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24 Horas de Le Mans

Ainda a propósito das 24 Horas de Le Mans: algumas notas soltas e um ‘momento zen’

por Vitor Ribeiro, 19 de Junho de 2014 3 Comentários

© Jeff Carter. Fonte: FIA WEC

Feita a resenha da prova, não posso deixar de partilhar aqui algumas notas soltas e um ‘momento zen’ que a maior atenção que dediquei a estas coisas durante a passada semana me sugerem.

Fonte: motorsportmagazine.com

Ferrari 312PB, 1973: O último Ferrari (oficial) em Le Mans. Fonte: motorsportmagazine.com

1. Ferrari ou um D. Sebastião (eternamente?) perdido no seu próprio nevoeiro…

Começo, inevitavelmente, pelo rato parido por uma montanha de rumores inquestionáveis, convicções profundas e certezas inabaláveis que foi crescendo ao longo da semana até se desfazer numa mão cheia de coisíssima nenhuma na manhã de sábado. Estou a falar, como já devem ter percebido, do anúncio do suposto (ou suposto anúncio do) regresso da Ferrari aos sport-protótipos.

De facto, a julgar por aquilo que se foi lendo por esses dias, parecia até já estendida a passadeira ‘rossa’ (necessariamente…), afinada a fanfarra e preparados os confetes e as serpentinas. E quais ‘pedros’ a gritar à aldeia ‘vem aí lobo’ (neste caso, melhor seria dizer cavalo, empinado ou não…), não houve órgão de informação mais ou menos especializado que se preze e dedique algum do seu espaço ao WEC que não tenha de alguma forma dado eco àquilo que rapidamente se tornaria uma… ‘nãotícia’. A boa notícia (para os ‘pedros’, pelo menos) é que não (lhes) apareceu, ao contrário da história original, nenhum lobo; a má notícia, é que também não apareceu nenhum cavalo, nem ‘rampante’ nem de rompante. O problema? É que lá se teve de voltar a enrolar a passadeira, mandar a fanfarra tocar para outra freguesia e guardar outra vez os confetes e as serpentinas.

Com efeito, o anúncio do regresso da Ferrari foi uma autêntica ‘nãotícia’ mas que alimentou discussões (e page views, pois claro...) ao longo de muitos dias, e à qual apetece aplicar a célebre resposta de Mark Twain ao (falso) anúncio da sua morte: parece-me que as notícias [sobre o anúncio do regresso da Ferrari] são manifestamente exageradas… Mas serão mesmo? Estas, pelo menos, eram.

E eram-no por resultarem mais de deduções geradas por um ‘wishfull thinking’ persistente que por aí campeia do que pela realidade ou ‘inside information’ fiável. De resto, tal como noutras ocasiões, tão depressa essas deduções são - há que reconhecê-lo - alimentadas por declarações (propositadamente?) ambíguas de responsáveis da própria marca, como, logo de seguida, esses mesmos responsáveis (ou outros) se desdizem e remetem para as calendas gregas qualquer decisão. Foi de resto mais ou menos assim que Luca de Montezemolo encerrou a questão ao atirar para ‘não antes de 2020’ um eventual regresso da marca do ‘cavalino rampante’ à alta-roda da endurance, que é assim como quem diz… no ‘dia de São Nunca-à-Tarde’. A sério? Certo, certo é que Montezemolo não dura na Ferrari para além de 2014...

Quer isto dizer que a marca italiana não está a planear regressar à endurance? Não necessariamente - onde há fumo, geralmente… há fogo. O que isto quer de facto dizer é que a ‘nãotícia' que deu origem a todo este frenesi informativo era, simplesmente… falsa. De facto, não estava, nem nunca esteve previsto qualquer anúncio da Ferrari para este fim-de-semana. Mas que valerá a pena estar atento ao que o futuro próximo nos reserva, garantimos que sim.

