi o caso da prova A1GP, que considerando o facto de ter sido realizada no fim-de-semana da Páscoa e se tratar de um campeonato pouco conhecido em Portugal, achamos interessante ter tido cerca de 35.000 espectadores. Portanto, acho que estamos a fazer um bom trabalho nesse sentido. Claro que há sempre margem para melhorar e tenho a certeza que a prova do LMS vai ser um grande sucesso.
LMP: A continuidade de Portimão no calendário do LMS está dependente do sucesso desta 1ª edição ou, independentemente do que suceder, está já garantida para os próximos anos? E o formato da corrida (semi-nocturna) - a sua continuidade dependerá da avaliação que seja feita desta primeira experiência?
PP: Os nossos contratos são sempre contratos de média duração, ou seja, não faz sentido nós apostarmos numa corrida como a do LMS por um ano e depois , se os resultados não corresponderem inteiramente às nossas expectativas, pararmos. Não, nós sabemos que o desporto motorizado é um desporto que está algo afastado do píublico português e que há um trabalho que tem de ser feito, de criar novamente a ligação dos espectadores portugueses às provas, e achamos que esse é um trabalho de média duração. Portanto, independentemente do resultado desta prova - que obviamente será mais confortável se tivermos mum grande adesão de público - iremos continuar a trabalhar para, num período de três anos, chegarmos aquilo que é o valor estável de uma prova deste tipo.
LMP: Essa continuidade significa, ou poderá significar a inclusão da prova no anunciado Challenge Mundial que o ACO pretende realizar nos próximos anos?
PP: Ainda não sabemos sobre esse Challenge Mundial, por isso ainda é prematuro estar a falar disso. Obviamente, a nossa perspectiva é sempre estar ao mais alto nível, e isso poderá passar claramente por estar nesse Challenge Mundial que o ACO está a organizar, mas isso será decidido sempre em conjunto com a organização do sr. Patrick Peter.
Ao eng. Paulo Pinheiro o nosso obrigado pela sua disponibilidade, particularmente numa altura em que as solicitações inerentes à organização dum prova desta envergadura são imensas, fazendo votos de que a mesma tenha o sucesso que todos desejámos.
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