História

18 de Fevereiro de 2008

Brian Redman (biografia)

Breve resumo biográfico de um piloto que teve o raro privilégio de correr e vencer com quatro dos mais fantásticos carros de corrida de todos os tempos - o Ford GT40, os Porsche 908 e 917 e o Ferrari 312PB - a propósito da publicação de uma entrevista dada em 2007 ao sítio Planetlemans.com

Brian Redman. Brands Hatch, 1974. Fonte: www.gorace.com

Quantos pilotos de corridas de automóveis haverá capazes de recusar um convite da mítica Ferrari para integrar a sua ‘scuderia’ de F1? Muitos poucos, certamente.
Ao lerem as razões porque Brian Redman o fez os mais apressados a colocar rótulos em tudo ou mestres na arte da simplificação dirão que ele teve medo. Medo? Não o teremos todos? Não será antes um grande acto de coragem e humildade reconhecer os seus próprios limites e recusar arriscar ultrapassá-los? Só os loucos, por incapacidade de discernir com rigor e clareza a realidade, não têm medo…

Brian Thomas Redman, nascido a 9 de Março de 1937 em Colne, no Lancashire inglês, para além dessa recusa, que não o impediria alguns anos mais tarde de correr para a Scuderia ao mais alto nível no antigo Campeonato do Mundo de Marcas, guarda ainda o raro privilégio de ter conduzido e vencido corridas, a nível oficial, com alguns dos mais fantásticos carros de corrida que fizeram as delícias dos adeptos de ‘sport – protótipos’ de uma das épocas douradas da categoria: com o Ford GT40, as 6 horas de Brands Hatch e os 1000 km de Spa, com Jacky Ickx,, em 1968; com o Porsche 908/2, as 6 horas de Brands Hatch, os 1000 km de Nürburgring e as 6 horas de Watkins Glen, com Jo Siffert, em 1969; com o Porsche 908LH, os 1000 km de Monza e os 1000 km de Spa, também com Jo Siffert, em 1969; com o Porsche 908/3, aTarga Florio, ainda com Jo Siffert, em 1970; com o Porsche 917K, as 24 horas de Daytona, com Pedro Rodriguez e Leo Kinunnen, os 1000 km de Spa, os 500 km de Imola e os 1000 km de Österreichring, com Jo Siffert, em 1970; e já com o Ferrari 312PB, os 1000 km de Spa, com Arturo Merzario; e os 1000 km de Österreichring e as 9 horas de Kyalami, em 1972, e os 1000 km de Monza e os 1000 km de Nürburgring, em 1973, com Jacky Ickx.

A estas podem-se ainda acrescentar mais umas quantas, com destaque para mais duas vitórias nas 24 horas de Daytona, em 1976 com Peter Gregg e John Fitzpatrick, ao volante de um BMW 3.5 CSL, e em 1981 com Bobby Rahal e Bob Garretson, ao volante de um Porsche 935/77, e outras tantas nas 12 horas de Sebring, em 1975 com Allan Moffat, ao volante de um BMW 3.0 CS L, e em 1978 com Bob Garretson, ao volante de um Porsche 935, constituindo marcos maiores de uma carreira invejável iniciada em 1959, ao volante de um Mini 1000 Traveler e que teria o seu epílogo no ano 2000, numa corrida da série Grand-Am, em Daytona.

Tendo conquistado a sua primeira vitória como profissional no ano de 1967, ao volante de um Mirage-Ford, nas 9 horas de Kyalami, Redman guarda como melhores recordações (assim o disse numa entrevista ao site ClassicRallies.com) a conquista do Campeonato Europeu de Sport 2 litros de 1970 para a Chevron na última curva da última volta da última corrida disputada em Spa, na frente do rival Jo Bonnier; a vitória nos 1000 km de Spa desse mesmo ano, partilhando um Gulf Porsche de John Wyer com Jo Siffert, numa prova corrida à extraordinária média de cerca de 240 km/h, média nunca antes alcançada numa corrida de automóveis; e a mítica Targa Florio; para além dos três títulos consecutivos na F5000 americana.

Com uma sólida carreira construída nos Sport e Gt’s, em que contribuiu para a conquista de quatro títulos mundiais de marcas (duas para a John Wyer, em 68 e 70; uma para a própria Porsche, em 1969; e uma para a Ferrari, em 1972) Redman não foi muito feliz na sua passagem pela F1, apesar de ainda hoje afirmar preferir os monolugares, com os quais aliás conquistou três dos seus cinco títulos – em ’74, ’75 e ’76, na F5000 americana, os dois primeiros à frente de Mário Andretti e o último na frente de Al Unser Sr – mas também sofreu dois dos seus três graves acidentes que por muito pouco não lhe custaram a carreira e mesmo a vida.

O terceiro lugar em Espanha, no seu segundo GP, augurava certamente outros voos, mas a sorte de Redman de F1 terá, provavelmente, ficado traçada naquele fatídico dia 9 de Junho de 1968, quando ao disputar o GP da Bélgica, o seu terceiro da carreira e da temporada, quase perde o braço direito em consequência do violento choque, em Les Combes, causado pela quebra de suspensão do seu Cooper.

