24H Le Mans Dossiers Entrevista

António Simões em exclusivo ao lemansportugal: “A ASM irá ser a equipa de ponta da Zytek em 2011″

11 Jun 2010 // Vitor Ribeiro // 5 Comentários
6ª Parte de 9 artigos no Dossier O LeMansPortugal com a ASM Team em Le Mans

IMAGEM: ASM Team

Numa longa entrevista hoje concedida ao lemansportugal.com e conduzida pelo Hugo Ribeiro, António Simões, Director Geral da equipa ASM, levantou, em primeira mão, um pouco o véu sobre o futuro imediato da equipa portuguesa na 'endurance'.

Tendo já o ano passado, aquando dos 1000 Km do Algarve, manifestado a intenção da equipa portuguesa se mudar para a classe P1, aproveitando as alterações regulamentares previstas para entrarem em vigor em 2011, Simões vai agora mais longe revelando que a ASM acaba de ganhar o estatuto de parceiro privilegiado da Zytek Engineering e da Dunlop no desenvolvimento da versão P1 'híbrida' do actual protótipo!

O programa de desenvolvimento em que a equipa portuguesa irá estar envolvida incidirá essencialmente sobre a aerodinâmica e potência do motor do actual protótipo da Zytek e deverá ter início durante este Verão, incluindo um intenso programa de testes cujo início não está ainda calendarizado.

Desejo antigo do patrão da ASM, que assim vê recompensados os esforços e evolução da equipa no seu processo de afirmação internacional, este voto de confiança constitui certamente mais um factor de motivação para o futuro para uma equipa que tem crescido com naturalidade e com os pés bem assentes na terra, como se depreende das próprias palavras de Simões que aqui vos deixamos.

Le Mans Portugal (LMP): A ASM está na sua quinta participação em Le Mans. Desde a primeira vez - em que, pelo que já percebi das conversas com a equipa, foi se tivessem 'aterrado num outro planeta' - como é que avalia a evolução da equipa?

António Simões (AS): A evolução tem sido boa. A primeira vez é um momento de nunca nos vamos esquecer porque nos correu pessimamente – não nos podia ter corrido pior. Depois há sempre aquela tendência de pensarmos que já sabemos como é que é e vamos conseguir ultrapassar as dificuldades, mas não - o segundo e o terceiro ano ainda foram anos complicados, apesar de no terceiro ano já termos conseguido terminar a prova. Mas este ano... eu acho que nunca estivemos tão bem preparados como este ano. Aliás, não fazia sentido que assim não fosse. O ano passado também já tínhamos alguma experiência, suficiente para fazermos uma boa prova, mas ainda tínhamos o 'handicap' de não conhecermos bem a ‘máquina’, o que é fundamental nas corridas de resistência. É muito importante conhecer bem os pontos fracos da ‘máquina’, e isso é uma coisa que eu penso que está controlada este ano. A experiência dos anos anteriores e a experiência que já temos deste carro permitiu-nos começar a preparar esta prova com muita antecedência – já todos trabalhamos a pensar nesta prova há mais de quatro meses, aliás, mais ainda, quase há um ano, que pensamos nisto! E eu penso que o Team Manager e os técnicos da equipa fizeram um excelente trabalho até aqui – que foi visível nos treinos de ontem e anteontem. O carro está fiável, a equipa sabe o que está a fazer… eu penso que nunca tinha visto a equipa trabalhar tão bem como anteontem. Nesse dia estive particularmente atento ao trabalho da equipa e gostei muito de a ver trabalhar. De maneira que penso que temos todas as condições para ir resolvendo os problemas que vão surgindo ao longo destas provas, e este ano esperemos que tudo corra bem e consigamos passar o menos tempo possível nas boxes.

LMP: Quando há cinco anos o Miguel convidou a ASM a participar neste projecto, a experiência da equipa era ainda praticamente nenhuma a nível internacional. Em termos técnicos, como sente essa passagem de um universo mais limitado, como é o português, para o nível de uma prova como esta, por muitos considerada a maior corrida do mundo?

