Entrevista / GT

23 de Julho de 2011

Entrevista a César Campaniço e João Figueiredo: “Para o ano, o objectivo é disputar um campeonato europeu”

A vitória no Circuito da Boavista garantiu a César Campaniço (à esq.) e João Figueiredo o primeiro título da temporada 2011. IMAGEM: Full Eventos

Dando início a uma série de entrevistas que esperamos poder vir a concretizar com os principais protagonistas nacionais dos campeonatos de Portugal e de Espanha de GT (CPGT e CEGT), tivemos o grato prazer de trocarmos algumas impressões, durante o fim-de-semana do CEGT no Circuito do Estoril, com César Campaniço e João Figueiredo, a dupla do Audi R8 LMS do Team Novadriver que tão boa conta de si tem estado a dar naquele campeonato, aproveitando uma pequena pausa no meio de um programa muito apertado.

Com inícios de carreira comuns a todos aqueles que aspiram a ser pilotos profissionais, tendo-se inclusive cruzado nos karts, César e João divergiram depois nos caminhos que trilharam, com o lisboeta a procurar afirmar-se no panorama internacional e o conimbricense a dar prioridade aos estudos. Com um título europeu de karting no palmarés e passagens por diversos campeonatos de formulas de promoção (Formula BMW, Formula Renault e F3), Campaniço enveredou pelas competições de carros 'de rodas cobertas' em 2005, no Mégane Trophy Eurocup. Tendo regressado às competições nacionais a tempo inteiro, em 2007, o piloto lisboeta soma já cinco títulos desde essa altura: dois no PTCC (um na classe 2, em 2007, e um absoluto, em 2008), com um BMW 320, e um no CPGT (absoluto, em 2010), outro no CEGT (na classe GTS, em 2010) e ainda a Taça de Portugal de GT (2011), com o R8 LMS que trouxe para Portugal depois da experiência com o Team Rosberg no ADAC GT Masters e no Europeu FIA GT3.

Quanto a João Figueiredo, o piloto de Coimbra, depois de ter disputado durante três anos o PTCC com um Peugeot 407, juntou-se o ano passado a Campaniço, que já conhecia bem dos tempos dos karting, para empreender esta aventura nos campeonatos português e espanhol de GT (embora este ano tenha abdicado do campeonato nacional).

Le Mans Portugal (LMP): Depois de alguns anos no estrangeiro, o César regressou a Portugal. A razão desse regresso tem a ver com as habituais dificuldades que os pilotos portugueses têm, nomeadamente em termos de patrocínios, em empreender uma carreira internacional?

César Campaniço (CC): Tentei a via internacional como qualquer piloto que queira construir uma carreira profissional, sabendo que em Portugal não é fácil por causa dos apoios. Mas cheguei a um ponto, na altura em que já tinha passado para os carros com rodas cobertas, o Megane Euro Trophy, em que decidi montar a minha própria equipa em Portugal. Depois de um um primeiro ano com o BMW, no segundo ano (2008) foi quando comecei a constituir a equipa e fui ficando. O CPGT E CEGT são, à nossa escala, na Península Ibérica,  bons campeonatos. Têm boas equipas e bons carros. Claro que poderia ser mais forte, mas a situação económica actual não ajuda muito. De qualquer maneira, no meu caso, o importante é sermos os representantes do projecto Audi na Península Ibérica e isso é muito bom para nós.

Campaniço e Figueiredo têm formado uma dupla de sucesso cujas prestações até ao momento e classificações actuais lhes permitem aspirar a vencer tudo que há para vencer nos GTs ibéricos. IMAGEM: © Andrew Remedios

LMP: João, fale-nos um pouco da sua carreira automobilística até agora e como tem sido a sua experiência no Team Novadriver.

