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Como a FIA decide quem é piloto profissional e piloto amador

A categorização dos pilotos

por Pedro Correia, 9 de Janeiro de 2015 Sem Comentários

© ACO

Se o Balanço de Desempenho já dá água pela barba a muitos, a Categorização de Pilotos usada pelo ACO e recentemente unificada pela FIA também não é totalmente imune à total incompreensão. Um sistema que tenta criar uma separação natural ou racional com base em elementos subjectivos tem destas coisas. Vamos tentar explicar, tudo (ou quase), o melhor possível...

Desde 2008 o ACO passou a limitar a constituição dos trios de pilotos da categoria LMP2, obrigando à participação de, pelo menos, um piloto considerado "amador" que deverá cumprir um tempo mínimo de condução pré-determinado. Na altura isso foi visto como uma reacção à possibilidade da Penske, com os seus Porsche RS Spyder, que lutavam taco a taco com os todo-poderosos Audi R10 no ALMS e tinham em 2007 vencido à geral 8 das 12 corridas do calendário, poderem atravessar o Atlântico para fazer o mesmo no Velho Continente. Ideia reforçada por um novo aumento do peso mínimo dos LMP2, na mesma altura, acompanhado com inversa redução de peso nos LMP1. Entretanto, na Florida, os Porsche, ainda mantendo o peso mínimo anterior de 750kg, faziam o impensável e batiam a Audi nas 12 horas de Sebring, algo inédito, pois as vitórias da Porsche até aí tinham sido apenas nas provas mais curtas, embora em Petit Le Mans de 2007 já tivesse sido dado o aviso, com o Audi R10 de Capello e McNish a vencerem com uma diferença de apenas 0,923 segundos sobre o Porsche de Dumas, Bernhard e Long.

Proeza idêntica dificilmente seria repetida em Le Mans, com as várias zonas em que os LMP1 ultrapassavam largamente os 300km/h a não permitirem quaisquer veleidades aos LMP2, sem zonas sinuosas suficientes para compensar o défice de velocidade de ponta e, acima de tudo, a facilidade com que os monstros de binário diesel disparavam em linha recta.

Assim, a introdução de um piloto amador por carro inviabilizou triplas da craveira de Dumas, Bernhard e Long, atraiu a atenção de abastados Gentlemen Drivers, que viam assim "facilitada" a possibilidade de vencer à classe LMP2, desde que assegurada uma boa montada (e aqui o Porsche RS Spyder e o Acura ARX-01a eram de outra galáxia) e dois pilotos de topo como parceiros. O que, note-se, facilitou a viabilização de diversos projectos na categoria, incluindo duas formações a inscreverem os super competitivos Porsche, reputadamente quatro vezes mais caros que os habituais Lola, Zytek ou Pescarolo.

Com o tempo e os custos da categoria a descerem drasticamente em 2011 com o regulamento baseado em custos controlados para chassis e motores, a categoria é bastante popular neste momento, se bem que as inscrições a tempo inteiro no WEC sejam escassas, o que se explica mais pela concorrência do ELMS, mais interessante para os pilotos-empresários com outras actividades além das corridas, uma vez que não obrigam a ausências prolongadas do trabalho do dia-a-dia. No entanto, esta descida de custos significou que, principalmente para o ELMS, algumas equipas conseguem viabilizar um orçamento sem necessitar de um milionário piloto pagante, começando aqui o jogo de arranjar um piloto bastante competitivo mas que seja visto como um amador. Sim, o termo amador poderá soar um quanto pejorativo, mas é exactamente isso que o regulamento lhes chama, até quando a medida serviu para dividir a classe GTE em duas, com a criação da GTE-PRO e da GTE-AM, destinada a carros com dois pilotos "amadores".

Se é polémica a questão, a verdade é que haver uma classe em que os "amadores" são obrigatórios e regulados nivela a competição entre estes e atrai financiadores às equipas privadas, nada menos que 38 das 55 equipas à partida da última edição das 24 horas de Le Mans eram LMP2 ou GTE-Am.

