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ALMS / Baltimore: Rescaldo

Caos nas Ruas de Baltimore e vitória e título para Muscle Milk

por Andrew Remedios, 1 de Setembro de 2013 Sem Comentários

© Muscle Milk Pickett Racing

A palavra ‘Pandemónio’ resume a ‘hora e 10 minutos’ de Baltimore, uma prova atrasada (e reduzia) em uma hora devido a um autêntico choque em cadeia no primeiro arranque da corrida que atirou para fora da prova cinco carros, eliminando alguns dos favoritos nas classes P2 e GT. A Muscle Milk acabou por vencer uma prova extremamente acidentada, e garantir o título de campeão do ALMS e da categoria P1.

UM INÍCIO CAÓTICO...

O circuito citadino de Baltimore tinha sido, até este ano, o local de uma das corridas mais intensas e disputadas do ALMS. Até este ano! Na recta da meta a pista passa por cima de uma passagem de nível do eléctrico local e, devido aos perigos inerentes ao sobe-e-desce ao passar por esse local a alta velocidade, existe uma chicane imediatamente antes da passagem. Foi esse detalhe e a necessidade de passar ao lado da chicane no arranque e o entendimento, ou desentendimento, das regras a cumprir que geraram o caos no início da corrida.

O HPD ARX-03c #6 da Muscle Milk Racing conduzido por Klaus Graf partia da pole position, estando por isso colocado na fila da direita, enquanto Chris Dyson no Lola Mazda #16 da Dyson Racing, partindo em 2º lugar, estava colocado do lado esquerdo. Desconhecendo o teor concreto das directrizes dadas a estas duas equipas pelo director da corrida do ALMS, tudo levava a crer, pelos acontecimentos e palavras de Graf (e a penalização de Dyson), que os dois teriam que esperar que três linhas da grelha passassem pela passagem de nível antes de carregar no acelerador. Pelas imagens, parece que Dyson não fez isso, enquanto Graf o fez. O instinto normal de um piloto de automóveis quando vê alguém a 'pregar' fundo, é imitar. E enquanto os do lado esquerdo atrás de Dyson tinham esse 'privilégio', os do lado direito atrás de Graf não o tinham. Os primeiros a descobrir isso foram os dois P2 colocados nas linhas atrás do bólide da Muscle Milk...

Primeiro, Scott Tucker, no HPD ARX-03b #551 da Level 5, acelerou um pouco, travando logo a seguir face à imobilidade de Graf; só que Anthony Lazzaro, no HPD ARX-03b #01 da Extreme Speed Motorsports, parecia estar mais focado na fila da esquerda e só percebeu no último instante que Tucker ficara ‘parado’. Tarde demais. Na ânsia de evitar a colisão, Lazzaro desviou-se um pouco para a esquerda mas o toque era inevitável, tendo esse movimento brusco como resultado que o toque provocasse um peão ao HPD de Tucker.

A partir daí foi o caos completo. Enquanto o resto dos protótipos, e os primeiros GTs, conseguiram evitar o HPD descontrolado de Tucker, os três Porsche 911 inscritos em GT, como por azar completo,  envolveram-se todos, batendo em Tucker ou uns nos outros, e levando com eles o Ferrari da Risi e um dos Viper. Os Porsche da categoria GTC conseguiram parar a tempo e ficaram literalmente estacionados atrás de um muro de carros e bocados de fibra-de-carbono espalhados nas ruas de Baltimore. Felizmente, todos os pilotos saíram ilesos.

Vejamos algumas das reacções ao incidente:

Klaus Graf (HPD ARX-03c #6 da Muscle Milk Racing): “Foi uma corrida muito bizarra. Faço isto há muito tempo e eu nunca vi nada assim. Tenho imensa pena por todos os carros danificados. O primeiro arranque, para mim, foi um desastre absoluto. No regulamento, e no briefing, a informação era muito clara: que nós deveríamos passar lado a lado pela chicane e que eles queriam que três linhas passassem também por esse local e, em seguida, após a linha de caminho-de-ferro arrancávamos; e foi exactamente isso que eu fiz. O carro ao meu lado não fez nada disso. Ele entrou na chicane, acelerou, a fila da esquerda foi atrás; o lado direito não podia, e gerou-se o desastre.”

Tom Kimber-Smith (Porsche 911 GT3 RSR #06 da CORE Autosport): “Quando a luz verde acendeu, o BMW à minha frente e eu fizemos um bom arranque. Scott Tucker fez um peão à frente, tendo por isso o BMW se desviado para a esquerda sem que eu tivesse tempo para reagir. Tentei evitar Tucker, tanto quanto pude, mas choquei com ele de frente com bastante força. O resto é um pouco mais difícil de lembrar. Eu sei que estava a ser batido por todos os lado e depois estava a sair do carro.”

