Dossiers

A participação feminina em Le Mans

por Vitor Ribeiro, 31 de Maio de 2007 2 Comentários

O Bugatti 40 de Odette Siko e Marguerite Mareuse, em 1930

O Bugatti 40 de Odette Siko e Marguerite Mareuse, em 1930

Dossier: 75ª Edição das 24 Horas de Le Mans — Parte 4 / 9

Num mundo (ainda) tão profundamente masculino como é o das corridas de automóveis não surpreende que a história da participação feminina nas "24 Horas de Le Mans", apesar de longa e quase tão antiga como a própria prova, esteja reduzida a apenas 48 nomes, qualquer coisa como 1,65% do total de cerca de 2901 pilotos registados nas listas de participantes.

Essas 48 senhoras representam 108 presenças à partida, num universo total de 8628, ou seja 1,25% do total de presenças na prova, e 53 registadas à chegada, com o melhor resultado a acontecer em 1974 e 1976, em de que das 6 senhoras à partida todas lograram terminar a corrida, e em 1935, com um saldo de 7 para 10.

Há quem afirme que esse reduzido número, e sobretudo o facto de entre 1951 e 1971 não ter havido qualquer mulher a correr na mítica prova, se deverá ao conservadorismo da organização, que de uma forma ou de outra terá impedido ou dificultado a inscrição de mulheres-piloto.

Certo é que após um pico de presenças femininas durante os anos 30 - com o recorde de 10 senhoras à partida registado em 1935 e nunca mais batido, 7 presenças em 1937 e ainda 6 em 1938 - as mulheres desapareceriam das listas de inscritos das "24 Horas" durante a totalidade das décadas de 50 e 60: após as 4 presenças em 1949 (1) e 1950 (3), primeiras edições após o interregno do pós-guerra, só em 1971 voltaria a haver uma senhora à partida para a corrida.

Marie Claude Beaumont (à direita) e Lella Lombardi no Alpine Renault A441C com que disputaram as '24 Horas' de 1975

Marie Claude Beaumont (à direita) e Lella Lombardi no Alpine Renault A441C com que disputaram as '24 Horas' de 1975

Marie-Claude BEAUMONT (F), cuja inscrição havia sido recusada em 1970, não desiste e volta à carga no ano seguinte, lutando para que os ventos de mudança que haviam varrido a Europa e os EUA na segunda metade dos anos 60 se fizessem sentir também no circuito de La Sarthe e obrigando os organizadores a 'abrirem a porta' com receio da má imagem pública que poderiam dar.
Beaumont repetiria a presença nos anos seguintes até 1976, tornando-se assim a segunda mulher com mais participações (6) em Le Mans.

Loira e bem 'apessoada', Marie-Claude herdou do pai, piloto de ralis, o gosto pelos automóveis, tendo-o acompanhado no campeonato francês até ela própria se tornar presença assídua e bem sucedida com várias taças das senhoras em ralis (incluindo o Rali de Portugal) vários títulos de campeã francesa de ralis, um 4º e um 6º lugares absolutos no campeonato francês de ralis, um título de campeã francesa de Turismo, com 3 vitórias à geral absoluta e ainda um 6º lugar nos 1000 km de Mugello e um 4º nos 100 Km de Monza.

O Bugatti 40 de Odette Siko e Marguerite Mareuse, em 1930

O Bugatti 40 de Odette Siko e Marguerite Mareuse, em 1930

As primeiras mulheres, naquela que foi também a primeira dupla feminina, a alinharem à partida para a clássica francesa, no entanto, foram Marguerite MAREUSE (F) e Odette SIKO (F), em 1930. Ao volante de um BUGATTI Type 40, as duas pioneiras acabaram no 7º lugar entre 9 classificados dos 17 concorrentes à partida, constituindo esse o melhor resultado de sempre, à geral, de uma dupla feminina.

Em 1932, a mesma Odette Siko, agora partilhando o volante de um ALFA ROMEO 6C 1750 com Louis CHARAVAL (F), alcançaria a melhor classificação feminina de sempre: 4º lugar, entre os 9 classificados dos 25 que alinharam à partida.