AS: Eu acho que na vida tudo é possível. Foi uma coisa em que sempre acreditei, porque se não pensasse assim nunca teria tentado, como tentei, chegar à Formula 1! Sempre fui um apaixonado pelas corridas de automóveis e achava que era possível eu ser piloto de F1! Ao princípio, as pessoas até podiam pensar que eu era maluco, mas provei que não era maluco. Na altura não consegui, mas outros conseguiram logo atrás de mim. De maneira que quando abracei este projecto, poucos o sabem, mas na altura a minha ambição era estar em Le Mans com uma equipa portuguesa – e também concretizei esse sonho, em 2006! Eu penso que nós, portugueses, temos qualidades, somos trabalhadores, e com formação e competência tudo se faz. De maneira que eu penso que a equipa cresceu naturalmente. Se calhar pela facilidade do meus acesso a Inglaterra, por eu ter lá vivido bastante tempo, por causa das corridas, conheci muitas pessoas, se calhar algumas das que me ajudaram nesta fase de evolução da equipa. Nós temos pessoas capazes de aprender, que depois de aprenderem evoluem, que é isso que temos estado a fazer ao longo destes anos. Aprendemos e, hoje em dia, somos considerados pela Zytek e pela Dunlop o parceiro ideal para 2011! Estamos por isso a dar provas de que somos uma equipa organizada, competente, profissional, que sabe fazer as coisas como deve ser.

LMP: A inexistência de um construtor automóvel em Portugal talvez condicione essa situação, mas sente que a equipa está já em condições de dar um passo no sentido de se tornar equipa oficial de um construtor?

AS: Sim, neste momento não me espantaria nada que houvesse um construtor que nos contactasse nesse sentido. Há muitos exemplos de equipas que se calhar foram convidadas para um projecto desses e, se calhar, não estavam ao nível que nós estamos neste momento. Por isso não me espantaria nada um convite desse. Mas, como disse, embora a Zytek não seja um grande construtor, neste momento, e depois de uma reunião que tive hoje com eles, está decidido que a ASM irá ser a equipa de ponta deles no ano que vem. O que nos enche de orgulho, claro. Mas que é fruto do nosso trabalho, da nossa lealdade, da nossa frontalidade e da nossa competência.

LMP: E para o ano, a ASM dá um passo de gigante, para a P1, para o meio dos ‘tubarões’…

AS: Não acho que seja um passo de gigante. É um passo natural, pois como sabe vai haver alterações nos regulamentos e nós, também depois de termos vencido a categoria P2, o ano passado, já só podíamos aspirar a repetir o que já fizemos. Por isso, a passagem para a P1 é natural, e mais natural se torna quando os regulamentos o favorecem. Repare que até financeiramente, o que pode parecer absurdo, nos favorece passarmos para a categoria principal. É claro que mais difícil vai ser conseguirmos resultados de relevo, pois vamos competir directamente , sobretudo nas 24 Horas de Le Mans, que é a prova mais importante, com os grandes construtores – e aí não temos qualquer hipótese – mas eu penso que no LMS podemos dar uma ar da nossa graça e provar que fazemos bem as coisas e estamos no caminho certo.

LMP: Há dois anos que a equipa trabalha com a Zytek e vê-se que existe um bom o relacionamento entre ambas as estruturas. Acredita que com um maior apoio da Zytek e com um novo regulamento que garanta um mínimo de equivalência e permita às equipas privadas e pequenos construtores lutarem de igual para igual com os grandes que a ASM poderá fazer um brilharete?

AS: Eu penso que sim! Eu penso que a era do diesel está a chegar ao fim, que vamos entrar na era dos híbridos, e a Zytek está muito bem posicionada nesse sentido, neste momento. A Zytek é uma empresa de alta tecnologia, que foi responsável pela produção do sistema KERS da equipa McLaren de F1, e tem interesse em continuar a desenvolver esse sistema nas provas de ‘endurance’ - e nós vamos ser a equipa deles nesse projecto. Por isso, acho que temos hipótese de fazer um brilharete. Aliás, na reunião que tivemos hoje com os altos responsáveis da Zytek, pareceu-me claro um compromisso da parte deles em evoluir o carro e torná-lo mais competitivo. Isto é fruto, se calhar, da conversa que tivemos aqui em Le Mans, faz agora um ano, em que consideramos que o carro era muito pouco competitivo face aos Porsche, e na altura questionamos a Zytek se não haveria a hipótese de trabalharmos no sentido de melhorarmos o carro para esta prova, visto que o carro era bastante competitivo nas outras corridas, do LMS, mas Le Mans é um circuito que exige muita performance – o que nós não tínhamos. O carro não tinha velocidade, a nível aerodinâmico não estava ao melhor nível, nem ao nível do motor. E eu penso que eles, na altura, não nos levaram muito a sério, pois fizeram alguns melhoramentos mas que ainda não são suficientes. Mas agora sinto que existe uma vontade enorme e um compromisso muito grande da parte deles para fazerem melhoramentos ao nível aerodinâmico, da suspensão e do motor.

LMP: Para o ano teremos então um Gineta Zytek ‘português’ híbrido?

AS: Vamos ter um Zytek híbrido, ou pelo menos vamos utilizar esse sistema, com pneus Dunlop e, espero, que mais competitivo que muitos P1 deste ano.

