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“24 Heures du Mans”, a maior corrida do mundo

por Vitor Ribeiro, 26 de Maio de 2007 2 Comentários

Cartaz da primeira edição das 24 Horas de Le Mans com a designação de "Grand Prix d'Endurance de 24 Heures

Cartaz da primeira edição das 24 Horas de Le Mans com a designação de "Grand Prix d'Endurance de 24 Heures

Dossier: 75ª Edição das 24 Horas de Le Mans — Parte 2 / 9

Le Mans.

Há histórias assim, de pequenas cidades cujos valores históricos, patrimoniais, arquitectónicos e paisagísticos talvez nunca fossem suficientes para as tornar facilmente reconhecidas pelo mais comum dos mortais, mas que por um feliz acaso, nascido da imaginação inventiva, da arte, do engenho e da determinação de algum ou alguns dos seus filhos se tornam lugares míticos alvo de romarias festivas.

Situada num maciço rochoso na confluência dos rios Sarthe e Huisne, e com origens que remontam à pré-história, Le Mans (a que os celtas atribuiram a designação de Ouidinom ou Suindinom, "a colina branca fortificada"), capital do departamento de Sarthe, Região Administrativa de Pays de la Loire, não passa efectivamente de uma pequena cidade de 146.105 habitantes, de acordo com o censo francês de 1999.

Os momentos que antecederam o ínicio do 1º Grande Prémio de França. Imagem dos Arquivos ACO

O início do 1º Grande Prémio de França. Imagem: Arquivos ACO

No entanto, tendo sido o palco do 1º Grande Prémio de França, disputado na alvorada do século XX, em 1906, Le Mans entraria na restrita galeria de lugares míticos com o lançamento desse imenso desafio de fazer disputar uma corrida de automóveis durante 24 horas consecutivas.

Mas a história começa um pouco antes, ainda no último quartel do século XIX - estava o automóvel ainda na sua primeira infância - com a paixão automobilística da família Boillée a dar origem à Union Auto Cycliste de la Sarthe, embrião daquele que viria a ser registado oficialmente na prefeitura de Sarthe, em 5 de Fevereiro de 1906, com o nome de Automobile Club de la Sarthe, actualmente conhecido como Automobile Club de l'Ouest (ACO).

Será precisamente no seio deste clube  - que hoje em dia gere não só os destinos da prova como do próprio campeonato que lhe herda o nome, Le Mans Series - que nascerá, em 1920, a ideia de realizar “uma competição cujo carácter contribuísse para a evolução do progresso técnico e favorecesse o desenvolvimento do automóvel”. Dois anos volvidos, em 1922, Georges Durand, presidente do ACO, Charles Faroux, jornalista da revista La Vie Automobile, e Émile Coquille, director da Rudge-Whithworth, anunciam oficialmente a criação de uma corrida de resistência a disputar por equipas de 2 pilotos que se deveriam alternar na condução do mesmo carro durante 24 horas consecutivas. Finalmente, no dia 26 de Maio de 1923, saem para o circuito desenhado nas estradas nacionais e locais dos arredores da cidade as primeiras 33 equipas concorrentes, compostas por um total de 66 pilotos (dos quais 59 franceses, 4 belgas, 2 ingleses e 1 suíço), à disputa do primeiro troféu daquela que é hoje a mais antiga e prestigiada corrida de resistência para carros desportivos e protótipos de todo o mundo. E nem a chuva intensa sob a qual se desenrolaria esta primeira corrida e a lama abundante foram suficientes para afastar novos candidatos no ano seguinte, cuja lista aumentaria para 39.

A largada para as primeiras 24 Horas de Le Mans

A largada dos primeiros heróis partindo à conquista da glória!

O actual circuito, com uma extensão total de 13,650 Km, partilha com o circuito Bugatti (circuito permanente construído em 1965 e que foi palco, em 1967, do GP de França de F1) a recta da meta e troço seguinte compreendido entre a curva Dunlop e o ínicio dos Esses e corresponde à 13ª versão do original desenhado ao longo das estradas nacionais dos arredores a Sul da cidade, o qual possuía 17,262 Km e privilegiava essencialmente a velocidade. Tertre Rouge, Mulsanne, Arnage ou Maison Blanche são nomes que qualquer adepto reconhecerá facilmente, no entanto, o mais mítico de todos, e um dos mais míticos troços de circuito de todo o mundo, é o da célebre recta das Hunaudières, que na verdade não é uma mas três rectas, que se desenvolvem ao longo de 5 quilómetros da estrada departamental D338, a velha Route de Tours, entre Tertre Rouge e Mulsanne, intercaladas por duas curvas que se fazem a fundo, e onde, em 1988, Roger DORCHY (F), ao volante de um WM Peugeot P88, atingiu a impressionante velocidade máxima de 405 Km/h (!), já à chegada a Mulsanne. As várias alterações que o circuito foi sofrendo ao longo dos anos, aliás,tiveram precisamente como propósito reduzir as velocidades máximas e aumentar os níveis de segurança, levando mesmo, em 1990, e na sequência do ‘episódio’ WM P88, à introdução de duas chicanes nas Hunaudières, que viu assim perdida grande parte da sua aura mítica em favor das necessárias exigências de segurança.