O Chevron B23 de Christine Beckers, Marie Laurent e Yvette Fontaine, em 1974

O Chevron B23 de Christine Beckers, Marie Laurent e Yvette Fontaine, em 1974

Os anos 70 representariam o segundo pico de presenças, com 8 presenças registadas no ano de 1975 e 6 em 1974, 1976 e 1977, mas só em 1974 as senhoras voltariam a ocupar classificações de relevo, com a belga Christine BECKERS e as francesas Marie LAURENT e Yvette FONTAINE a tornarem-se as primeiras mulheres a conquistar a vitória numa categoria (Sports 2 litros), ao volante de um CHEVRON B23 equipado com motor Ford Cosworth FVC. No entanto não iriam além do 17º lugar da geral, entre 20 classificados, quatro lugares atrás da debutante Annie-Charlotte VERNEY (F), que iniciaria nesse ano ao volante de um PORSCHE 911 Carrera RSR (que partilhou com outra senhora, Martine RÉNIER, e Pierre MAUROY, seus compatriotas) uma série de 10 participações consecutivas com as quais se tornaria a recordista feminina de presenças em Le Mans.
E se o 4º lugar de Siko e Mareuse continua a ser a melhor classificação absoluta de sempre, o 6º lugar de Verney em 1981 (com os americanos Bob GARRETSON e Ralph KENT-COOKE, conduzindo um Porsche 935 K3) acaba por ter mais expressão em termos relativos, já que é conquistado entre os 18 classificados dos 55 presentes à partida.

Também originária do ralis, de qual foi campeã de França ('74 e '75) e vice-campeã mundial ('81), tendo sido a primeira e (até data) única mulher a ganhar ralis do Mundial, Michèle MOUTON (F) também tentou a sua sorte em Le Mans. Em 1975, na sua única participação, ao volante de um MOYNET LM75 e na companhia das suas compatriotas Christine DACREMONT e Marianne HOEPFNER, não foi além do 21º lugar, ainda assim honroso, já que conquistado entre 30 classificados dos 55 que iniciaram a corrida e tendo inclusive ganho a categoria Sport 2.0 litros.

A partir do fim dos anos setenta, a presença feminina em Le Mans embora se mantenha constante tem sido bastante diminuta, apenas se tendo registado mais de 3 presenças em 1980, 1991 e 2001, tendo o melhor resultado absoluto neste período sido conseguido em 1983, por Désiré WILSON (ZA). Fazendo equipa com os alemães Axel PLANKENHORN e Jürgen LÄSSIG ao volante de um Porsche 956, a sul-africana, uma das 5 mulheres que já passaram pela Formula 1, conquistou nesse ano um 7º lugar entre 20 classificados tendo-se mantido no top-ten desde a 7ª hora.

Vanina Ickx, ao volante do Pescarolo 01 da Rollcentre Racing, que partilhou com João Barbosa (P) e Stéphane Gregoire (F), durante as 24 Horas de Le Mans de 2008

Vanina Ickx, ao volante do Pescarolo 01 da Rollcentre Racing, que partilhou com João Barbosa (P) e Stéphane Gregoire (F), durante as 24 Horas de Le Mans de 2008

Mais recentemente, Cláudia HUERTGEN (D), Milka DUNO (VEN), Vanina ICKX (B), filha de "Monsieur Le Mans" e Liz HALLIDAY (USA) juntaram os seus nomes à lista mas pouco acrescentaram à história.

Refira-se no entanto que Vanina em 2003 fez equipa com o pai de Sebastien Bourdais, Patrick Bourdais, e em 2005 partilhou o volante do DALLARA LMP nº 18, da Rollcentre (que chegou a rodar no 3º lugar, à 4ª hora) com o 'nosso' João BARBOSA.

Fontes:

www.lemans.org bitacora.kcslot.com; www.planetlemans.com; www.mulsannescorner.com; les24hdumans.free.fr; www.caradisiac.com; www.mcestoril.pt; en.wikipedia.org;
www.answers.com

Actualização em 2008-11-24

Em 2007, apenas uma senhora competiu nas '24 Horas': a americana Liz HALLIDAY (USA), fazendo equipa com o russo Vitaly PETROV e o francês Romain IANETTA, num Courage LC75, da Noel Del Bello, da categoria LMP1, abandonou ao fim de 198 voltas, com problemas de caixa de velocidades.

Em 2008, Vanina Ickx voltou a fazer equipa com João Barbosa (e ainda o francês Stephane GREGOIRE) , desta vez ao volante do Pescarolo 01 LMP1, da Rollcentre Racing, tendo obtido o 11º lugar geral (10º na categoria).

Menos feliz, Amanda STRETTON (GB), que nos últimos anos tem emprestado a sua fotogenia a programas dedicados ao desporto automóvel em diversos canais televisivos (desde a Sky à Eurosport, passando pelos Channel 4 e 5 britânicos), abandonou ao fim de apenas 87 voltas com problemas no motor AER V8 do Lola B06/10 LMP1 da Chamberlain-Sinergy, que partilhava com Bob BERRIDGE (GB) e Gareth EVANS (GB).