João Figueiredo (JF): Eu começei como o César e até corremos juntos em Portugal nos karts, há muitos anos. Depois o César começou a fazer uma carreira mais internacional. Eu não tive oportunidade de fazer carreira internacional logo nos karts, tirando algumas provas esporádicas. E a minha carreira até agora resume-se a provas dentro do nosso país. Dos karts passei pelos Fórmulas e ainda fiz um ano de Rallies, uma experiência muito esporádica. Depois fiz uma pausa para acabar o curso. Quando retomo aos desportos motorizados (em 2007), foi quando começou o PTCC (carros de turismo) e fiz parte do projecto Peugeot com um 407. É aí que volto a encontrar o César, também como adversário - ele no BMW e eu no Peugeot. Ao fim do três anos, e uma vez que essa competição baixou as expectativas de outros anos anteriores, o passo lógico a dar, como foi feito por toda a Europa, era passar para as corridas de GT. Nessa altura, o César, que eu já conhecia há muitos anos, montou a sua estrutura com o Audi e eu, conhecendo-o como pessoa e como piloto, sabia que podíamos ter um projecto engraçado, os dois, com fortes possibilidades de sucesso. Assim foi no ano passado e estamos a caminhar para que este ano também assim seja, mas ainda vamos a meio. Já conquistamos um título, a Taça de Portugal na Boavista, e esperemos conquistar um outro título até o fim do ano.

LMP: Como vêem o panorama actual dos GTs na Península Ibérica?

CC: É uma situação um pouco complicada. É uma pena que não haja o chamado campeonato ibérico. Eu sei que é um projecto que é complicado de nascer, porque tinha que ser um projecto com duas federações, a portuguesa e a espanhola. Enquanto isso não existe, ou se corre em Espanha, ou em Portugal, ou nos dois. Realmente, o campeonato espanhol tem muito mais história, muitos mais anos de existência. É um campeonato que a nível de organização é muito mais consistente do que o nosso português. E por ter mais historial, tem as equipas todas portuguesas mas depois também tem as espanholas, sobretudo os carros de GT2 que ainda vão existindo. Ainda não há um consenso entre os dois campeonatos. De qualquer maneira, o campeonato espanhol ainda tem um nível superior ao português. Vamos ver como é que as coisas evoluem no futuro.

Mentor do projecto NovaDriver, parceiro do programa competição-cliente da Audi na Peninsula Ibérica, César Campaniço já sonha com o salto para um campeonato europeu. IMAGEM: © Andrew Remedios

LMP: Em relação à equipa, esta aposta a nível nacional e ibérico é para ficar pela península ou aspiram a ir mais além?

CC: Para o ano o objectivo é começar a fazer competições na Europa. Nós temos sempre investido em dois campeonatos nacionais, neste caso o português e o espanhol, mas para o ano a ideia será fazer um deles e um internacional. Penso que será a evolução lógica, também porque enquanto aqui, a nível ibérico, não se decidirem o que querem fazer (se é um campeonato ou dois), penso que não faz muito sentido fazer os dois. Até porque o campeonato espanhol tem aqui duas corridas. Claro que para nós e para nossos patrocinadores é sempre bom correr cá, e é um dos motivos porque nós criamos um projecto deste envergadura em Portugal. Mostra que conseguimos fazer coisas bem feitas, e não somos os únicos - temos também as equipas do Mercedes e do Lamborghini.

LMP: Se tivessem todas as condições necessárias, em que tipo de corridas gostariam de participar?

JF: Fórmula 1! É o expoente máximo. Mas voltando à realidade, eu por mim já me dou por satisfeito por estar a fazer esta competição. Até porque não é fácil arranjar os budgets necessários para fazer uma época destas. Mas uma vez, e estando dentro dela, nós gostamos sempre de sonhar um bocadinho mais além. A nossa categoria é a GT3 e sabemos que acima dela há outras categorias também muito boas, GT1 e GT2, embora esta esteja a cair um bocado na Europa, uma vez que a FIA já não está a favorecer tanto essa categoria em detrimento da GT3. Também as marcas estão a investir bastante e a criar novos carros, e com altos níveis de performance. Um GT1 seria muito agradável, mas à nossa dimensão, em GT3, ganhar a todos na Europa já era muito agradável.