Ainda na expectativa de um bom resultado em Le Mans este ano, a ASM sabe já que irá estar directamente envolvida no desenvolvimento do Zytek 09S 'híbrido' para 2011. IMAGEM: Quifel ASM Team

LMP: No que respeita a pilotos, Miguel Amaral é, obviamente parte deste projecto. E Olivier Pla, é para continuar?

AS: É, em princípio é para continuar.

LMP: Ainda em relação aos híbridos, o ACO revelou as linhas gerais do regulamento para 2011. Que opinião tem desta nova regulamentação.

AS: Eu penso que o ACO quer atrair essas novas tecnologias não para aumentar as potências mas antes para reduzir as emissões de CO2 e contribuir para a poupança de energia. E é algo que a Zytek vai ter de trabalhar, pois o KERS da F1 era para criar energia para dar potência, enquanto aqui será para poupar, para se calhar dar mais uma ou duas voltas, se calhar para não termos de usar bateria ou alternador, ou motor de arranque… Enfim, é o futuro, e nestas corridas de ‘endurance’, mais uma ou duas voltas sem reabastecer é uma vantagem competitiva muito grande.

LMP: Não prevê mais confusão, nesse aspecto, pois se até agora o ACO já tinha revelado dificuldades em criar equivalência entre gasolina e diesel, agora vamos ter gasolina e diesel, gasolina/eléctrico e diesel/eléctrico e ainda há o Yves Courage que quer correr em 2012 com um carro 100% eléctrico - e sabe-se lá que mais: há por aí um showroom com veículos a hidrogénio…

AS: Talvez seja mais difícil para o ACO encontrar uma equivalência justa. Mas eu acho que o ACO tem feito bem o trabalho deles, e eu penso que vai continuar a fazê-lo. Eles querem claramente reduzir custos na categoria P2 e atrair novas tecnologias para a categoria P1. E depois dessas tecnologias estarem em prática, eles poderão eventualmente, como dizem, nivelar os andamentos. Penso que o ACO finalmente está a tentar fazer como se faz na América: primeiro verem a competitividade dos carros – aliás, eles fazem menção a isso, que os carros para irem a Le Mans terão de fazer as duas primeiras corridas do campeonato os testes de Paul Ricard, para avaliarem, e isso é uma suposição minha, a performance do carro, o que ele realmente vale - para depois limitarem ou não os andamentos. A economia também não está a favorecer, e eles também não querem perder muitos carros e este regulamento vem também esses sentido: 'a economia está mal, não vamos espantar os P1 todos, vamos deixá-los continuar, mas para irem a Le Mans, teremos de os ver correr primeiro e nivelar'. Aliás, uma das coisas que eu acho que foi garantida foi que os novos P1 do regulamento novo, como o nosso carro, têm de ser mais competitivos que os actuais P1 na versão do regulamento antigo.

LMP: Outras das medidas anunciadas foi a realização da Taça Intercontinental com um calendário de 7 provas, que inclui Le Mans. Sendo um campeonato a disputar em três continentes, haverá hipótese de envolvimento da ASM?

AS: Impossível. Não faz parte dos nossos planos esse campeonato. Os nossos alvos são o LMS e as 24 Horas de Le Mans.

LMP: Acredita, como há quem se queixe, que este campeonato possa ser uma forma de acabar com alguns campeonatos regionais, como os da América do Norte e da Europa, pois com sete corridas os grandes construtores irão provavelmente concentrar-se unicamente nelas, e o Le Mans Series poderá ter dificuldades em continuar a existir?

AS: Eu penso que o LMS irá continuar a existir, e até eu próprio sou levado a pensar se a Taça Intercontinental não será um campeonato mais direccionado para os grandes construtores, para a Audi para a Peugeot, deixando o LMS para os privados.

LMP: … ou semi-oficiais…

AS: Sim, ou semi-oficiais. Se reparar, quem é que já se comprometeu em fazer a Taça Intercontinental…

LMP: Audi, Peugeot, OAK com Pescarolo P1, Porsche e Ferrari, na GT2…

AS: Pois, será um campeonato que estará noutro 'universo', muito mais caro…

LMP: Mesmo recorrendo a soluções do género ir aos EUA à custa de pilotos locais que pagassem os custos?

AS: Não está nossos horizontes. Não digo que não, mas não está nos nossos horizontes… a menos que a Zytek e a Dunlop digam ‘vamos lá a Sebring, que a gente paga tudo’. Mas ainda não chegamos a esse ponto. A Dunlop vai continuar connosco, numa parceria que nos enche de orgulho, e a forma como isso nos foi comunicado na reunião de hoje, o bem que disseram da nossa equipa… Bem, e agora, temos só de definir planos com eles e preparar da melhor forma a próxima época.