Uma das características mais marcantes da prova foi, sem sombra de dúvida, o famoso procedimento de largada, que ficaria conhecido por “partida tipo Le Mans”, em que os pilotos se alinhavam, na recta da meta, ao longo do muro oposto ao das boxes e, ao sinal de partida, atravessavam a pista a correr para saltar o mais rapidamente possível para os 'cockpits' dos carros, alinhados em espinha junto ao muro das boxes, arrancando de imediato. Adoptado pela primeira vez em 1925 (já que em 1923 e 24 a largada se fazia ‘em linha’), o procedimento seria abandonado após a prova de 1969, que ficaria marcada não só pela forma de protesto do belga Jacky ICKX, atravessando a pista em passo lento para entrar calmamente no 'cockpit' e apertar os cintos convenientemente, mas (qual ironia do destino) também pela morte do inglês John WOLFE,  triste desfecho, presumivelmente consequência do deficiente aperto dos cintos durante a largada 'apressada', de um despite ocorrido ainda no final da primeira volta. No ano seguinte, o procedimento de largada (precisament o que pode ser observado no filme “Le Mans”) seria ainda ‘em espinha’, com o arranque fazendo-se já com os pilotos convenientemente instalados no interior dos carros, mas em 1971 já seria adoptado o procedimento de partida lançada, que se mantém até aos dias de hoje.

O Porsche 917K de Helmutt Marko e Gijs Van Lennep

O Porsche 917K de Helmutt Marko e Gijs Van Lennep

Sendo esta uma corrida de resistência, o vencedor será sempre aquele que maior distância percorrer ao longo das 24 horas que constituem a prova. A maior distância absoluta percorrida durante as 24 horas de prova foi registada em 1971, com Helmutt MARKO (A) e Gijs VAN LENNEP (NL), partilhando o volante de um Porsche 917, a cumprirem 5335,313 Km à média de 222,304 Km/h. Para cumprir a mesma distância, André LAGACHE (F) e René LEONARD (F), ao volante do CHENARD & WALKER “Sport” com que venceram a primeira edição da prova, em 1923, precisariam de mais… 36 horas (!).

Talvez não fossem longe nesse tempo, é certo, mas no entanto, e curiosamente, é a primeira edição aquela que regista a melhor percentagem de equipas que terminaram a corrida: 90,9%, correspondendo a 30 classificados à chegada dos 33 que iniciaram a corrida. Essa edição é também, a par da edição de 1951, a que registou o maior número absoluto de classificados à chegada, em contraste com a edição de 1931, em que apenas 6 ecarros lograram terminar a corrida. No pólo oposto, a prova de 1971 regista a menor percentagem de classificados à chegada: 13,7 % (ou seja, apenas 7 dos 51 que iniciaram a prova). Por outro lado, os anos de 1950, 51, 53 e 55 foram os que registaram o maior número de participantes – nada mais nada menos que 60 – enquanto em 1930 apenas 17 equipas se apresentaram à partida.

Constituindo um imenso desafio às capacidades dos construtores automóveis, desde sempre a prova atraiu a si as grandes marcas, ávidas de inscreveram o seu nome na galeria dos vencedores e poderem ostentar no palmarés a glória suprema de vencer a maior prova de resistência do mundo, sinal da qualidade da sua capacidade industrial. Nesse aspecto, a Alemanha leva vantagem registando o maior número de vitórias, 24, distribuídas pelas suas 4 grandes marcas automóveis: PORSCHE, que é também a marca com mais vitórias (16), MERCEDES, BMW e AUDI. A França, no entanto já viu 9 marcas nacionais vencerem a prova, com destaque para a RONDEAU, vencedora em 1980 naquela que é a única vitória de um piloto-construtor, ainda para mais sendo Jean RONDEAU um verdadeiro ‘filho da terra’. Já no que toca a pilotos, é à Inglaterra que pertence o maior contingente de vitoriosos: nada mais nada menos que 32 pilotos consagrados.

O cartaz original do filme "Le Mans".