Anthony Lazzaro (HPD ARX-03c #01 da ESM Racing): “Infelizmente, a linha da frente decidiu começar a corrida na chicane e não era esse o objectivo. Por essa razão, o lado esquerdo arrancou, Chris Dyson acelerou, o Muscle Milk começou e depois recuou. Tucker avançou e desacelerou logo a seguir, e eu bati nele porque eu já estava a acelerar. Não havia nada que eu pudesse fazer. É uma pena começar dessa forma. Eu sinto-me mal pelos carros que ficaram danificados. Foi uma manobra um pouco amadora por parte da primeira linha.”

Bryce Miller (Porsche 911 GT3 RSR #48 da Paul Miller Racing): “Não era claro o que estava a acontecer à frente, porque o choque em cadeia foi iniciado algumas linhas à minha frente. Depois de falar com alguns outros pilotos, foi dar praticamente ao mesmo. Scott Tucker foi tocado e fez um peão na recta, e não havia mesmo para onde ir para ninguém. Estávamos todos com o pé no travão, e os que estavam atrás simplesmente abalroaram os da frente. Levei um toque de trás e fiquei virado para o lado, e depois o mesmo carro bateu-me na porta uma segunda vez e, de seguida, um terceira, quarta e quinta vez à medida que todos se meteram na confusão.”

Mesmo no novo arranque da prova, os da linha da frente voltaram a desentender-se, mas desta vez sem incidentes e obrigando todos a fazer mais uma volta de aquecimento.

P1: Título para Muscle Milk, Graf e Luhr no regresso de Dyson e Smith às corridaS

Olhemos agora para o que aconteceu na encurtada prova de Baltimore. Devido ao arranque considerado incorrecto de Chris Dyson no Lola #16 da Dyson Racing, a equipa foi penalizada com um Stop & Go, o que teria arrumado com a questão da vitória na corrida se não fossem as inevitáveis situações de neutralização de corrida habituais no ALMS, e ainda mais normais em circuitos citadinos balizados por muros de betão.

A sensivelmente 20 minutos do final da prova, e após o fim da terceira neutralização, Guy Smith, no Lola #16, aproveitou um abrandamento temporário de Lucas Luhr, no HPD #6, para se colocar na frente da corrida pela primeira vez. No entanto, Luhr voltaria ao seu ritmo normal e, a 10 minutos do fim, já estava de novo na liderança que seguraria depois até ao final. Com esta vitória, Graf e Luhr garantiram a vitória na classificação geral do campeonato, sagrando-se como os últimos campeões do ALMS.

Para Klaus Graf, “foi um grande dia para a Muscle Milk Pickett, vencendo o seu segundo campeonato consecutivo e pela sexta vez consecutiva este ano. É muito gratificante. Nunca tínhamos conseguido ganhar esta corrida antes, por isso é um bom dia. O pessoal fez um óptimo trabalho. Desde o ano passado nesta corrida, não tivemos uma falha mecânica, e penso que isso diz muito da organização em torno de Greg Pickett. Temos grandes engenheiros, grandes mecânicos e uma grande equipa para representar. Seja qual for o futuro, acho que fizemos um bom conjunto e divertimo-nos muito.”

Para a Dyson Racing foi o regresso da dupla Chris Dyson/Guy Smith ao volante Lola Mazda #16 e, nas palavras do britânico Guy Smith, “foi uma corrida maluca. Fizemos uma boa prova mas tivemos uma penalização que nos empurrou para trás e para fora da luta pela vitória, no reinício, mas olhamos em frente, corremos muito e alcançamos a Muscle Milk, chegando mesmo a ultrapassá-los. O carro estava bom, mas, nas últimas voltas, havia uma grande quantidade de tráfego de GTs e ele (Lucas Luhr) conseguiu retomar a liderança. Tentei manter-me o mais próximo possível, mas não consegui ter mais oportunidades e acabamos alguns segundos atrás. Estamos aqui para vencer, mas é bom estar a correr, a pressionar os outros e a obrigá-los a trabalhar pelas vitórias.”

Quem esteve ausente desta vez foi o DeltaWing, já que a equipa de Don Panoz e Dave Price ficou a preparar a versão coupé para a sua estreia na prova no Circuit of the Americas, daqui a 3 semanas.

P2: Após revolução ‘CÓsmica”, a vitória de Cosmo com a sua nova equipa

A prova de Baltimore começou no início da semana com o anúncio da saída de Guy Cosmo da Extreme Speed Motorsports a fim de integrar.... a equipa rival da ESM na categoria P2, a Level 5 Motorsports. Sem grandes explicações, tanto Cosmo como a equipa de Scott Sharp, deixaram nos comunicados de imprensa apenas agradecimentos mútuos pelo trabalho desenvolvido ao longo dos três anos em que Cosmo fez parte da equipa, primeiro em GT, com o Ferrari, e este ano com o HPD.

