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Carroll Shelby recorda a vitória em Le Mans em 1959 com a Aston Martin
por Press Release, 7 de Junho de 2009 4 Comentários

Cartaz oficial das 24 Horas de Le Mans 1959, ilustrando o procedimento de largada que ficou famoso.
Há cinquenta anos atrás, Carroll Shelby, lendário piloto americano, formou como o inglês Roy Salvadori a dupla vencedora das 24 Horas de Le Mans desse ano ao volante do Aston Martin DBR1. Nas suas palavras, Shelby recorda essa histórica experiência que ele próprio define como o ponto alto da sua carreira desportiva.
"Foi uma experiência espantosa a que tive com a Aston Martin, marca pela qual sempre tive um especial afecto. Em particular, guardo imensas memórias de 1959, e todas elas bem diferentes. Gastámos litros e litros de óleo, por exemplo. No final da corrida, David Brown [o então dono da equipa] entrou no carro para volta de consagração. O quanto aquilo significava para ele; julgo aliás que ganhar em Le Mans era o que ele mais queria da vida. Quando ele percebeu que iríamos ganhar, vestiu-se com a sua melhor fatiota, com um novo caso desportivo e tudo. Mas mal entrou no carro, sentou-se naquela poça de óleo! Fiquei destroçado, vendo-o tão bem aprumado e já todo sujo de óleo! Mas julgo que, dadas as circunstâncias, ele não se tenha importado muito...
Naquela época, o nosso orçamento era de 150.000 libras [NdR: cerca de 170.000 €, a valores actuais] para a temporada completa. Tal como nesse tempo, a Aston Martin está a tentar este ano chegar longe com poucos recursos. Ainda tenho imenso respeito pela equipa e estarei a torcer por eles, lá em Le Mans.

Largada paras 24 Horas de Le Mans 1959, sendo visível o Aston Martin #5, em 6º lugar.
Muita coisa mudou desde então. Julgo que hoje dificilmente reconheceria a pista. Hoje, Le Mans é mais uma corrida de sprint que dura 24 horas. Naquela época era tudo muito diferente; era tudo um conjunto de compromissos. Não havia limitadores automáticos de rotações - apenas os nosso pés - e a caixa e a embraiagem não eram particularmente resistentes. Era mesmo de resistência que se tratava. Qualquer erro podia custar o motor.
É impossível comparar 1959 com 2009. Eu costumo dividir a história das corridas em eras, e não se pode dizer que uma era foi mais fácil ou difícil que a seguinte ou a anterior. É como comparar maçãs com laranjas. Mas a vontade de vencer, essa, tenho a certeza que não mudou assim tanto!

O Aston Martin DBR1/2 #5 vencedor das 24 Horas de Le Mans 1959.
Fisicamente, essa corrida de 1959 foi para mim muito difícil, uma vez que tive problemas de disenteria durante toda a prova - devo ter comido algo que me fez mal! Esse foi um dos meus maiores problemas, mas em Le Mans consegue-se passar por cima de qualquer desconforto e esquecer tudo o resto. É assim porque quando se tem uma hipótese de vencer em Le Mans essa é a hipótese de uma vida. Mas olhando agora para trás, deve ter sido bem perigoso pois não comi nada durante essas 24 Horas a não ser tabletes para a disenteria. E quando ganhamos a corrida - meu Deus - enfiaram-me tão repente uma garrafa de champanhe pela goela abaixo que fiquei logo zonzo! Estava tão cansado que mal me conseguia manter de pé ou pensar. Lembro-me de me ter ido abaixo logo a seguir e ter dormido durante 12 horas.
Os tempos mudaram mas de certeza adoraria conduzir um moderno LMP1. Os pilotos de corridas adaptam-se a qualquer máquina e vão aprendendo à medida que vão praticando. Foi sempre assim e sempre assim será. Para a corrida de 1959 não treinamos muito, porque não precisávamos. Já conhecíamos o circuito e, além disso, tínhamos 24 horas para responder a quaisquer questões que fossem surgindo. A prioridade era ir andando e não cometer erros. Acreditem, havia muito por onde as coisas nos pudessem correr muito mal. Ou alguém fazê-las correr mal por nós.
Nessa época, chovia provavelmente todos os anos, durante a corrida. Depois havia o nevoeiro, durante a noite, e os carros mais lentos, rodando a cerca de 130 km/h, que deviam seguir pela direita da pista - essa era a regra - enquanto nós seguíamos pela esquerda, entre os 250 e os 260 km/h. Só nos restava esperar que tudo corresse bem. E em 1959 correu mesmo.
O que não mudou, certamente, entre essa época e os dias de hoje, é o facto de Le Mans continuar a ser tão diferente de qualquer outra corrida em qualquer sítio do mundo. As 24 Horas são lendárias porque apresentam sempre um conjunto de problemas novos e diferentes comparativamente com quaisquer outras corridas. Estou convencido que ainda hoje é assim.
A minha mensagem pessoal para os pilotos da Aston Martin, antes de iniciarem a corrida do próximo fim-de-semana, é muito simples: transportem a bandeira. Roy Salvadori e eu estamos ambos orgulhosos de vocês. Oxalá esta maravilhosa equipa perdure por mais 50 anos e boa sorte para todos."
A Aston Martin agradece a Carroll Shelby a sua simpática participação nesta entrevista.
Press release da Aston Martin Racing
Tradução: Vítor Ribeiro, Junho 2009

O Aston Martin DBR1/2 vencedor das 24 Horas de Le Mans 1959, embora ostentando na imagem um número diferente. IMAGEM: Aston Martin Racing

Cockpit do Aston Martin DBR1/2. IMAGEM: Wouter Melissen/Ultimatecarpage.com

Motor do Aston Martin DBR1/2. IMAGEM: Wouter Melissen/Ultimatecarpage.com
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Gostei de ler estas ‘memórias’, servindo sempre para avaliar o que era correr as 24 horas nessa altura e como hoje, ainda assim, continuam a ser desgastantes para qualquer piloto que as enfrente.
Quem sabe também se mais adiante no tempo podemos ter um português a poder dizer o mesmo. Que era bom, lá isso era. Pode ser que seja nesta edição…
Nesses tempos a aventura era, penso eu, incomensuravelmente maior, em todos os aspectos. É quase como fazer uma viagem de cruzeiro num desses paquetes super luxuosos e imaginar o que seria cruzar o Atlântico numa caravela…
Muito bom o artigo. O site está excelente e tem mantido um fã brasileiro muito bem informado sobre o lado mais especial do automobilismo, deste e de outros tempos.
Obrigado.
Vai aparecendo, que é sempre bom contar com esse lado do Atlântico por aqui.