As classes PRO-AM

No WEC e nas 24 horas de Le Mans as classes LMP2 e GTE-AM têm obrigatoriamente que apresentar nas composições das equipas de pilotos elementos classificados como amadores. No caso do ELMS todas as categorias têm, de algum modo, de respeitar este princípio. Outro caso de aplicação serão as Blancpain Endurance Series, com as categorias Pro-Am e Gentlemen Trophy, ou o Tudor United Sportscar Championship, nas categorias Prototype Challenge e GT Daytona.

Campeonato no Mundo de Resistência (WEC)
Classe Requisitos
LMP1 Interdita a pilotos Bronze
LMP2 No mínimo, um piloto terá que ser Prata ou Bronze, com um tempo mínimo de condução de 1h15m numa prova de 6 horas (4 horas nas 24 horas de Le Mans)
GTE-AM No mínimo, um piloto terá que ser classificado Bronze, com um segundo piloto a ter que ter classificação de Prata ou Bronze, com um tempo mínimo de condução para cada um de 1h45m numa prova de 6 horas (4 horas nas 24 horas de Le Mans)
European Le Mans Series (ELMS)
Classe Requisitos
LMP2 Em qualquer caso, o piloto Platina ou Ouro não pode conduzir mais de 1h40m
LMP3 São permitidas as seguintes composições:
- 1 Platina + 1 Bronze (mínimo de 2h20m para o Bronze)
- 1 Ouro + 1 Prata ou Bronze (mínimo de 2h20m para o Prata ou Bronze)
- 1 Platina + 2 Bronze (mínimo de 40m para qualquer dos Bronze)
- 1 Ouro + 1 Bronze + 1 Prata ou Bronze (mínimo de 40m para qualquer dos Prata ou Bronze)
- Qualquer composição de 2 ou 3 pilotos Prata e Bronze
GTE No mínimo, um piloto terá que ser classificado Bronze, com um segundo piloto a ter que ter classificação de Prata ou Bronze, com um tempo mínimo de condução para cada um de 45m numa prova de 4 horas, com o piloto Platina ou Ouro, caso exista, a ter um tempo máximo de condução de 1h15m. Caso sejam apenas pilotos Prata e Bronze no carro, o tempo mínimo de cada um será de 1 hora.
GTC No mínimo, um piloto terá que ser classificado Bronze, com um segundo piloto a ter que ter classificação de Prata ou Bronze, com um tempo mínimo de condução de 1h30 minutos para o piloto Bronze e 45m para o piloto Prata, numa prova de 4 horas, com o piloto Platina ou Ouro, caso exista, a ter um tempo máximo de condução de 1h15m. Caso sejam apenas pilotos Prata e Bronze no carro, o tempo mínimo combinado dos pilotos Bronze  será de 1h30m hora.
Blancpain Endurance Series (BES)
Classe Requisitos
Pro-Am Um dos pilotos terá que ser Bronze, com um tempo mínimo de condução de 70 minutos numa corrida de 3 horas (ou 1h50 minutos, no caso de uma equipa de dois pilotos)
Nas 24 horas de Spa o tempo mínimo de condução de um piloto Bronze na Pro-Am é de 6 horas, com pelo menos uma hora em cada quarto (6 horas) da corrida
Gentlemen Trophy Todos os pilotos terão que ser Bronze e ter mais de 30 anos.
United SportsCar Championship (USCC)
Classe Requisitos
PC e GTD Em equipas de 2 ou 3 pilotos, dois terão que ser Prata ou Bronze.
Em equipas de 4 ou 5 pilotos, três terão que ser Prata ou Bronze.

Um sistema unificado

Se até agora a Comissão de Endurance da FIA para o WEC e ELMS, a SRO para as Blancpain Series e outros campeonatos de GT com a sua chancela e a IMSA para o USCC tinham sistemas de categorização diferentes, o que poderia resultar em categorizações diferentes para o mesmo piloto, para 2015 foi adoptado um sistema único de categorização dos pilotos que será adoptado pelas competições organizadas directamente pela FIA, pela SRO e por autoridades desportivas associadas da FIA. Este sistema fixa os requisitos mínimos para cada categorização, sendo sempre salvaguardado que a Comissão de Endurance da FIA pode rever qualquer caso que justifique uma excepção.