Quanto à corrida em si, e após o fim prematuro da corrida do patrão Scott Tucker e, consequentemente, a liderança no campeonato, coube a Marino Franchitti (2º da geral, a 4 pontos) e a Cosmo, no HPD ARX-03b #552 da Level 5 Motorsports, lutar pela vitória e pelo primeiro lugar da geral com Sharp (3º, a 8 pontos) e Lazzaro, no HPD ARX-03b #01 da ESM. Apesar da penalização de Lazzaro pelo toque no HPD #551 de Tucker, Sharp aproveitou as neutralizações (tal como a Dyson Racing) para se reaproximar de Franchitti nas voltas finais mas nunca conseguindo ameaçar muito o escocês que, assim, voltou a assumir a liderança da geral da categoria P2.

Para o escocês Marino Franchitti, da Level 5, “a equipa fez mais um trabalho fantástico este fim-de-semana. Depois dos problemas que tivemos na sexta feira, tivemos um carro fantástico para a corrida. E o Guy fez um óptimo trabalho. Tudo estava perfeito. Estou feliz por termos conseguido conquistar a vitória para esta malta.”

Para Scott Sharp, “O Anthony fez um bom trabalho, mesmo com a penalização, mas fomos capazes de nos manter na volta do líder. O Anthony foi capaz de fazer algumas voltas rápidas, o que foi óptimo. Uma situação de bandeiras amarelas aconteceu na altura perfeita, eu entrei no carro e mantive-me na mesma volta que a Level 5, e estava empolgado para perseguir o Marino mas, simplesmente, não consegui gerir o tráfego. Fizemos voltas mais rápidas que ele mas não tivemos sorte especialmente com os GTs. Parecia mais difícil para nós ultrapassar os BMW e Corvette e tentar alcançá-lo. Quando finalmente conseguimos, o Marino já levava uma grande vantagem.”

GT: A lei dos sobreviventes e domínio da Corvette

Quando um pelotão de onze leões ferozes fica praticamente sem cinco dos seus membros antes do arranque da prova, perde-se um pouco... mas só um pouco! Apesar dos três Porsche (incluindo o vencedor dos últimos dois anos, a Falken Tire) e dos dois Ferrari ficarem de fora em consequência daquel caótico primeiro arranque da prova, os BMW Z4 GTE da BMW Team RLL e os Corvette C6.R da Corvette Racing deram show do início ao fim.

Num autêntico jogo de xadrez, onde numa corrida tão curta o tempo mínimo obrigatório em pista para cada piloto poder pontuar no campeonato era crucial, a BMW Team RLL jogou essa carta com o BMW #56 de Joey Hand e Dirk Müller. Tendo em conta que Hand não estava a tempo inteiro no campeonato, a equipa aproveitou a primeira neutralização para trocar de pilotos e fazer o único reabastecimento que necessitavam.

A aposta teria tido êxito se não  fossem as outras duas neutralizações e, especialmente, um incidente causado pelo HPD #02 da ESM no arranque após a terceira neutralização, que obrigou Müller a abrandar, permitindo tanto a Tommy Milner, no Corvette #4, como a Jan Magnussen, no Corvette #3, ultrapassar Müller na recta da meta. Magnussen acabou por ultrapassar o seu colega de equipa Milner no final da recta numa manobra algo arriscada. E assim, a Corvette Racing fez a dobradinha deixando à BMW Team RLL os 3º e 4º lugares.

Para Jan Magnussen, "Foi uma corrida muito estranha - um sprint basicamente sem paragens nas boxes. Houve uma logo no início, quando a corrida se reiniciou, mas todos estavam à espera de saber o tempo mínimo obrigatório de condução. Tivemos alguns problemas com a paragem por causa de uma falha no rádio por isso não havia maneira de dizermos ao Antonio que as boxes estavam abertas. Ele tomou a decisão certa. Parou, deu meia volta e perdeu apenas algumas posições quando podíamos ter perdido todas. Foi bem pensado e uma boa reacção da parte dele. Depois disso, foi uma questão de dar o tudo por tudo."

Relativamente à ultrapassagem para a liderança, Magnussen acrescentou que "estava a tentar ultrapassar um dos BMWs, e este ficou preso atrás de alguém. Eu tinha que o ultrapassar e defender-me. Saí da trajectória e bloqueei os pneus na travagem, e acabei do lado de dentro de Tommy (Milner). Não foi uma manobra planeada, mas quando estava a meio dele, pensei 'Que se dane. Vou avançar!' Foi uma manobra limpa, e oTommy usou a cabeça. Nós estávamos apenas a tentar correr e maximizar os nossos pontos para meter ambos os Corvettes à frente da BMW. E conseguimo-lo."