Voltaria à F1 em 1970, primeiro pela mão de Rob Walker, na África do Sul, embora não tenha efectivamente corrido, e depois com Frank Williams, para a disputa dos GP’s de Inglaterra e Alemanha, sem sucesso, enquanto conquistava a Springbok Series, na África do Sul, com um Chevron B16/Spyder.

Em 1971, interrompendo uma curta retirada do automobilismo desportivo para ocupar o lugar de director da Richter Motors, representante da BMW na África do Sul, aceita o convite de John Surtees para disputar o GP daquele país, saldando-se a experiência por um 15º lugar na qualificação e 7º na corrida (a uma volta do vencedor mas à frente do Ferrari de Jacky Ickx e com uma volta de avanço sobre o seu colega de equipa Rolf Stomellen).

De regresso à Europa, e ainda nesse ano, terá novo encontro com a morte, desta vez na Sicília, na disputa da Targa Florio, que o marcará com graves queimaduras e obriga a delicadas intervenções cirúrgicas de reconstituição facial com enxertos de pele (que o levam ainda a hoje, diz ele, a avisar as senhoras que o beijam na face que lhe estão a beijar as ’nádegas’…).

Ao longo dos anos seguintes, e até 1974, as suas presenças em GP’s são esporádicas e nunca conseguirá fazer uma época completa, depreendendo-se das suas entrevistas uma certa mágoa por nunca ter podido mostrar o que valia realmente na disciplina. Dois quintos lugares e um nono, com a McLaren, e uma desistência, com a BRM, em ‘72; uma desqualificação em ‘73 e um sétimo lugar e duas desistências em ‘74, com a Shadow, serão o que resta da sua presença na disciplina rainha das corridas de automóveis até encerrar definitivamente esse capítulo já pouco confortável, segundo afirma, com o ambiente que se vivia na disciplina.

Seguem-se três anos de ouro na F5000 americana até que no início de 1977, nos treinos livres para a primeira corrida da temporada da renascida Can-Am, o seu Lola T333 levanta voo quando seguia a cerca de 270 km/h, eleva-se no ar cerca de 10 metros de altura, volta-se e cai de rodas para o ar, prosseguindo assim alguns metros até sair de pista. Pescoço, ombro, esterno e três costelas partidas, e uma paragem cardíaca que só a prontidão do socorro e a presença de em pista de um médico cardiologista foi possível reverter, obrigam-no a nova paragem mas nada que o impeça de voltar às corridas e conquistar, já em 1980, o primeiro campeonato IMSA GTP, com um Lola T600.

Nos anos 80 ainda fez parte da equipa Group 44 Jaguar, nos Estados Unidos e disputou o Mundial de Grupo C de 1989, com a Aston Martin, ao volante do decepcionante AMR1 num ano dominado pelo Sauber C9/Mercedes, com o melhor resultado, 4º lugar, a ser obtido em Brands Hatch, partilhando o volante com David Leslie.

O Jaguar XJR-5, da Group 44, que Brian Redman e Hurley Haywood levaram ao 8º lugar em Road America (IMSA), em 1985. Fonte: www.pbase.com/Mark Windecker.

Já noutras funções fora do ‘cockpit’, envolveu-se na F3000 no final dos anos 90, formando a efémera equipa Redman/Bright que fez alinhar um Lola T96/50 Zytec para o uruguaio Gonzalo Rodriguez, em ’97, e para os britânicos David Cook, Johnny Kane e Mark Shaw, em ’98, sem qualquer sucesso e apenas um sexto lugar conquistado como melhor resultado.

Rápido e consistente dentro de pista; calmo, confiável, simples e acessível fora dela - diz quem o conhece ou com ele partilhou aventuras nas corridas de automóveis - Redman, casado desde 1962 e pai de dois filhos, divide hoje os seus dias entre um merecido repouso na sua residência da Florida e a participação em corridas de clássicos com um Lola T330 F5000 de 1973, um Chevron B19 de 1971, um Lola T70 Mk III de 1968 e um Ford GT40, conduzindo ainda diversos modelos de coleccionadores privados em demonstrações e festivais com os de Goodwood e Monterey e promovendo anualmente a Brian Redman’s Jefferson 500 entre outros eventos clássicos como o primeiro Nassau Classic Car Festival, em 1997, o Double 50 Porsche Celebration, em Watkins Glen, em 1998, e as Porsche Rennsport Reunion.

Fontes:

www.gorace.com; www.planetlemans.co.uk; www.racing-database.com; www.classicrallies.com; www.vpracing.com; www.petersimonkarp.com; www.f1statistics.com; www.racingsportscars.com; www.gpracing.net192.com; en.wikipedia.org

POR Vitor Ribeiro

4 Comentários


4 comentários até ao momento...
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  1. GREG G diz:

    Gostei imenso deste artigo, nunca tinha lido artigo tão bom sobre este piloto que me lembro bem desde que fez equipa com ICKX no FERRARI 312PB em 73. Tem um palmarés soberbo!

  2. Desculpe-me, fiz uma confusão. Quis parabenizar o autor do artigo, Hugo Ribeiro.e não Vitor Ribeiro.

  3. Prezado Vitor, parabéns pelos seus excelentes e precisos textos.

  4. Hugo Ribeiro diz:

    Olá Francisco!
    O Autor da Biografia do Brian Redman foi mesmo o meu irmão Vitor Ribeiro

    Um abraço e bem vindo!

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