Platina

O topo, destinada à nata dos pilotos, tinha até agora uma lista de critérios em que bastava cumprir um deles, mas a partir de agora terão que ser respeitados apenas dois critérios, sendo que o facto que mais salta à vista é que ter Superlicença de F1 por si só não é garantia de categorização Platina sem um palmarés condizente que permita cumprir pelo menos mais um dos critérios.

2015 Até 2014
O piloto tem que cumprir dois dos requisitos O piloto tinha que cumprir um dos requisitos
Ser detentor de Superlicença F1 Ser detentor de Superlicença F1
Vencer Le Mans numa categoria profissional (LMP1 ou GTE-PRO) Vencer Le Mans à geral
Vencer o WEC numa categoria profissional Não previsto
Ser piloto oficial de um construtor, pago pelo mesmo construtor para o efeito, com resultados condizentes (não estava prevista a possibilidade dos resultados não justificarem o estatuto, mesmo sendo o piloto contratado por um construtor)
Ter terminado nos 5 primeiros da classificação geral da F3000 Internacional, CART/Champcar, IRL/Indycar, GP2, qualquer Campeonato do Mundo FIA ou Grand-Am Rolex na categoria Daytona Prototype Ter terminado nos 10 primeiros da classificação geral da F3000 Internacional, CART/Champcar, IRL/Indycar ou GP2
Ter terminado nos 3 primeiros da classificação geral da FIA F3 Europeia (Britânica/Euroseries até 2011) ou outro campeonato internacional de primeira linha de monolugares (F2, Nissan World Series, World Series by Renault,…) Ter terminado nos 6 primeiros da classificação geral da FIA F3 Europeia (Britânica/Euroseries até 2011) ou outro campeonato internacional de primeira linha de monolugares (F2, Nissan World Series, World Series by Renault,…)
Vencer a Porsche Supercup Não previsto
Ser campeão do ALMS (P1 ou GT apenas) Não previsto

Ouro

No degrau abaixo de Platina, um piloto Ouro é considerado igualmente um profissional para todos os efeitos. No panorama actual a única implicação de ser Ouro e não Platina é sensível apenas na categoria LMP3 do ELMS, já que poderá ser acompanhado por um piloto Prata, enquanto um piloto Platina só poderá alinhar com pilotos Bronze. Ficam agora englobados nesta categoria todos os pilotos que apenas cumpram um dos critérios da categoria Platina.

2015 Até 2014
O piloto tem que cumprir um dos requisitos O piloto tinha que cumprir um dos requisitos
Satisfazer apenas um dos critérios Platina Satisfazer os critérios Platina mas idade compreendida entre os 50 e 59 anos de idade
Terminar nos 3 primeiros da classificação uma competição secundária de monolugares (A1 GP, GP3, F. Renault V6, Superleague Formula, Eurocup F. Renault 2.0, Indy Lights) Terminar nos 10 primeiros da classificação uma competição secundária de monolugares (A1 GP, GP3, F. Renault V6, Superleague Formula, Eurocup F. Renault 2.0, Indy Lights)
Vencer à geral uma competição regional ou nacional de monolugares (Formula 3, F. Renault 2.0, F. Atlantic, Euro V8 Series) Terminar nos 6 primeiros uma competição regional ou nacional de monolugares (Formula 3, F. Renault 2.0, F. Atlantic, Euro V8 Series) ou 5 primeiros no caso de ser uma competição de iniciação (F. BMW, F. Ford, etc)
Terminar nos 3 primeiros da classificação de Porsche Supercup, DTM, BTCC ou SuperGT ou vencer uma Porsche Carrera Cup nacional Terminar nos 6 primeiros da Porsche Supercup
Ganhar uma competição principal de GT (FIA GT, Blancpain GT Series (Pro apenas), Mundial FIA GT1 , FIA GT3 Europeu, ADAC GT Masters, GT Britânico) ou categoria GT do ILMS, ELMS ou ALMS, se acompanhado por piloto(s) não Platina Não previsto
Não previsto, vencer uma competição desta natureza garante apenas o nível Prata a partir de 2015 Terminar nos 3 primeiros uma competição monomarca nacional ou internacional organizada pelo construtor

