Tinha grandes expectativas relativamente à minha integração na equipa Pescarolo Sport para uma corrida como Le Mans. Sabia que o nome Pescarolo era grande em Le Mans, mas depois de ter passado uma semana com ele e a equipa percebi ainda mais a mítica, a importância e o prestígio que o Henri tem em Le Mans e por toda a França entre os apaixonados das corridas de Endurance.

IMAGEM: Motorsport.com
O convite para fazer esta corrida surgiu apenas cerca de 2 semanas antes da corrida o que me deixava um pouco na expectativa. De qualquer maneira treinei e preparei-me o melhor que pude mesmo antes dessa "bendita" confirmação, como se já o soubesse há muito tempo - mas também é verdade que com as corridas nos Estados Unidos o meu pensamento nem sempre estava em Le Mans, o que me permitia aliviar um pouco essa expectativa.
Foi uma honra ter tido a oportunidade de fazer Le Mans com o Henri. Ele mostrou que ainda é uma pessoa muito competitiva e nenhum pormenor lhe passa ao lado, estando sempre atento a tudo o que se passa.
Para mim, Le Mans era uma oportunidade de poder mostrar à equipa o que poderia fazer, pois nas últimas 2 corridas penso que não tive muitas oportunidades - em SPA nem me cheguei a sentar no carro, para a corrida.
Infelizmente, as coisas não começaram nada bem... Logo no primeiro dia de treinos, e numa altura em que chovia bastante, ao tentar evitar um toque num GT à entrada das curvas Porsche, galguei o corrector - que com a chuva não perdoa - e dei um toque nos rails. O carro atravessou e perdi o controlo. A pancada foi grande e pensei que já não saía dali. Mas para minha surpresa consegui colocar o Pescarolo a funcionar e sair dali. Verifiquei que tudo estava até bastante bem! Claro que com alguns danos, mas menores do que pensei no início. Quando parei nas boxes, "apenas" faltava o bico do carro, que tinha sido arrancado com o impacto, e um pouco da carroçaria traseira estava danificada, mas nada mais - foi um alívio. Claro que fiquei chateado com o toque, pois já há muito tempo que não me acontecia nada do género, mas toda a equipa me apoiou e tentou tranquilizar-me.
A primeira pessoa com quem fui ter foi o Henri, claro, e um pouco para surpresa minha ele estava muito tranquilo tendo sido o primeiro a dizer que não era nada, que estava confiante em mim e que não me preocupasse pois o carro não tinha nada de especial!
Na quinta-feira, dia de cronometrados, tínhamos um plano de trabalho para encontrarmos o melhor setup possível para a corrida e realizar as voltas de qualificação. O Tinseau - que tem mais experiência da equipa e do carro - ficou encarregado dessa tarefa e fez um bom trabalho, apesar de ele sentir que poderia ter feito um pouco melhor, mas nem sempre é fácil encontrar voltas com pouco tráfego quando se tenta qualificar. De qualquer maneira os cronometrados não são a parte mais importante numa corrida de 24H.

Christophe Tinseau, Bruce Jouanny e João Barbosa. IMAGEM: Motorsport.com
Sexta feira é o dia da parada no centro de Le Mans, é um momento em que os fãs podem estar perto dos pilotos e todos os anos fico impressionado com a quantidade de pessoas que estão nesse circuito a pedir autógrafos e a gritar "la casquette, la casquette" (chapéus). Claro que ninguém tem material suficiente para dar a toda a gente, mas tentamos sempre dar pelo menos às crianças.
O dia das 24H começa logo bem cedo, com o warm up. Embora fosse o Tinseau a fazer o warm up eu estava lá, claro, para acompanhar. Quem disse que a corrida são só 24H??
A equipa decidiu que a ordem seria Tinseau/Jouanny/Barbosa. Iríamos fazer 3 turnos (cerca de 2H30) seguidos para começar e assim tentar aproveitar os pneus ao máximo e evitar a agora tão demorada troca de pneus. Comecei a fazer os meus cálculos e concluí que iria entrar no Pescarolo mesmo ao final do dia e início da noite, talvez um dos momentos mais críticos, pois o sol está muito baixo e a visibilidade nem sempre é fácil, pois em alguns pontos quase nos cega, e quando se rola a mais de 300 km/h a concentração tem de ser grande. Para mim, no entanto, tudo se passou muito bem: fiz bons turnos e recuperávamos já bem, tendo andado entre a 5ª e a 7ª posições.
Gosto muito de andar à noite em Le Mans, é uma sensação única, acho até mesmo que a concentração acaba por ser maior pois com menos luzes temos menos visibilidade de muitas coisas que nos podem distrair durante o dia...Claro que tem os seus senãos: quando às 4 da manhã sentimos o cheiro a churrasco, e para quem passou uma semana quase só a pastas e frango grelhado, até dá água na boca...