CC: No panorama de hoje em dia, de facto, o único campeonato mundial que existe é o GT1, mas a situação económica faz com que exista um impasse. De facto, a nível dos GTs, o GT3 é a categoria que tem crescido melhor, e nós temos a vantagem de estar inserido nela, apesar de ser a nível ibérico. Mas penso que no futuro, se dermos o salto para o campeonato europeu ou para o Blancpain Series, isso já seria um passo muito bom. E já são competições que ao nível dos GTs são das melhores do mundo. Por isso, acho que, sendo realistas, seria esse o sonho.

Com o Audi a revelar-se uma máquina bem nascida e eficaz e uma equipa já bem oleada, Campaniço dispõe de uma boa base para disputar os lugares cimeiros de campeonatos como o GT Open, Europeu de GT3 ou o Blancpain Series. IMAGEM: © Andrew Remedios

LMP: Podem falar-nos um pouco sobre o Audi R8 LMS, as suas características principais e diferenças com outros carros que já conduziram?

CC: Tive a vantagem de em 2009, quando o carro apareceu, estar inserido no projecto do Team Rosberg. Fiz logo parte dessa equipa e tive lá um papel importante no próprio desenvolvimento do carro. O carro de há três anos não tem nada a ver com o carro de hoje, no sentido em que houve muitas melhorias. É um carro que nasceu muito bem, e por isso, quando montei a equipa, achei por bem investir num carro que já conhecia mas também porque sabia que era um carro com uma boa base. Acima de tudo tem uma assistência muito boa da Audi Sport, o que também é importante para uma equipa que está longe de tudo. Em Portugal estamos um pouco longe de tudo por isso é muito importante esta relação com a fábrica. Comparado com os outros rivais, é um carro que tem um bom motor, mas não é um motor de grande torque - é um motor mais de ponta. Sobretudo, tem um chassis muito equilibrado, que é o ponto forte do carro. E no geral, acaba por ser um carro muito rápido.

JF: É o carro com maior nível de performance que já conduzi, até pela potência em si. Os carros com maior potência que já conduzi foram os Formulas e o Peugeot 407 do PTCC, que tinha à volta de 285 cavalos, ao passo que este tem 550. Portanto, é um bocado diferente só na potência do motor. Em termos de visibilidade, facilmente se adapta. Até porque quando já estamos no limite, até achamos que a velocidade já é pouca, queremos ir ainda muito mais.

LMP: Como caracterizam o Circuito de Estoril?

CC: É uma pista que significa bastante para mim porque a minha primeira vitória foi cá. É um circuito completo ao nível de curvas, com curvas rápidas e lentas. Tem um traçado muito técnico. É uma pista que se completa muito bem. Tem muitos anos mas é sempre uma pista muita gira de que gosto muito.

JF: É uma pista bastante completa. Nós temos a felicidade de em Portugal termos dois autódromos de grande nível europeu. O Estoril, pelos seus anos e historial, ainda continua a ser muito moderno e muito completo em termos de traçado. E agora tendo Portimão, que se complementa bastante com o Estoril, faz com que tenhamos duas pistas muito boas a nível europeu.

A vitória na classe GTS e o 3º lugar da geral, permitiram a Campaniço e Figueiredo saírem do Estoril na liderança absoluta e da classe no CEGT. IMAGEM: © Andrew Remedios

LMP: E o momento mais alto das vossas carreiras até agora?

JF: Para mim são os títulos conquistados. Foi desde os karts, passando por um ou outro título no PTCC, e também os títulos do ano passado que foram alcançados por mim e pelo César. Os títulos de Campeão Nacional e Campeão Ibérico são sempre os títulos mais ambicionados, porque é para isso que trabalhamos durante uma época. E espero que este ano, já com a Taça de Portugal conquistada, tenhamos mais um.

CC: Os mais importantes são sempre os últimos, porque são aqueles para os quais trabalhamos. É claro que há alguns que ficam na memória, por exemplo, quando fui campeão europeu de karting. Na altura, fiquei à frente do Fernando Alonso, o que para mim ainda é um marco, só porque ele está h0je onde está (F1). Mas também tive o prazer de ter corrido com muitos campeões que ainda hoje estão na Fórmula 1.

Ao César e ao João, que foram para nós uns excelentes anfitriões no espaço de hospitalidade da equipa NovaDriver, agradecemos imenso a disponibilidade e simpatia.

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