A sugestão que deixo é por isso que não levemos a sério tudo o que vem do outro lado do Atlântico, deixemos a Ferrari em sossego, não desesperemos, e disfrutemos do presente; um presente que tem já tanto de bom, como o futuro próximo de verdadeiramente entusiasmante, podem ter a certeza! – e não estou a falar só do regresso da Nissan…

© FIA WEC

© FIA WEC

2. LMP2: Pilotos profissionais, já! Ou talvez não…

Também por estes dias, o ACO fez saber que está a estudar a abolição da categorização de pilotos na classe LMP2. A medida, no entanto, só deverá ser aplicável ao WEC, o que se justifica já que se pretende ser esse campeonato o pináculo das corridas de automóveis, e a condição de pináculo não é compatível com pilotos que, pese embora a boa vontade, estão bem longe da excelência ou abaixo da média.

Abrem-se assim as portas a uma maior profissionalização desta classe e a um vastíssimo mercado de pilotos saídos das fórmulas de promoção, muitos deles de enorme qualidade, mas que não encontram lugar (decente) para prosseguir as suas carreiras, seja por falta de espaço ou, em boa (se não a maior) parte das vezes, de dinheiro.

A LMP2, como se tem visto – e próprio caso do Filipe Albuquerque, colocado pela Audi na Jota Sport a disputar o ELMS, é um bom exemplo – constitui uma excelente antecâmara de acesso ao mundo, necessariamente restrito, dos LMP1. Mundo restrito esse que, mesmo assim, e note-se bem, tem actualmente muitos mais pilotos ‘não pagantes’ (e atenção: não se confunda piloto ‘pagante’ com gentleman-driver, ou não-profissional, pois são coisas distintas) que a própria F1 - onde, supostamente, só deveriam estar os melhores; e os melhores não deveriam necessitar de angariar patrocínios para assegurar um lugar numa equipa desse universo, pois não?

Concordo de facto com aqueles que defendem que, a este nível, não deveria haver qualquer distinção, fazendo-se esta em pista pelos méritos próprios de cada um: sou de opinião que qualquer gentleman-driver endinheirado e minimamente preparado (e aí, sim, é que admitiria algumas regras de admissão) deve ter o direito de cumprir os seus sonhos de se medir com os melhores; mas se não tem unhas para tocar guitarra, terá necessariamente de se contentar em acompanhar a música com ferrinhos ou pandeireta fazendo os possíveis para não desafinar em demasia… ou seja, aceitando as regras, que deviam ser iguais para todos, do jogo. Na teoria, parece-me simples e linear. Mas... e na prática, será assim tão simples?

Não sejamos ingénuos. Há quem sonhe com o dia em que todas estas corridas serão disputadas apenas por profissionais pagos para correr. Desenganem-se. As corridas de automóveis são uma actividade cara e só ao alcance de (uma imensa maioria de) mais ou menos privilegiados ou (muito poucos) superdotados. E como alguém tem de pagar as contas, e poucas são as equipas capazes de angariar orçamento que lhes permita ir ao mercado buscar os melhores pilotos profissionais disponíveis, a maior parte terá de se contentar com aqueles que, profissionais ou não, dispõe dos apoios pessoais necessários para o efeito. Ou, quando muito (e como sucedeu com a ASM Team num passado recente, estão lembrados?), há um ‘senhor feliz’ que paga as contas, permitindo a um ou dois ‘senhores contentes’ não se preocuparem com essas minudências e limitarem-se a correr o melhor que sabem. Há muito tempo que é assim (ou sempre o foi) e não vejo que isso venha a mudar nos tempos mais próximos.

É por isso, e apesar do que atrás disse, que me parece correr esta medida o risco de ser um pau de dois bicos - ou faca de 'dois legumes', como dizia o outro. Porquê? Simplesmente porque ‘sem dinheiro não há palhaço’, e por muito que custe admiti-lo a muitos de nós, o sucesso recente da classe LMP2, nomeadamente no LMS, não terá tanto a ver com a regra dos custos controlados (respeitante aos carros e seus componentes propriamente ditos), mas com a possibilidade que o regulamento abre a qualquer gentleman-driver de correr para ganhar, inclusive nas 24 Horas de Le Mans – ou alguém está à espera que um Simon Dolan (como, no passado recente, o Miguel Pais do Amaral) ‘enterre’ ali o seu dinheiro sabendo que as hipóteses de ir além do fundo da tabela eram ínfimas e estavam dependentes de uma hecatombe à sua frente? Mesmo para quem alimenta caprichos dispendiosos convenhamos que haverá limites.