Acho que estava bem preparado para esta corrida, pois no meu 2º turno da noite fiz quase 4 horas seguidas! Também ajuda, e muito, os duches que tomava quando saía do carro e as massagens que ajudam a recuperar ainda mais depressa, dado que as horas de sono são sempre poucas.
A noite entretanto passara, tinha até então feito o melhor tempo do nosso carro e percebia que a equipa estava satisfeita com o meu desempenho. No entanto, perdemos 3 voltas extra com uma mudança dos discos de travão, que deveriam durar toda a corrida. Com isso perdemos o contacto com os nossos maiores concorrentes, a Oreca.
O dia já ia longo e tínhamos já perdido o contacto com a Oreca, sendo a desvantagem difícil de anular. De qualquer maneira, no meu último turno, ainda tive possibilidade de melhorar um pouco mais a melhor volta do Pescarolo nº16 mas de pouco adiantou - o Tinseau cortou a meta no 8º lugar final.
Apesar de não ser mau ficou um pouco aquém das minhas expectativas e também da equipa, pois penso que o 5º lugar era, pelo menos, o resultado que estaria dentro dos nossos objectivos. Mas as corridas de 24H são assim mesmo e há que contar com todos os imprevistos. Mesmo assim fico com a sensação de dever cumprido.
Toda a equipa me acolheu muitíssimo bem.
A crónica já vai longa mas é-me difícil fazer menos - numa corrida de 24H existem muitas histórias, algumas que ficaram por contar, mas não vos quero maçar mais.
Espero no próximo ano escrever outra crónica - era bom sinal!!!
Um abraço a todos os que tiveram a pachorra de me ler até ao fim.
Até à próxima!
7 Comentários
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Excellente. Ja tive oportunidade de te dar os parabens, e espero ansiosamente pela cronica de 2010.
Entretanto nao te esquecas que ainda ha Daytona para ganhar em 2010…
Interessante esta crónica, especialmente por quem a viveu intensamente como ele. Na próxima será melhor o resultado …
Ó Sr. João, anda a bincar com a malta ou que?????????
Maçar????? Pachorra???????
Pelo amor de Deus.
Os meus mais sinceros agradecimentos a si pela pachorra e pela maçada de me ter dado estes momentos de leitura de tão grande prazer.
Em primeiro lugar deu para sentir nas palavras do João a dmiração e o respeito pela “instituição” Henri Pescarolo que aliás é totalmente justa e merecida. Henri, para uma pessoa da minha idade (50), confunde-se com Le Mans e a sensação de correr na Ecurie Pescarolo deve ser tão forte como correr na Porsche ou na Ferrari, pelo menos a nivel de notoriedade em França.
Pensei que a hora critica de condução fosse o amanhecer.
Desta vez nem tudo correu como o João ou nós queriamos mas de certeza haverá outras opurtunidades pois o João merece como prova o seu tempo canhão e a sua consistencia em pista.
Muito obrigado João pelo seu tempo e muito obrigado aos manos Ribeiro por mais esta perola no verdadeiro sentido da palavra.
Um abraço
Óptima crónica. Já que o Le mans Portugal “não está lá”
dei eu o devido destaque no Twitter: http://twitter.com/wOwtaku/statuses/2402180881
Bom trabalho e boas corridas para o João e o seu Team.
Antes de mais, obrigado por esta cronica.
Segundo, outro dia estive mesmo para te abordar num centro comercial cá do norte, apenas para desejar boa sorte para as próximas provas e te dar os parabéns pelos bons resultados que tens tido.
Mas o tempo de reacção que tive deve ter sido menor que o da travagem que tens de fazer para mulsanne e a vergonha de te fazer um “brake test” em pleno shopping e ainda por cima ias acompanhado… olha o que não te disse no shopping fica aqui registado.
Obrigado pelas alegrias que nos tens dado, e boa sorte para as próximas provas, que sejam muitas…
VRUMMMMMMMMMM
Pois barbosa, quando uma equipa é composta de tres pilotos, já se sabe que não vão ter todos as mesmas performances. de qualquer modo e como dizes e bem, podiam se ter classificado um pouco melhor, mas a vossa prestação foi exemplar de fiabilidade e é o que importa. Em 24 horas tudo pode acontecer e a voçês até que não correu assim tão mal, a não ser a cena dos travões.
Eu estive toda a noite a acompanhar-vos, a ti como o P.Lamy que tambem fez de gato sapato e fiquei maning orgulhoso do que fizeram.
Um abração e secas destas podes dar sempre, estarei cá para ouvi-las !
Lá te espero para o ano !!!
As crónicas vividas são sempre as mais interessantes. Que para o ano seja melhor são os votos sinceros deste entusiasta das 24 horas que um dia ainda espera lá ir!