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24h Le Mans: Audi faz pleno, Peugeot cai com estrondo, ASM com sentido do dever cumprido
por Vitor Ribeiro, 13 de Junho de 2010 25 Comentários

Olivier Pla a caminho do sue último turno. IMAGEM. HR/lemansportugal.com
Hecatombe. Foi uma verdadeira hecatombe a que se abateu sobre a Peugeot, com a desistência dos seus quatro protótipos (três oficias e o alugado à Oreca) e a entrega do pódio completo, em bandeja dourada, à sua grande rival alemã, a Audi - e tão cedo, os homens da marca do leão não se esquecerão deste dia e da imagem dos três carros alemães a cortar a meta em formação ordenada...
E para nós portugueses, fica também a imagem do desespero do pole man Sebastian Bourdais que, já equipado para substituir Pedro Lamy no Peugeot #3 que na altura liderava a prova, não escondia a frustração, denunciando aquilo que só viria a ser confirmado pouco depois e, uma vez mais, retiraria a Lamy a hipótese de acrescentar ao brilhante currículo a vitória em Le Mans que lhe tem escapado.
Mas antes de lá chegarmos, comecemos pela categoria P2, aquela que motivou a nossa ida a Le Mans, para acompanhar a 5ª aventura da equipa portuguesa Quifel ASM Team na clássica francesa de endurance - uma aventura para a qual a equipa partia cheia de esperanças e boas expectativas, mas da qual regressa com o menor dos prémios de consolação.
Terminar a prova, depois de um quarto lugar em 2008 e de três desistências, a última das quais ao fim de apenas quatro horas de prova em 2009, merece obviamente destaque, pois só quem conhece Le Mans perceberá o desafio que a prova representa e o quanto o simples terminar a prova já constitui para muitos, e em particular para os que, como a ASM, não possuem orçamentos bem 'recheados', prémio mais do que suficiente numa prova desta natureza.
A prova do Ginetta Zytek português até nem começou mal, dentro do que era esperado face ao poderio demonstrado pelos HPD da Strakka e Highcroft na qualificação. Com uma estratégia diferenciada da Strakka, que apostava em turnos triplos para Danny Watts e Johnny Kane e duplos para Nick Leventis, procurando dessa forma, certamente, poupar ao seu 'elo mais fraco' tempo de pista e o risco de se repetirem os erros de Spa, a ASM dava preferência a turnos triplos para todos, de forma a poupar Miguel Amaral ao grosso do período nocturno da prova.
A ideia era apostar na contenção e na expectativa, não 'correndo' atrás dos HPD no que seria uma louca tentativa de não os deixar fugir demasiado, tarefa que seria inglória, dada a diferença, visível nos tempos da qualificação, entre os dois protótipos. Menos dois ou três segundos por volta, que a equipa acreditava ser Pla capaz de fazer, pouca diferença faria e seria antes um risco muito elevado.
Tudo corria bem, com o carro a rodar consistentemente entre o 3º e o 4º lugares, até um pião seguido, cerca de duas voltas depois, de um furo lento ter deixado Miguel Amaral um pouco mais distante do Lola HPD da RML - incidentes normais de corrida, no entanto, que estavam ainda longe de pôr em causa um bom resultado. O pior estava ainda para acontecer.
Até aqui, com os HPD #42 e #26 a distanciarem-se a um ritmo impressionante, Pla, Hughes e Amaral, nos seus primeiros turnos, limitavam-se a manter debaixo de olho o Lola HPD da RML e o Pescarolo Judd #35 da OAK, sempre na expectativa do que se passasse à sua frente.
Mas eis que, cerca das 5:00 da madrugada, o alarme soa na box da equipa portuguesa. Pla regressa com problemas de transmissão, que tem de ser trocada, e com isto perde cerca de 5 voltas caindo para o 5º lugar da classe e ficando com o pódio cada vez mais distante.