Por seu lado, os SRT Viper GTS-R da SRT Motorposrts tiveram uma corrida acidentada. O Viper #93 de Kuno Wittmer esteve envolvido no choque em cadeia do primeiro arranque mas sofreu apenas alguns danos (especialmente no radiador), tendo a equipa aproveitado a paragem de uma hora para reparar o carro. No entanto, este nunca conseguiu lutar pelos lugares da frente. Em relação ao Viper #91 de Marc Goossens e Dominik Farnbacher, a história foi de azar nas boxes. Aquando da troca de pilotos, Farnbacher passou por cima do cabo de pressão dos colegas de equipa e ultrapassou a velocidade máxima nas boxes, o que lhe valeu um Stop & Go, e um 5º lugar final.

PC & GTC: Final Arrepiante

A grande notícia para a categoria PC antes da prova foi o ingresso da Starworks Motorsport no campeonato com vista à participação na categoria a tempo inteiro em 2014 no United Sportcar Racing Series (USCR). Como o anúncio foi feito muito em cima da prova, a equipa uniu esforços com a RSR Racing, comprando o ORECA FLM09 da equipa de Paul Gentilozzi e colocando Alex Popow no carro com Bruno Junqueira, 5º da classificação geral.

Tudo parecia correr bem para Popow e Junqueira no ORECA FLM09 #9 da RSR Racing. No entanto, um incidente com Dane Cameron no #52 da PR1 Mathiasen atirou Junqueira para fora da corrida, entregando a vitória a Colin Braun e Jon Bennett no #05 da CORE Autosport. Só que cálculos mal feitos por parte da equipa obrigaram a que Braun voltasse para as boxes a 3 minutos do fim para dar o carro a Bennett que não tinha cumprido o tempo mínimo obrigatório. A vitória parecia entregue então a Cameron, no entanto o Oreca #52 não estava bem nas últimas voltas, e com Tristan Nuñez no #18 da Performance Tech Motorsports logo atrás dele, a suspensão traseira esquerda daquele partiu-se violentamente, mas sem mais consequências para além do abandono da corrida. Com pouco mais de um minuto para o fim, a vitória ficou mesmo nas mãos de Nuñez e do seu colega de equipa Charlie Shears, após um fim-de-semana muito complicado para ambos.

Na categoria GTC dos Porsche 911 GT3 Cup, a grande notícia foi o atraso do líder do campeonato, Spencer Pumpelly e Nelson Canache Jr. no Porsche #45 da Flying Lizard Motorsports. Nas primeiras voltas da corrida, Canache Jr. foi forçado a ir às boxes devido a um grave problema no radiador e na refrigeração do Porsche. Com três voltas perdias, tiveram de contentar-se com o 7º lugar. À frente deles foi o costume desta categoria: luta até ao fim e alguma compensação para a equipa da Flying Lizard, já que o segundo carro da equipa, o #44 do patrão Seth Neiman e de Dion von Moltke, levou a vitória para casa. Atrás deles, foi uma autêntica batalha até à bandeira de xadrez, com quatro carros a lutarem até à última chicane pelos lugares do pódio.

Para Dion von Moltke, “os últimos 40 minutos foram basicamente a um ritmo de qualificação; passávamos por cima de cada curva e é um prémio para o pessoal que o carro tenha durado até ao fim. Foi a corrida citadina mais intensa em que alguma vez estive envolvido. Tínhamos uma vantagem de 34 segundos antes do último 'amarelo' e o arranque seria decisivo, e conseguimos abrir uma boa vantagem até o final. Juntar-me ao Seth para a sua primeira vitória no ALMS é muito significativo, tendo em conta os pilotos fenomenais com que ele já correu.”

É incrível como apesar do caos e do pandemónio, o ALMS ainda nos consegue oferecer uma corrida que vale a pena ver. No entanto aqui, apesar disso, com a quantidade de tempo perdido e os carros perdidos, a corrida de Baltimore foi também uma corrida do “o que mais poderia acontecer”.

O circo do ALMS ruma para a terra dos cowboys, o Texas, onde no Circuit of the Americas se juntará à caravana do Mundial de Endurance WEC daqui a três semanas para a primeira prova dos protótipos Le Mans nesta nova pista norte-americana.

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Fontes (declarações dos pilotos): comunicados de imprensa da Muscle Milk Pickett Racing, Dyson Racing, Level 5 Motorsports, Extreme Speed Motorsports, Corvette Racing, Paul Miller Racing e Flying Lizard Motorsports