Sabemos que a ideia original do WEC era ser aberto apenas aos LMP1 e GTE-Pro, servindo os planteis ‘regionais’ do ELMS, AsLMS e ALMS (ou o seu sucessor em terras de Tio Sam), abertos apenas aos LMP2 e GTE-Am, para preencher as grelhas (porque fazer o Mundial sai caro, não está ao alcance de qualquer um, e por isso são poucos os concorrentes) nas provas europeias, asiáticas e americana, respectivamente, do Mundial. Seria de facto uma solução interessante. Só que esbarrou na intransigência dos construtores em abdicar de mercados como o brasileiro e do médio-oriente, importantes para os seus departamentos de marketing e vendas...

Ora, terá sido então por não haver nesses países e regiões quem preenchesse as grelhas que se teve de abrir as portas aos ‘Am’ no Mundial, pois não dava jeito nenhum fazer um Mundial com meia-dúzia de gatos-pingados. Mas fechá-las novamente será abdicar desses concorrentes – a menos que o ACO tenha garantias (?) de que os gentlemen que financiam as equipas ‘Am’ abdiquem de correr ou essas equipas encontrem financiamento alternativo para contratar um ‘Pro’ para o seu lugar (o que seria estranho, pois se não o fazem já por alguma razão é, ou estarei a pensar mal?). Confusos? Pois…

Simplificando então: o problema é ainda não se ter descoberto ou inventado forma de ter, ao mesmo tempo, sol na eira e chuva no nabal. E o que o ACO tem procurado é um pouco isso. Só que não é fácil encontrar o equilíbrio certo entre o que nos parece o ideal, em teoria, e o que a realidade prática nos impõe. A seguir pois com atenção.

Nick Heidfeld no Race Camp da GT Academy em 2013. Fonte: Nissan Motorsport

Nick Heidfeld no 'Race Camp' da GT Academy Alemanha, em... 2013. Fonte: Nissan Motorsport

3. Nissan LMP1: Nick Heidfeld e... quem será o senhor que se segue?

Concluída mais uma edição das 24 Horas de Le Mans, o calendário das provas de endurance prossegue já no próximo fim-de-semana com as 24 Horas de Nürburgring. E entre os muitos pilotos de primeira linha habitualmente escalados para a prova disputada no mítico Nordschleife conta-se este ano Nick Heidfeld, que estará ao volante de um… Nissan GT-R Nismo GT3 da equipa oficial da marca nipónica. Vai uma aposta em como a ligação do piloto alemão à marca de Yokohama não deverá ficar-se pela pista que serpenteia pela floresta que envolve o velho castelo de Nürburg?

Já agora, ainda a propósito do programa Nissan LMP1, deixem-me lançar aqui mais um desafio: quem será o piloto que tem andado por aí a correr com um motor Nissan atrás das costas, na LMP2, e que deverá estar a caminho de ascender de classe tornando-se também piloto oficial da marca nipónica naquele programa? Já aqui antes deixamos uma dica…

A capa do AutoSport desta semana

A capa do AutoSport desta semana

4. Autosport: Não há fome que não dê em fartura…

Quando este site nasceu, há cinco anos e alguns meses atrás, pouca atenção mereciam as corridas do universo Le Mans neste país. Essa foi, aliás, uma das razões que me motivou a desafiar o Hugo para este 'frete'. Já havia Audi e também havia Peugeot, havia Pedro Lamy na Peugeot na luta pela vitória à geral, e também havia João Barbosa (entretanto ‘esquecido’ lá nos States…) na histórica Pescarolo, mas... a F1 secava tudo à sua volta e pouco espaço deixava para que, para além dos ralis do Mundial, mais alguma coisa florescesse e pudesse respirar minimamente. Longe iam, de facto, os tempos dourados do Mundial de Marcas e dos Grupo C e das coberturas extensivas do jornal Autosport, que eu devorava então de fio a pavio.