Mas como um mal nunca vem só, eram cerca das 7:00 da manhã quando Miguel Amaral, de volta ao volante, perde ligeiramente o controlo do carro na travagem para Arnage e tem uma ligeira saída de pista, e sem consequências, pelo menos substantivas, no carro prossegue. Mas logo na travagem seguinte uma das rodas bloqueia e o gentleman driver português pouco pode fazer - o carro bate forte e a equipa vê-se agora obrigada a uma paragem mais longa para tentar recolocar o carro em condições de, pelo menos, terminar a corrida.
E é já com cerca de 50 voltas de desvantagem para o HPD #42 da Strakka, que o protótipo da equipa de António Simões regressa à pista. Com o pódio à distância de uma hecatombe entre os carros que seguiam à sua frente, a Pla, Hughes e Amaral e à equipa ASM restava agora procurar cumprir os serviços mínimos - levar o carro até ao fim e ser a primeira equipa portuguesa a participar e terminar a prova.
Ainda antes de ser substituído, Amaral ainda sofreu um 'chega para lá' de um Audi - algo, infelizmente, normal da parte dos carros da P1 que se julgam no direito de passar quando, onde e como querem - e que o diga também um dos Corvette, como procurava explicar Oliver Gavin...
Sem esconder alguma tristeza por não saírem de Le Mans com um pódio - que era, confessadamente, o grande objectivo da equipa depois de o ano passado se ter sagrado campeã LMS - o sentimento reinante no seio da equipa portuguesa era, claramente, o do dever cumprido. Ao olharmos para a tabela final, é impossível não deixarmos de amargamente pensar que, não fossem os problemas havidos - mas Le Mans é sempre Le Mans... - e ao invés do 7º lugar entre os P2 e 20º da geral alcançados, bem poderia a ASM levar para casa um pódio na classe e um histórico lugar entre os 10 primeiros... de facto, o carro da Strakka foi o segundo (!) melhor dos carros a gasolina e entre os 10 primeiros classificaram-se 5 (!) carros da classe P2, o que diz bem dos problemas que se abateram sobre os P1.
Voltando ao início, e como dissemos atrás, a hecatombe na P1 começou logo no final do turno do Pedro Lamy, quando este se vê obrigado a fazer uma volta quase completa com aquilo que aparentava ser, senão pneu furado, problemas de suspensão. O carro chega ao pit e de imediato é recolhido. Bourdais, já equipado para entrar, é o primeiro a saber o veredicto e não consegue esconder o desalento - o problema poderá ter sido a quebra de um ponto de fixação da suspensão, com consequências, irreparáveis no imediato, na monocoque. Era o principio de uma prova negra, muito negra, para a marca do leão.
Absolutamente autoritários, como já o haviam demonstrado na qualificação, os Peugeot entraram 'a matar'. Lamy, a quem coube a honra de largar da primeira posição, graças à volta canhão de Bourdais na qualificação, não se faz rogado e segura a liderança. A marca francesa coloca os seus quatro carros na frente, com o 908 entregue à Oreca a servir de tampão aos Audi, e começa a cavar uma diferença aparentemente intransponível, não fosse Le Mans uma corrida de... resistência.

Pedro Lamy, em quem se depositavam as esperanças portuguesas numa vitória à geral, foi uma vez mais infeliz. IMAGEM: Frederic Le Floc / DPPI
E, de facto, talvez tenha sido isso que Olivier Quesnel e os seus homens tenham esquecido: que em Le Mans não ganha necessariamente quem anda mais rápido mas sim quem chega ao fim... em primeiro! Bater sucessivamente a volta mais rápida, levar o carro aos limites, quase como se sentissem a necessidade de humilhar, logo de início, os seus vizinhos e rivais, talvez não tenha sido a estratégia mais inteligente - se é que foi essa a estratégia, pois é sempre muito fácil falarmos no fim, mas só quem lá anda sabe as linhas com que se cose e há imponderáveis para os quais não há nada a fazer.
Neste entretanto, já Nigel Mansell havia saído de pista, após Mulsanne, pouco mais de 20 minutos passavam sobre o início da prova. O carro bate fortemente e a equipa médica é chamada, tendo o ex-campeão de F1 inglês ter de ser retirado do carro com ajuda. Felizmente, terá sido mais o choque que outra coisa, saber-se-ia mais tarde. Acabava assim, mal tinha começado, o sonho da família Mansell, faltando saber agora se a equipa (depois de já ter falhado Spa, supostamente para se preparar melhor para Le Mans...) regressará ao LMS...
