Le Mans / Opinião

29 de Junho de 2009

24 Horas de Le Mans ’09: a crónica de João Barbosa

Tinha grandes expectativas relativamente à minha integração na equipa Pescarolo Sport para uma corrida como Le Mans. Sabia que o nome Pescarolo era grande em Le Mans, mas depois de ter passado uma semana com ele e a equipa percebi ainda mais a mítica, a importância e o prestígio que o Henri tem em Le Mans e por toda a França entre os apaixonados das corridas de Endurance.

IMAGEM: Motorsport.com

IMAGEM: Motorsport.com

O convite para fazer esta corrida surgiu apenas cerca de 2 semanas antes da corrida o que me deixava um pouco na expectativa. De qualquer maneira treinei e preparei-me o melhor que pude mesmo antes dessa "bendita" confirmação, como se já o soubesse há muito tempo - mas também é verdade que com as corridas nos Estados Unidos o meu pensamento nem sempre estava em Le Mans, o que me permitia aliviar um pouco essa expectativa.

Foi uma honra ter tido a oportunidade de fazer Le Mans com o Henri. Ele mostrou que ainda é uma pessoa muito competitiva e nenhum pormenor lhe passa ao lado, estando sempre atento a tudo o que se passa.

Para mim, Le Mans era uma oportunidade de poder mostrar à equipa o que poderia fazer, pois nas últimas 2 corridas penso que não tive muitas oportunidades - em SPA nem me cheguei a sentar no carro, para a corrida.

Infelizmente, as coisas não começaram nada bem... Logo no primeiro dia de treinos, e numa altura em que chovia bastante, ao tentar evitar um toque num GT à entrada das curvas Porsche, galguei o corrector - que com a chuva não perdoa - e dei um toque nos rails. O carro atravessou e perdi o controlo. A pancada foi grande e pensei que já não saía dali. Mas para minha surpresa consegui colocar o Pescarolo a funcionar e sair dali. Verifiquei que tudo estava até bastante bem! Claro que com alguns danos, mas menores do que pensei no início. Quando parei nas boxes, "apenas" faltava o bico do carro, que tinha sido arrancado com o impacto, e um pouco da carroçaria traseira estava danificada, mas nada mais - foi um alívio. Claro que fiquei chateado com o toque, pois já há muito tempo que não me acontecia nada do género, mas toda a equipa me apoiou e tentou tranquilizar-me.

A primeira pessoa com quem fui ter foi o Henri, claro, e um pouco para surpresa minha ele estava muito tranquilo tendo sido o primeiro a dizer que não era nada, que estava confiante em mim e que não me preocupasse pois o carro não tinha nada de especial!

Na quinta-feira, dia de cronometrados, tínhamos um plano de trabalho para encontrarmos o melhor setup possível para a corrida e realizar as voltas de qualificação. O Tinseau - que tem mais experiência da equipa e do carro - ficou encarregado dessa tarefa e fez um bom trabalho, apesar de ele sentir que poderia ter feito um pouco melhor, mas nem sempre é fácil encontrar voltas com pouco tráfego quando se tenta qualificar. De qualquer maneira os cronometrados não são a parte mais importante numa corrida de 24H.

Christophe Tinseau, Bruce Jouanny e João Barbosa. IMAGEM: Motorsport.com

Christophe Tinseau, Bruce Jouanny e João Barbosa. IMAGEM: Motorsport.com

Sexta feira é o dia da parada no centro de Le Mans, é um momento em que os fãs podem estar perto dos pilotos e todos os anos fico impressionado com a quantidade de pessoas que estão nesse circuito a pedir autógrafos e a gritar "la casquette, la casquette" (chapéus). Claro que ninguém tem material suficiente para dar a toda a gente, mas tentamos sempre dar pelo menos às crianças.

O dia das 24H começa logo bem cedo, com o warm up. Embora fosse o Tinseau a fazer o warm up eu estava lá, claro, para acompanhar. Quem disse que a corrida são só 24H??

A equipa decidiu que a ordem seria Tinseau/Jouanny/Barbosa. Iríamos fazer 3 turnos (cerca de 2H30) seguidos para começar e assim tentar aproveitar os pneus ao máximo e evitar a agora tão demorada troca de pneus. Comecei a fazer os meus cálculos e concluí que iria entrar no Pescarolo mesmo ao final do dia e início da noite, talvez um dos momentos mais críticos, pois o sol está muito baixo e a visibilidade nem sempre é fácil, pois em alguns pontos quase nos cega, e quando se rola a mais de 300 km/h a concentração tem de ser grande. Para mim, no entanto, tudo se passou muito bem: fiz bons turnos e recuperávamos já bem, tendo andado entre a 5ª e a 7ª posições.

lemans-2009-24h-eg-2137

IMAGEM: Motorsport.com

Gosto muito de andar à noite em Le Mans, é uma sensação única, acho até mesmo que a concentração acaba por ser maior pois com menos luzes temos menos visibilidade de muitas coisas que nos podem distrair durante o dia...Claro que tem os seus senãos:  quando às 4 da manhã sentimos o cheiro a churrasco, e para quem passou uma semana quase só a pastas e frango grelhado, até dá água na boca...