O cartaz original do filme "Le Mans", de Lee H.Katzin

As 24 Horas de Le Mans, como não podia deixar de ser, e injusto seria se não o fosse, também foram alvo dos senhores do ‘grande ecrã’. Concretização de um velho sonho do actor norte-americano Steve McQueen, verdadeiro entusiasta das corridas de automóveis, a edição de 1970 serviria de palco à realização, assinada por Lee H. Katzin, do filme “Le Mans”, no qual o próprio actor e promotor do filme encarna a sua personagem principal, Michael Delaney. Apesar de anunciada, a participação efectiva de McQueen na corrida, partilhando o volante de um Porsche 917 com (nada mais, nada menos que...) Jackie STEWART, acabaria impedida pelas suas seguradoras, pouco dispostas a aceitar os riscos inerentes. Certo é que a recolha de imagens reais da corrida seriam registadas pelas câmaras instaladas num Porsche 908/2 inscrito pela Solar Productions, produtora de McQueen, e conduzido pelo alemão Herbert LINGE e pelo inglês Jonatham WILLIAMS, que completaria 282 voltas ao circuito. Com esse mesmo carro, McQueen, fazendo dupla com o seu compatriota Peter Revson, havia alcançado uns meses antes (em 21 de Março de 1970) um impressionante 2º lugar (a apenas 22s do Ferrari 512S de Ignazio Giunti, Nino Vaccarella e Mário Andretti) nas 12 Horas de Sebring. Contrariamente a McQueen, que acabaria por nunca correr em Le Mans, o seu compatriota e contemporâneo colega actor Paul NEWMAN pode orgulhar-se de na sua única experiência nas ‘24 Heures’, em 1979, ter obtido um brilhante 2º lugar ao volante do Porsche 935/77A de Dirk BARBOUR (USA), com quem partilhou o volante, embora se diga que tal feito se deva sobretudo ao desempenho do alemão ROLF STOMMELEN, o terceiro (ou primeiro, será melhor dizê-lo) piloto da equipa.

Também o filme “Michel Vaillant”, sobre o célebre piloto, saído da imaginação e da pena do francês Jean Graton, que fez as delicias de muitos amantes da BD e das corridas de automóveis desde os anos 50, utiliza imagens reais das 24 Horas de Le Mans, concretamente da prova de 2002. Como sempre, os ‘bonzinhos’ Vaillant levam a melhor sobre os ‘mauzões’ Leader e tudo fica bem quando acaba bem… até à próxima corrida.

Sem imagens reais de Le Mans, mas parodiando, como sós britânicos sabem fazer com mestria, até aos limites do ‘non-sense’ a célebre corrida, Os Goodies, trio humorístico britânico cuja série animou os serões da RTP em finais dos anos 70, dedicam-lhe o episódio “The Race”, em que, sem qualquer deles saber conduzir, se lançam, à grande aventura ao volante de um ‘protótipo’ absolutamente ( e é o mínimo que se pode dizer) … extraordinário!

 Cartaz da primeira edição das 24 Horas de Le Mans com a designação de "Grand Prix d'Endurance de 24 Heures

Cartaz da primeira edição das 24 Horas de Le Mans com a designação de "Grand Prix d'Endurance de 24 Heures"

Hoje, 26 de Maio de 2007, celebram-se precisamente os 84 anos das “24 Horas de Le Mans”, naquele que é o ano da edição, a 75ª, correspondente às bodas de diamante. Só uma onda de greves que afectou significativamente a indústria automóvel francesa em 1936 e a 2ª Grande Guerra, entre 1940 e 1948, impediram a realização da corrida. Habitualmente, e após essa primeira edição disputada em Maio, a corrida disputa-se durante o mês de Junho, por altura do solestício de Verão, com excepção dos anos de 1956 (28/29 de Julho, por causa dos trabalhos subsequentes à tragédia de 1955), 1968 (devido aos célebres acontecimentos de Maio desse ano) e em 1986.

Já agora, saibam também que Le Mans tem actualmente outro filho dilecto a dar cartas ao mais alto nível no continente americano: Sebastien BOURDAIS, nascido naquela cidade a 28 de Fevereiro de 1979, e já com 5 partipações nas “24 Horas”, desde 1999, seguindo as pisadas do pai, Patrick BOURDAIS, que conta já 9 participações em Le Mans desde 1993.

Anexos

O circuito, em mapa e visto do céu, sendo perceptíveis as alterações correspondentes às suas várias versões:

Espectaculares imagens iniciais do filme “Le Mans”, com a largada ‘em espinha’, apenas adoptada em 1970:

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Uma volta ao circuito com…

Mike HAWTHORN (GB), Jaguar D-Type, 1956

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Peter SAVAGE (GB), Ford GT 40, 1967

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Jurgen BARTH (D), Porsche 936, 1977

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Derek BELL (GB), Porsche 956, 1983

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Christophe BOUCHUT (F), Mercedes CLR, 1999

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Colin McRAE (GB), Ferrari 550 Maranello, 2004

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Allan McNISH (GB), Audi R10, 2006

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Pescarolo 01/Judd, 2007

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Chevrolet Corvette C6.R, 2007

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O acidente com o Mercedes CLR em 1999:

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Da banda desenhada para o grande ecrã, Michel Vaillant em Le Mans:

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Os Goodies em Le Mans... sem mais comentários!

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Fontes:

www.ville-lemans.fr
www.lemans.org
www.planetlemans.com
www.mulsannescorner.com
les24hdumans.free.fr
www.caradisiac.com
www.mcestoril.pt
en.wikipedia.org
www.sarthe.com

Nota: artigo publicado originalmente no Fórum Autosport em 2007/05/26 e revisto em 2008/11/19.