Entretanto, a luta pelas primeiras posições prossegue... entre os pilotos da Peugeot, com os três Audi na expectativa, logo atrás. Kristensen, com cerca de 3:30 de corrida causa algum nervosismo ao não evitar um desaguisado com o BMW Art Car, levando Wolfang Ulrich a protestar com alguma veemência junto de Charly Lamm... Enfim, um bom motivo de interesse e discussão certamente para os jornais alemães, esta luta particular entre os dois colossos da indústria automóvel alemã.
Com seis horas de prova, os três Peugeot sobreviventes prosseguem a sua heróica caminhada, enquanto logo atrás seguiam dois dos Audi, com o #7 a perder uma posição para o Lola Aston Martin #007 devido à paragem nas boxes mais prolongada a que se vira obrigado na sequência do toque no Art Car da BMW. Na P2, os HPD dominavam a seu belo prazer, com a ASM em 3º e uma vantagem de cerca de dois terços do circuito sobre o fiável Pescarolo Judd #35 da OAK e uma volta sobre o Lola HPD da RML. Na LMGT1, o Corvette #73 da LAA aproveitava os problemas no Ford GT #60 da Matech, tendo o carro 'feminino' #61 da equipa suíça de Martin Bartek já desistido com um principio de incêndio. Na LMGT2, dominava o Ferrari #82 da Risi mas com o Corvette oficial #64 por perto. Aqui é justo referir a extraordinária luta entre estes o dois carros, com Jaime Mello, no carro italiano, e Oliver Gavin, no americano, a protagonizarem alguns dos melhores momentos da corrida, até o Ferrari começar a sentir problemas na caixa de velocidades que o fariam atrasar-se irremediavelmente.
Pouco depois de passadas as primeiras seis horas de prova, o luso-francês Manu Rodrigues, na sua primeira participação em Le Mans e sem qualquer experiência anterior em protótipos, não consegue evitar uma forte saída de pista, com danos significativos na frente do carro. Nesta altura, também o outro luso-francês presente, Frédéric da Rocha, estava fora de prova, uma vez que a sua equipa, a Pegasus de Claude e Julien Schell, não terá conseguido resolver um problema na caixa de velocidades do seu novíssimo Norma M200 Judd, um carro que fazia a sua estreia absoluta nesta corrida.
E eis que durante a 8ª hora, os alarmes voltam a soar na box da Peugeot, sendo desta vez Gené, que seguia na liderança a encostar o carro #1 para reparações a problemas no alternador, deixando agora o carro #2 na frente, seguido do Peugeot da Oreca. De regresso à pista, irá mais tarde bater o tempo da pole de Bourdais, na tentativa de regressar aos lugares da frente. Durante a noite e parte da manhã, irá estar ao rubro a luta entre Audi e Peugeot, naquele que terá o sido o melhor período da prova, na medida em que os problemas que vão afectando os Peugeot irão acrescentar à prova a emoção que lhe parecia arredada ao início, com o 'rato' (Peugeot) a ver-se obrigado a fazer o papel de 'gato' oferecendo-nos alguns belos momentos de aproximação aos Audi, que entretanto se foram chegando à liderança, e ultrapassagens onde a força dos carros franceses era evidente e os alemães pouco podiam fazer para contrariar - a não ser... resistir resistindo até ao final, que é afinal do que se trata Le Mans!
Mas, já depois de Montagny, que liderava na altura a prova, se ver obrigado ao princípio da manhã a encostar o Peugeot #2 em Tertre Rouge, com um principio de incêndio, naquela que era segunda desistência entre os carros franceses, eis que novo golpe de teatro deixa Olivier Quesnel em lágrimas e, sem palavras, a não conseguir mais que responder à repórter do Eurosport com um acenar de cabeça. Era 1:00 da tarde, cumpria-se a 362ª volta e faltavam apenas duas horas para o final.