Acho que estava bem preparado para esta corrida, pois no meu 2º turno da noite fiz quase 4 horas seguidas! Também ajuda, e muito, os duches que tomava quando saía do carro e as massagens que ajudam a recuperar ainda mais depressa, dado que as horas de sono são sempre poucas.

A noite entretanto passara, tinha até então feito o melhor tempo do nosso carro e percebia que a equipa estava satisfeita com o meu desempenho. No entanto, perdemos 3 voltas extra com uma mudança dos discos de travão, que deveriam durar toda a corrida. Com isso perdemos o contacto com os nossos maiores concorrentes, a Oreca.

O dia já ia longo e tínhamos já perdido o contacto com a Oreca, sendo a desvantagem difícil de anular. De qualquer maneira, no meu último turno, ainda tive possibilidade de melhorar um pouco mais a melhor volta do Pescarolo nº16 mas de pouco adiantou - o Tinseau cortou a meta no 8º lugar final.

Apesar de não ser mau ficou um pouco aquém das minhas expectativas e também da equipa, pois penso que o 5º lugar era, pelo menos, o resultado que estaria dentro dos nossos objectivos. Mas as corridas de 24H são assim mesmo e há que contar com todos os imprevistos. Mesmo assim fico com a sensação de dever cumprido.

João Barbosa no Pescarolo 01 Judd durante as 24 Horas de Le Mans deste ano

IMAGEM: a / Lemansportugal.com

Toda a equipa me acolheu muitíssimo bem.

A crónica já vai longa mas é-me difícil fazer menos - numa corrida de 24H existem muitas histórias, algumas que ficaram por contar, mas não vos quero maçar mais.

Espero no próximo ano escrever outra crónica - era bom sinal!!!

Um abraço a todos os que tiveram a pachorra de me ler até ao fim.

Até à próxima!

7 comentários até ao momento...
...deixe o seu!

  1. Fernando Martins diz:

    Excellente. Ja tive oportunidade de te dar os parabens, e espero ansiosamente pela cronica de 2010.
    Entretanto nao te esquecas que ainda ha Daytona para ganhar em 2010…

  2. fast diz:

    Interessante esta crónica, especialmente por quem a viveu intensamente como ele. Na próxima será melhor o resultado …

  3. Villickx diz:

    Ó Sr. João, anda a bincar com a malta ou que?????????
    Maçar????? Pachorra???????
    Pelo amor de Deus.
    Os meus mais sinceros agradecimentos a si pela pachorra e pela maçada de me ter dado estes momentos de leitura de tão grande prazer.
    Em primeiro lugar deu para sentir nas palavras do João a dmiração e o respeito pela “instituição” Henri Pescarolo que aliás é totalmente justa e merecida. Henri, para uma pessoa da minha idade (50), confunde-se com Le Mans e a sensação de correr na Ecurie Pescarolo deve ser tão forte como correr na Porsche ou na Ferrari, pelo menos a nivel de notoriedade em França.
    Pensei que a hora critica de condução fosse o amanhecer.
    Desta vez nem tudo correu como o João ou nós queriamos mas de certeza haverá outras opurtunidades pois o João merece como prova o seu tempo canhão e a sua consistencia em pista.
    Muito obrigado João pelo seu tempo e muito obrigado aos manos Ribeiro por mais esta perola no verdadeiro sentido da palavra.
    Um abraço

  4. wOwtaku diz:

    Óptima crónica. Já que o Le mans Portugal “não está lá” ;) dei eu o devido destaque no Twitter: http://twitter.com/wOwtaku/statuses/2402180881

    Bom trabalho e boas corridas para o João e o seu Team.

  5. Francisco Fonseca diz:

    Antes de mais, obrigado por esta cronica.

    Segundo, outro dia estive mesmo para te abordar num centro comercial cá do norte, apenas para desejar boa sorte para as próximas provas e te dar os parabéns pelos bons resultados que tens tido.

    Mas o tempo de reacção que tive deve ter sido menor que o da travagem que tens de fazer para mulsanne e a vergonha de te fazer um “brake test” em pleno shopping e ainda por cima ias acompanhado… olha o que não te disse no shopping fica aqui registado.

    Obrigado pelas alegrias que nos tens dado, e boa sorte para as próximas provas, que sejam muitas…

    VRUMMMMMMMMMM

  6. Victor Mendes-Franco diz:

    Pois barbosa, quando uma equipa é composta de tres pilotos, já se sabe que não vão ter todos as mesmas performances. de qualquer modo e como dizes e bem, podiam se ter classificado um pouco melhor, mas a vossa prestação foi exemplar de fiabilidade e é o que importa. Em 24 horas tudo pode acontecer e a voçês até que não correu assim tão mal, a não ser a cena dos travões.

    Eu estive toda a noite a acompanhar-vos, a ti como o P.Lamy que tambem fez de gato sapato e fiquei maning orgulhoso do que fizeram.

    Um abração e secas destas podes dar sempre, estarei cá para ouvi-las !

    Lá te espero para o ano !!!

  7. Afrancis diz:

    As crónicas vividas são sempre as mais interessantes. Que para o ano seja melhor são os votos sinceros deste entusiasta das 24 horas que um dia ainda espera lá ir!

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