Prata

Para os melhores dos amadores, segundo a filosofia da categorização, pouco mudou neste caso em relação aos últimos anos, apenas se destacando o facto de, agora, vencer um troféu monomarca (excepto a Porsche Supercup) dar direito a ser considerado Prata, quando anteriormente bastaria um Top3 para já ser considerado Ouro.

2015 Até 2014
O piloto tem que cumprir um dos requisitos O piloto tinha que cumprir um dos requisitos
Piloto com menos de 30 anos que não cumpra qualquer critério Platina ou Ouro Piloto com menos de 30 anos que não cumpra qualquer critério Platina ou Ouro ou piloto que satisfaça os critérios Platina acima dos 60 anos
Vencer à geral um campeonato regional, nacional ou internacional Vencer à geral um campeonato regional, nacional ou internacional associado a um piloto profissional
Vencer à geral um campeonato não profissional (Ferrari Challenge, Maserati Trophy, Lamborghini Supertrophy, Porsche GT3 Cup Challenge) ou uma competição monomarca nacional, regional ou internacional organizada pelo construtor Vencer à geral um campeonato não profissional (Ferrari Challenge, Maserati Trophy, Lamborghini Supertrophy, Porsche GT3 Cup Challenge)

Bronze

Naquela que é base da pirâmide da categorização, muda ligeiramente a formulação do que é um piloto Bronze mas nada que altere radicalmente em termos práticos a categoria.

2015 Até 2014
O piloto tem que cumprir um dos requisitos O piloto tinha que cumprir um dos requisitos
Piloto que tenha mais de 30 anos quando a primeira licença desportiva tenha sido emitida e com nenhuma ou quase nenhuma experiência de monolugares Qualquer piloto portador de Licença Internacional B, sem palmarés significativo mas cujas performances possam ser consideradas merecedoras do nível Bronze
Piloto acima dos 30 anos anteriormente Prata (pela via de ter  anteriormente menos de 30 anos) mas sem resultados significativos Não previsto
Piloto com menos de 30 anos que tenha detido licença internacional por menos de um ano e competido em menos de 5 corridas Não previsto

Além destes requisitos, há algumas regras que deverão ajustar a categorização de cada piloto:

  • A categorização de um piloto deverá descer automaticamente um nível em relação ao que está prescrito nos requisitos no ano a seguir a completar 50 anos.
  • A categorização de um piloto deverá descer automaticamente dois níveis em relação ao que está prescrito nos requisitos no ano a seguir a completar 55 anos.
  • Qualquer piloto acima de 60 anos será categorizado Bronze.
  • Qualquer piloto que tenha estado inactivo mais de 5 anos (ou não tenha feito mais que uma corrida por ano) deverá ser classificado um nível abaixo do que os requisitos indicam, devendo esta situação ser revista no final do ano, caso o piloto participe em mais que uma corrida.
  • A categorização de um piloto não será alterada ao longo do ano, por exemplo, caso seja contratado por um construtor ou vença Le Mans.

Estas alterações criam, nitidamente , uma maior selectividade nas categorias Platina e Ouro, quer pela exigência do cumprimento de dois critérios para a obtenção da Platina, quer por critérios mais apertados nas classificações mínimas em diferentes competições. No entanto parece-nos que os efeitos produzidos não serão demais significativos, apenas com alguns pilotos que seriam Platina a serem agora Ouro pela necessidade de acumular dois critérios e não apenas terem que cumprir um.

Nota final: são apresentados alguns exemplos do que são competições de primeira linha ou secundárias e também do que serão competições não profissionais. Os exemplos apresentados foram transcritos da redacção do regulamento, não resultando de qualquer hierarquia ou valoração do autor do texto.