Hughes de Chaunac, patrão da Oreca a quem fica agora acometida a ingrata tarefa de salvar a 'honra do convento' da marca francesa, consola Quesnel, que não consegue esconder a profundidade da desilusão - e, quem sabe, do receio das consequências que tamanho 'espalhanço ao comprido', passe a expressão, possa ter no programa futuro da Peugeot na endurance... Poderão de facto aquelas lágrimas esconder a consciência de 'espada de Dâmocles' que se encontrava suspensa sobre esse programa? Até que ponto novo sucesso seria necessário para convencer os responsáveis Peugeot a prosseguir o esforço de produzir novo carro ou desenvolver o híbrido já apresentado o ano passado? Só tempo o dirá, ficando agora também por saber se, perdido o prémio mais apetecido, a Peugeot irá procurar a consolação possível investindo no titulo do LMS... a continuar nos próximos episódios.
Na box da Audi, os sorrisos começam-se a abrir, e nem Reinhold Joest consegue conter um sorriso mais maroto...
Mas a história da 78ª edição das 24 Horas de Le Mans ainda não termina aqui, porque não tardará muito que o consolador de Chaunac venha também a precisar de... consolo! Pois como não há duas sem três - nem, pelos vistos, três sem quatro... - passada cerca de meia-hora sobre a desistência do último 908 oficial, também Loic Duval, na altura ao volante do 908 da Oreca, encosta o último representante da marca francesa na zona da curva Indianapolis, com sintomas idênticos aos que o #2 havia apresentado.
Fim de festa, fica o registo do bonito gesto de Quesnel a ir à box da Audi cumprimentar Ulrich e aplaudir a equipa alemã. Fica bem. Ulrich, por sua vez, também acaba por deixar soçobrar a sua habitual e germânica frieza e não consegue evitar algumas lágrimas, mas de felicidade, por um 1-2-3 que estaria, por certo e inicialmente, bem longe das suas cogitações mais optimistas.
Para a história fica a imagem dos três carros alemães a cruzarem a meta em formação ordenada no adeus do R15 a Le Mans.
Para a Peugeot deverá ficar uma boa lição, a colocar em lugar bem visível no carro que venham a desenvolver para o futuro.
Para Pedro Lamy fica o desconsolo de mais uma oportunidade ingloriamente perdida.
Para a ASM, e como dissemos atrás, a satisfação do dever cumprido e a consciência da dificuldade que irá ser fazer frente, no que resta do LMS, ao HPD da Strakka , o qual é de facto - e sobretudo nas mãos de Danny Watts - de outro 'campeonato', pese embora o desconsolo por não ter chegado ao tão ambicionado - e merecido - pódio.
Para finalizar, vale a pena assinalar que o Oreca AIM acabaria por herdar já no final da prova a 'vitória' entre os 'gasolinas', depois da desistência do Lola Aston Martin #007 oficial, com o HPD da Strakka a ser, surpreendemente, segundo, graças à hecatombe entre os P1 que permitiu ainda a entrada de mais outros quatro (!) P2 entre os dez primeiros da geral. E sem a Pescarolo presente, merece ainda destaque a colocação de dois Pescarolo Judd LMP2 (da OAK Racing) entre os dez primeiros, demonstrando a fiabilidade dos carros do recordista de presenças em Le Mans que se viu este ano afastado da pista ao fim de mais de 40 (!) anos de presenças ininterruptas (primeiro como piloto, depois como chefe de equipa). Na classe LMGT1, a Larbre passaria o duro teste ganhando uma corrida para a qual os bonitos Ford GT não pareceram talhados, enquanto na LMGT2 a vitória acabaria por sorrir ao Porsche #77 da Felbermayr, beneficiando dos problemas que o Ferrari da Risi e os dois Corvette oficiais tiveram.
Logo que possível, publicaremos uma entrevista a Henri Pescarolo efectuada durante o fim-de-semana, bem como uma galeria de fotos do trabalho da equipa ASM durante as últimas horas e da prova em geral. Também brevemente contamos publicar a crónica dos últimos dias do lemansportugal.com com a equipa portuguesa, a cujos membros, e em especial a António Simões e Maurício Pinheiro, desde já enviamos os parabéns pelo trabalho realizado e muito agradecemos o acolhimento que nos deram.
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