Mas eis que este ano, numa espécie de crescendo que se vem, é justo reconhecê-lo, a acentuar desde há algum tempo, dou comigo (agradavelmente) surpreendido pela cobertura da prova feita pelo Autosport. Depois de anos de voluntário esquecimento (sejam quais forem as razões) parece que o velho semanário ‘dos campeões’ finalmente (re)descobriu as corridas de resistência a que, até há bem pouco tempo, pouco mais dispensava que uma nota de rodapé. É só ver a quantidade de posts publicados no site oficial e comparar com o passado. Só me falta saber se isso terá reflexo na edição em papel, em forma de reportagem como deve ser e a história do semanário merece. De qualquer forma, é um ‘regresso' (este sim…) que se saúda e espera que seja para ficar... mas sem alguns excessos de 'notícias' que me pareciam mais bem aplicados no (e típicos do) facebook, e outras coisas do género.

Parece que também começa a não faltar gente por aí, na blogosfera, a descobrir que as corridas de automóveis não se cingem à Fórmula 1 - diz-me o Hugo, que eu confesso andar a isso pouco atento por manifesta falta de disponibilidade. Ainda me lembro de quando ao Hugo foi vítima, no passado, do administrador de um fórum que recusou abrir um espaço próprio nesse fórum para se falar destas corridas porque achava que entre os membros do mesmo não havia suficientes interessados… Hoje, parece já interessar a muita gente, já passou a estar na moda e já ninguém quer ficar atrás. É sempre assim: há-de haver sempre quem tenha razão antes do tempo (passe a imodéstia) e quem apenas goste de cavalgar as modas. Estará na hora de irmos à nossa vidinha, agora que o objectivo está (estará de facto?) cumprido? Talvez sim, talvez não. O futuro próximo o dirá.

5. Eurosport Portugal ou a arte de saber fazer (bem) televisão.

Este ano acompanhei (quase) na íntegra a transmissão das 24 Horas de Le Mans através do Eurosport Portugal, algo que só havia feito há uns anos atrás, nos tempos da ASM Team - se bem que à época a transmissão não fosse contínua nem integral. Também não tem sido hábito meu acompanhar a transmissão das outras provas do Mundial ou ELMS através desse canal - a maior parte das vezes porque simplesmentes não vejo as corridas, as outras por razões de carácter técnico e logístico.  Por isso, embora tivesse boa impressão, não podia dizer que tivesse uma ideia muito formada sobre o estilo dos comentários. Agora já posso dizer que tenho, e gostei. Bastante. Chapeau!

É claro que, como é natural, teve os seus altos e baixos, sobretudo no que respeita à qualidade dos convidados – ou, melhor será dizer, à qualidade da da intervenção destes, pois nem todos conseguem ter o à vontade necessário para enfrentar os microfones sem que isso signifique que as pessoas em causa não possam ser ou ter, potencialmente, coisas interessantes para dizer. Mas, globalmente, o trabalho da equipa constituída pelo João Carlos Costa, Ricardo Grilo,  Miguel Roriz e Vítor Sousa - e à qual se juntou o ‘nosso’ Pedro Correia - está de parabéns e só nos pode, a nós, fãs e espectadores, deixar satisfeitos (e orgulhosos, quando confrontamos esse trabalho com o feito noutras línguas). Pelo menos a mim deixou. Mesmo quando algum deles se mostra impressionado por ver uma mulher por ali, em ‘tão alto cargo’ (já lá vamos…), ou decide (vá-se lá saber porquê…) incluir o Miguel Roriz e o Vítor de Sousa numa categoria à parte que não de… pessoas.

No entanto, e embora não seja frequentador assíduo das redes sociais, percebi que há quem ponha em causa e critique, com mais ou menos virulência, o modelo ‘tertuliano’ adoptado pelo João Carlos Costa e pelo Ricardo Grilo.  É natural; não se pode agradar a todos. Mas qual é então a alternativa, o modelo ‘relato de futebol’? Não, obrigado! Eu prefiro assim, que me falem do que não vejo ou tenho acesso. Dispenso a redundância. Não preciso que me digam que estou a ver o que... estou a ver. Por isso, caros João Carlos Costa, Ricardo Grilo e restante equipa: continuem assim, que (agora já posso dizê-lo convictamente) ganharam em mim mais um fã. E venham mais, que esta já era e a próxima anuncia-se ainda melhor!