LMP: Jean Todt, o presidente da FIA, vai estar em Le Mans durante o fim-de-semana, e já correm rumores de que o ACO poderá pedir a chancela de Campeonato Mundial para a Taça. Poderia o regresso do Mundial de Marcas ser um atractivo extra para atrair o investimento necessário para dar a ASM o salto.

AS: Não, nem penso nisso. O nosso problema é o nosso país ser muito pequeno e não ter tradição em desporto automóvel. Esse é também o ‘handicap’ da ASM - a falta de mercado, de dimensão, de empresas para as quais um apoio dessa natureza fosse possível.

LMP: Falando agora da presente edição das 24 Horas de Le Mans. A ASM fez o quarto tempo na qualificação, ficou satisfeita com a posição, mas os Acura/HPD estão extremamente fortes.

AS: Estão. Não sei se reparou, mas na comparação com os tempos do ano passado, o Acura veio tirar 3 segundos ao melhor tempo da Porsche. Portanto, se nós o ano passado tínhamos o 'problema' da Porsche por resolver, este ano o HPD/Acura veio levantar ainda mais a fasquia!  E isso explica também o abandono da Porsche, que sabia que não tinha hipótese de bater os Acura.

LMP: A Highcroft tem um trio de pilotos profissionais, mas a  Strakka não. Acredita que a performance não vai ser tudo e haverá factores extra a condicionar a corrida?

AS: Há sempre. Nesta prova há sempre factores extra. É claro que a Highcroft é a grande favorita, mas nós estamos logo ali e penso que o nosso ‘handicap’ de velocidade, a diferença dos nossos tempos por volta para os motores HPD, não será tão grande em corrida. Vamos continuar a ter algum ‘handicap’, mas não vai ser tão grande. E é nas boxes que se ganha a corrida, aqui em Le Mans. Bem sei que eles depois têm a vantagem de poderem fazer treze voltas, ou catorze, e nós doze ou treze…mas a prova é muito longa, vão haver interrupções, há o tempo – a instabilidade jogaria a nosso favor, mas parece que vai estar bom tempo – enfim, tudo é possível.

LMP: Sendo este o último ano da ASM na P2, sentem a necessidade de vencer?

AS: Necessidade não, não sentimos necessidade, mas eu gostaria muito de ir ao pódio. Acho que a equipa merece fazer um pódio com o P2 aqui em Le Mans.

LMP: No nosso website tem sido muitas as mensagens de carinho e apoio relativamente à ASM, por ser uma equipa portuguesa com uma grande parte de técnicos portugueses. Que mensagem lhes gostaria de deixar?

AS: Gostaria apenas de lhes agradecer a atenção e o carinho que têm para connosco, e irei pensar neles durante a corrida, pois sei que também ficarão contentes se a corrida nos correr bem!

A António Simões, o nosso obrigado pela simpatia e disponibilidade.

5 comentários até ao momento...
...deixe o seu!

  1. [...] de que António Simões já levantou um pouco o véu na entrevista que nos concedeu (ver aqui), a equipa portuguesa integrará o plantel da classe [...]

  2. carlos pereirinha diz:

    aprecio as entrevistas com o A.Simôes,porque è uma pessoa que tem os pès bem assentes no châo e que não quer dar passos mais compridos que as pernas e o resultado de tudo isso està à vista.apenas não concordo com uma coisa que ele diz e que a ASM è uma prova disso mesmo.è a desculpa do paìs ser pequeno,pois sâo as pessoas que fazem um paìs ser grande e nâo o contrário.força ASM,estàs a consegui-lo

  3. francisco gonçalves diz:

    só “Gentleman start your engines”.boa sorte

  4. Carlos Surgy diz:

    Todos “torcemos” para um pódio (no minimo) apesar de sabermos as contigencias de uma corrida de 24H, a ASM merece por todo o trabalho e competividade que tem demonstrado.

    E obrigado à ASM por mostrar que neste pequeno País há de facto muita qualidade e competencia, o que não é do conhecimento geral, nem dos próprios portugueses…
    Carlos

  5. Litleoak diz:

    Grandes noticias e grandes responsabilidades tambem, vamos ver se o espirito de colaboração que parece haver agora não se transforma em exigencia com a designaçãp de “equipa de ponta”.
    Quanto aos motores, começo a ficar com comichões ao pensar nas motorizações electricas, já hoje o Frank Biela dizia a proposito da apresentação do R8 electrico que o futuro de LeMans passava por motores electricos…quem adora o som do C6R ou o V12 A.Martin não quer acreditar nisso…
    Ultima palavra de admiração pelo A.Simões, mais uma vez lidera uma epoca no automobilismo português tal como à 26 anos, caro António está de volta o “RACING FOR PORTUGAL”

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