6. Momento zen ou os riscos e dificuldades do directo televisivo.

Ainda a propósito do acompanhamento da prova feito pelo Eurosport Portugal, vou aderir à moda dos ‘momentos zen’, para chamar aqui à estampa uma frase que o João Carlos Costa (JCC) deixou escapar (inadvertidamente), aos microfones daquele canal, no final da terceira sessão de qualificação. Uma frase que invoco aqui, não para criticar o autor (e quero que fique bem claro que não é, de todo, essa a ideia, muito pelo contrário, como explicarei a seguir), mas para chamar a atenção para duas questões que me parecem pertinentes e oportunas. Uma, tem a ver com a mentalidade sexista que nos é socialmente inculcada e que, em certa medida, ainda prevalece no universo das corridas automóveis; a outra, remete para as dificuldades do directo televisivo.

Leena Gade entre os seus 'meninos' Benoît Tréluyer, Marcel Fässler e André Lotterer. Fonte: Audi Motorsport

Leena Gade entre os seus 'meninos' Benoît Tréluyer, Marcel Fässler e André Lotterer. Fonte: Audi Motorsport

Mas vamos primeiro à frase, proferida a respeito de Leena Gade, a já famosa engenheira da Audi responsável pelo carro, e respectiva estratégia de corrida, do trio maravilha Andre Lotterer/Benoit Treluyer/Marcel Fassler: “É impressionante termos uma mulher numa posição tão importante como esta.” De facto é, impressionante. Mas o que é impressionante não é o que o JCC de facto disse, mas aquilo que ele quis efectivamente dizer: SÓ haver UMA mulher numa posição tão importante como essa; ou, ESTA mulher tem de ser absolutamente excepcional para ter conseguido derrubar o muro do preconceito sexista e chegar a uma posição tão importante como essa.

Crescemos, hoje talvez menos que na geração a que eu e o JCC pertencemos, a acreditar, porque a isso eramos levados, de que há actividades ‘masculinas’ e actividades ‘femininas’, ou, de alguma forma, mais ‘adequadas’ a cada um dos sexos. E por mais que, ao longo da vida ou no confronto com a sociedade em que nos inserimos, rejeitemos o simplismo dessa dicotomia e a afastemos do nosso consciente, a inculcação, de tão persistente e socialmente generalizada, deixa sempre marcas profundas que, ainda que involuntariamente (como foi certamente o caso), nos podem trair nos piores momentos.

Ora, e agora entramos na segunda questão, é precisamente porque valorizo as dificuldades do directo televisivo que acredito não ser esse o pensamento do excelente profissional que é o JCC a respeito do envolvimento de mulheres na competição automóvel, ou no mundo automóvel em geral. Dificuldades que advêm do facto de o directo constituir uma espécie de acrobacia sem rede em que... qualquer ‘descuido’ pode seignificar a 'queda' e consequente ‘morte’ do artista. Por isso, repito, esta não é, de forma alguma, uma crítica pessoal, mas sim a uma mentalidade que, não sendo certamente a dele, é ainda socialmente prevalecente e nos condiciona ainda, a muitos de nós - e contra mim falo -, mesmo que inconscientemente.

E daí que não comungue da maior parte das críticas que já vi fazer aos jornalistas que enfrentam o directo televisivo, ignorando que, por muito boa que seja a preparação prévia (e não se julgue que eles, se forem verdadeiros profissionais, a ela não se obrigam necessariamente), a probabilidade de dizerem algo inusitado, cómico, ridículo, polémico ou histriónico, mas que lhes saiu espontanea ou inadvertidamente, é elevada. E só excelentes profissionais e comunicadores, como é o caso do João Carlos Costa, conseguem reduzir ao mínimo essa probabilidade e manter o espectador 'agarrado' ao ecrã. Experimentem os críticos fáceis, os que estão sempre prontos a apontar o dedo, e logo me dizem se (enfrentar microfones e câmaras em directo) é assim tão simples como julgam.